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A Imoralidade da Terceirização 11/04/2016

Por Élio Gasda*

O capitalismo transformou o trabalho em meio de acumulação material. A maioria dos jovens e adultos dedica quase todo o seu dia e sua vida ao trabalho. Ainda é madrugada quando embarcam em transporte precário para enfrentar jornadas pesadas até o anoitecer. Gente sofrida em busca do pão de cada dia. O trabalho está no centro da problemática social.

O trabalho humano virou mercadoria. A sociedade do trabalho, inaugurada na Revolução Industrial, chegou à era do capitalismo global cognitivo. As tecnologias sempre novas, como WhatsApp, face, sms, e-mail etc. ajustam o tempo às exigências do mercado e desfazem a fronteira entre jornada de trabalho e vida privada. Estar conectado e disponível virou lei. O Uber é apenas um exemplo. Adaptado ao ritmo das máquinas, o trabalho absorve a vida, os sentimentos, o conhecimento, as relações humanas, a religião, a família.

Este capitalismo digital é um capitalismo financeirizado. O lucro das instituições financeiras cresce mais rapidamente que o setor produtivo. Os ganhos dos bancos disparam, enquanto os salários se estagnam e os juros sobem. Este fato ocorre simultaneamente à desregulamentação do mercado de trabalho, espremendo a população entre o fantasma do desemprego, da terceirização e das dívidas do cartão de crédito. Nunca tantos trabalharam sem proteções sociais, em condições de trabalho degradantes em troca de salários miseráveis. Trabalhar mais não significa sair da pobreza. Voltamos ao século XIX.

O Projeto de Lei 4330, da Terceirização, torna os trabalhadores ainda mais vulneráveis, pois as empresas poderão terceirizar quaisquer atividades. Já são milhões os que vivem uma situação em que não conhecemos sequer seus nomes nas empresas. Empresas procuram ritmos mais intensos de produtividade. Terceirizados trabalham, em média, 3 horas a mais por semana do que contratados diretamente e são os que mais sofrem acidentes e discriminação. Seu conformismo convive com o stress, fadiga crônica e enfermidades do trabalho. A intensificação da mercantilização do trabalho arruína a humanidade. A terceirização é a expressão da tragédia do trabalho do século XXI: violência, desemprego, redução de renda e de direitos.

As famílias muito ricas são as beneficiárias deste processo que impõe a precariedade, a insegurança e a instabilidade social e política à população. Toda a sociedade está inserida nesta economia que só faz aumentar as desigualdades. É falso que a riqueza de poucos beneficia a todos. As disparidades crescem e a riqueza acumula-se mais rapidamente no topo da sociedade do que o crescimento econômico.

O primado do trabalho sobre o capital pertence ao acervo da ética cristã. O trabalho é muito superior a todo e qualquer fator econômico. As fontes da dignidade do trabalho devem ser buscadas no ser humano. O fundamento para determinar o valor do trabalho não é o tipo de atividade realizada, mas o fato de aquele que o executa é uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-28). Eis o primeiro fundamento do valor do trabalho.

Trabalho decente “significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a expressão da dignidade essencial de todo o homem e mulher: Um trabalho que permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discriminação. Um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma condição decorosa” (Bento XVI, Caritas in veritate, n. 63). “Uma ecologia integral exige que se leve em conta o valor subjetivo do trabalho aliado ao esforço de se prover acesso ao trabalho estável e digno para todos” (Papa Francisco, Laudato si, n. 191).

* Doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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