A Pandemia, a Filosofia e cada um de nós

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A Pandemia, a Filosofia e cada um de nós

 

Elton Vitoriano Ribeiro SJ

O que os professores de filosofia podem falar sobre a situação da pandemia virótica atual? Algo, além da óbvia constatação de que é um evento mundial (talvez pela primeira vez na história da humanidade, realmente, mundial) e único em sua novidade de surpresa para nós seres acostumados com o controle da natureza? Difícil dizer algo diferente do que já estamos ouvindo nos noticiários o tempo todo. Certamente, os profissionais da saúde, médicos e infectologistas, possuem um olhar mais treinado para descrever a realidade e prescrever ações. Também os políticos e governadores, quando bem intencionados, ou seja, preocupados com o bem comum, podem discutir ideias e apontar caminhos melhores para a organização da sociedade neste momento de grande desafio. E os filósofos? O que podem dizer?

 

A situação dos filósofos é paradoxal. O pensamento de Hegel expressa este paradoxo. Por um lado, a Coruja de Minerva (um dos símbolos da filosofia) alça voo ao entardecer, ela abre suas asas somente no início do crepúsculo. “A filosofia como o pensamento do mundo, não aparecerá até a realidade concluir o seu processo formativo e finalizá-lo. (…) A coruja de Minerva levanta seu voo apenas quando as sombras da noite estão a se reunir”. Por outro lado, o próprio Hegel ensina numa de suas notas escrita em 1803: “Luta, arrisca mais que o hoje e o ontem! Serás assim não melhor que o teu tempo, mas esse tempo do melhor modo”. Para o jovem Hegel, a relação do filósofo com a sua temporalidade, especialmente nas questões de ética e política, deve conduzi-lo a viver, não melhor do que o seu tempo, mas seu tempo da melhor maneira.

 

Diante deste paradoxo, desta dificuldade, alguns poderiam objetar que “sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Mas, como nos ensina Ricoeur, o silêncio é a morte da filosofia. Ou mais concretamente, como disse Nietzsche, o filósofo é um ser falante. Talvez, por isso mesmo, um grande número de importantes filósofos e filósofas têm escritos pequenos ensaios, artigos ou simples notas sobre a situação atual. Não sabemos se servirão de material para estudos futuros. Mas expressam, como todo ser humano afetado pelo momento atual gostaria de expressar, um desejo sincero e coerente de pensar o próprio tempo para agir com sabedoria. Sabedoria (sofia), palavra tão antiga e tão fundamental para a filosofia.

 

O número de textos é grande. Apenas para citar alguns dos mais importantes pensadores da filosofia atual temos Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Jean Luc Nancy, Judith Butler, Alain Badiou, David Harvey, Byung-Chul Han, Markus Gabriel, Roberto Espósito e Nancy Frase. Poderia completar a lista com outros nomes latino-americanos, mais acessíveis a nós e menos midiáticos como os citados anteriormente. Caso resolvêssemos acrescentar os filósofos mais acadêmicos, ou seja, aqueles que aparecem pouco na mídia e possuem seu público, normalmente, reduzido aos muros das universidades, o número seria imenso. Daí uma primeira conclusão: apesar da dificuldade e do paradoxo, os filósofos falam, e falam muito. Mas, o que dizem?

 

Uma síntese das principais ideias é difícil. Alguns acham que diante da sociedade digital, do “virtual”, que não oferece resistência, estamos tendo que aprender a olhar novamente para o “real”. Um vírus microscópico nos afeta. Ele não é uma mera projeção de nossa subjetividade (como nos likes que damos nas redes sociais), nem tampouco resultado de perversos algoritmos a serviço do capitalismo neoliberal e muito menos consequência do domínio sufocante do patriarcado dominante. É o presente da realidade em sua negatividade, sua resistência. Quer dizer “a realidade se experimenta graças à resistência que ela oferece” (Byung Chul Han). O vírus é real, independente da minha opinião ele está aí, e destrói vidas. Além de vidas humanas ele destrói nossos modos de viver e compartilhar o mundo em que habitamos.

 

Outros dizem que a pandemia virótica traz consigo uma pandemia ideológica também. Ela contamina o capitalismo neoliberal atual. Essa pandemia, ideológica, cria falsos dilemas como, por exemplo, o de salvar vidas ou economias. Ela contamina nossa forma de ver o outro, aumentando o racismo contra os orientais, os imigrantes e os doentes. O medo nos transforma diante desses grupos de pessoas vulneráveis. Mas, também, a pandemia contamina a nossa subjetividade, nos tornando mais histéricos e paranoicos. Diante disso, surge o impedimento, saudável e necessário, de ir e vir. Teria aí instalado o germe de um estado de exceção como normalidade? Seria o capitalismo do controle total, como o chinês, mais eficaz para lutar e vencer esta situação, comparado com a democracia liberal das sociedades ocidentais? Estaria nascendo, junto com a pandemia, um novo paradigma biopolítico totalitário?

 

Para alguns autores, a situação atual nos ensina que precisamos de uma forma de viver que promova, cada vez mais, atitudes coletivas de solidariedade. Uma solidariedade espontânea que nos questione e nos inspire a buscar formas de viver globalizados por um lado; mas sem nos deixar levar pela destruição ecológica e pela sociedade de consumo tresloucado, por outro. Uma sociedade do cuidado coletivo, especialmente, cuidado dos mais velhos, das crianças e dos pobres. Mas, nem todos pensam assim. Para alguns, a pandemia virótica não promove a solidariedade. O afastamento social atual é que gerará uma sociedade mais individualista, medrosa e fechada.

 

Diante disso, uma revolução é possível? Todos acham que sim, que é possível e necessária. Uma revolução futura em nossos modos de ser, de viver e de nos organizar como sociedades globalizadas. Alguns pontos, hoje, são gritantes. Elenco três. Primeiro, a sociedade neoliberal, tão louvada, está em questão. Ela gera um falso dilema: salvar vidas ou economias? Percebemos que o neoliberalismo como racionalidade de organização social, não serve. Agora, quem nos salva é o público. Os Hospitais Públicos, que possuem grande capacidade de acolher os enfermos (SUS no Brasil). As pesquisas das Universidades Públicas, que estão buscando soluções médicas e farmacológicas para a pandemia. As Políticas Públicas, que podem nos ajudar na sobrevivência, seja na necessidade de alimentação diária por grande parcela da população que não possui recursos ou um contrato de trabalho (Bolsa Família, Seguro Desemprego etc.), seja porque vivem abaixo do índice de pobreza. Segundo, a ciência tem um grande valor. Contrapor ciência e opinião é o caminho mais rápido para colocar tudo a perder. O repúdio às vacinas, a terra plana, as ideologias alucinantes e as teorias da conspiração; ideias que circulam nas redes sociais afetando os mais simples, os ingênuos e os imbecis, não servem. O que serve é a boa e velha ciência, feita de financiamentos, de preocupação com os desafios reais das populações e com muito estudo e esforço. Terceiro, a intersubjetividade, as relações humanas, nos constituem, constituem nossa identidade. Por isso, aprender a conviver é sempre um desafio. Desafio crescente, agora que estamos todos mais dentro de casa. Famílias inteiras passam dias inteiros, juntas. Sobreviverão a esses desafios? Como aprenderão, novamente, a falar e a ouvir, a descobrir formas lúdicas para passar alguns momentos comuns de forma leve e saudável? Como serão criativas no cuidado mútuo e nos gestos de doação? Desafios necessários para a reflexão e ação neste tempo de pandemia.

 

Finalmente, de Aristóteles nos vem uma importante lição filosófica: “A esperança é um sonho que caminha”. Podemos dizer que esse sonho caminha diante das medidas sanitárias e econômicas fundamentais neste tempo de pandemia e, diante do fortalecimento dos princípios éticos e espirituais que nos ajudam a viver a solidariedade, o cuidado e a ação criativa como fundamentais para as nossas sociedades. A esperança, vivida e compartilhada, sempre nos abre ao futuro que pode ser melhor na medida mesma em que desejamos e trabalhamos na direção de nossos sonhos de um mundo melhor. Um mundo mais humano, mais ecologicamente integrado no todo de nossa realidade e mais consciente dos desafios cotidianos que são parte de nossas vidas e que nos fortalecem, como uma vacina, para enfrentarmos os desafios maiores como este que estamos vivendo agora.

 

Elton Vitoriano Ribeiro é jesuíta, professor e diretor do Departamento de Filosofia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)