Didática a distância ou didática de emergência?

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Didática a distância ou didática de emergência?

Washington Paranhos SJ

Todos, exceto aqueles que realmente estão implicados – crianças, jovens, adultos, que são os estudantes -, podem falar. Os termos são muitos: educação a distância, aulas em sistema remoto, aulas virtuais, aulas online etc. Se há algo muito claro, porém, que os alunos estão nos devolvendo nestes dias, é o quanto a proximidade, o estar na mesma classe, é a base para ir mais longe e se abrir para o mundo.

O vento assobia, a tempestade se agita, mas não é apenas o eco feliz da libertação. Por várias semanas, o debate sobre ensino a distância tem sido estrondoso. De todos os dispositivos e aparelhos tecnológicos possíveis, a cada hora do dia, as posições de todos os atores da comunidade educativa ressoam em nossos lares, nos jornais e telejornais: professores, educadores, psicólogos, pais. Todos, exceto eles, os envolvidos diretamente, os destinatários finais das lições remotas. Aqueles que deveriam ser os primeiros a se manifestar, são os últimos com direito à fala.

Eu mesmo, que tenho tentado ler e escrever tudo o que foi dito sobre o assunto há semanas (uma tarefa difícil, para não dizer impossível), de repente percebo (mergulho no coração!), que não tenho ideia do que meus alunos pensam, eles que são os únicos verdadeiros especialistas da faculdade. Envergonhado, tento me recuperar cada vez que penso sobre o assunto. Como está indo a aula com o PC? O que você sente falta nas aulas? E o que você gosta na nova maneira de aprender? Qual a maior dificuldade?

E na busca de compreender melhor a situação, conversei com alguns estudantes do ensino básico para saber deles o que pensam. Aqueles que estudam em escolas particulares continuaram com as aulas remotas dias depois da parada, mas a maioria que é da rede municipal e estadual de ensino só agora está retomando as aulas.

“Primeiro, sinto falta de amigos”, diz um deles. “Eu também sinto falta da professora” – afirma a outra – “quando eu cometo um erro, ela vem na minha carteira e me explica, ela me diz ‘aqui está o erro’ … Agora, em vez disso, sem alguém que se faz presente, devo continuar repetindo. É uma coisa ruim”. “Sinto falta da lousa – diz um jovem – Quando você não ouve o que o professor disse, porque você se distraiu por um momento ou talvez porque seu gato mordeu seus fones de ouvido e não há quadro-negro, você se perde e não entende mais nada. Ainda mais que preciso acompanhar as aulas na tela do celular”. “Ou porque o professor explica muito rápido e você não tem tempo para ler o quadro digital – acrescenta Manu – e você fica para trás com a explicação. Na lousa, a verdadeira, você tem muito mais tempo e mais espaço para entender; se você se distrair, é outra coisa”. “E, às vezes, todo mundo fala, outros escrevem no bate-papo, há confusão – Ralf acrescenta – e você não pode seguir o que o professor diz”. “Sem mencionar quando a conexão começa a falhar – diz Emanuela – o professor começa a gaguejar ‘aaaa … uuu … iii …’ e quando volta a funcionar, ele já passou a outra coisa e você está perdida”. “Então, às vezes, o microfone fica mudo”. “Ou seu colega não desliga o microfone e você ouve o fundo…, ‘vou apenas terminar de fritar…’”. A lista é longa: “Sinto falta do pátio, onde você brinca com os amigos”. “Sinto falta da recreação onde você joga, conversa, se diverte … vive”. “Não tenho privacidade … na escola, posso dizer coisas a um amigo sem ouvir toda a turma. Depois, a nossa casa é muito pequena e nem mesmo uma mesa para estudos temos em casa”. O elenco das coisas bonitas que se diz da escola na época do Covid-19 não acaba.

Enquanto os escuto, não consigo deixar de pensar em quão profundos são os desafios. Alguns são privilegiados e outros desprovidos. A distância entre realidades. Alguns têm uma casa cheia de livros, um pátio onde podem brincar. Outros vivem em situação desumana e lhes falta tudo, menos a alegria.

Um pequeno grupo conta com um PC e uma conexão estável, alguns professores que os ajudam em outros horários. E, no entanto, eles também, apesar de tudo, lutam terrivelmente para se conectar com a escola. Um outro grupo que não dispõe de absolutamente nada tenta acompanhar as aulas por meio do celular, quando os pais conseguem colocar créditos. É uma enxurrada de crianças e adolescentes que não possui PCs, tablets, conexões e pais capazes de acompanhá-los na navegação educacional, que talvez mora em bairros periféricos, em aglomerados vivendo o distanciamento social, com o fator desconhecido de não conseguir frequentar escolas, acampamentos de estudos, incapacitados de “formar um grupo” para estudos.

É inegável, como foi repetido várias vezes nas últimas semanas, que a emergência desses meses representa uma oportunidade, porque força a escola a se testar, a atualizar o ensino e a dar um salto adiante. E certamente é verdade que, neste momento, o Brasil está cheio de experiências extraordinárias, verdadeiras inovações pedagógicas que esperamos que façam escola. Mas a ênfase no que funciona – nos baixos 20% das escolas – acredito eu, não deve desviar o debate do âmago do problema.

O ensino a distância, na grande maioria dos casos, não funciona e tem o efeito de exacerbar as desigualdades. Os jornais têm mostrado com vários exemplos de todo o Brasil que a experiência não tem funcionado.

Não é apenas uma questão de divisão digital e falta de tablets e PCs, para serem recuperados a qualquer custo. O acesso às novas tecnologias pode integrar e enriquecer o ensino, mas o acesso ao espaço democrático da escola é a única garantia para a construção da inclusão e da cidadania. Por isso, penso que não devemos chamar isso de ensino a distância, mas ensino de emergência: porque o risco é ver esse momento de restrição, que nos obriga a usar apenas essas ferramentas, como prefiguração do futuro. Mas não é assim. Hoje é um modelo de escola necessária, anunciando experiências interessantes, mas somos absolutamente da opinião de que não pode ser a escola do futuro. Se há algo muito claro que estes alunos estão nos dizendo hoje, é o quanto a proximidade, o estar na mesma classe, é a base para ir mais longe e se abrir para o mundo.

Nesse contexto, o principal objetivo das próximas semanas e meses deve ser um esforço extraordinário para pensarmos na reabertura das escolas, como França, Alemanha, Espanha e Itália já começaram a fazer. Evidentemente, depois que o surto já tenha sido controlado e que os responsáveis tenham buscado fazer seu dever de casa, principalmente quanto à educação. É nesse momento que precisamos juntar esforços de toda a comunidade educativa. Necessitamos de novas ideias, precisamos do comprometimento de todos.

Washington Paranhos SJ é professor no Departamento de Teologia da FAJE