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“É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus fiéis” (Sl 116,15)

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“É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus fiéis” (Sl 116,15)

Rivaldave Paz Torquato O. Carm.

 

Duas divindades “gêmeas” resolveram tirar suas máscaras e deram-se as mãos: Mamon (“economia”) e Moloc (“antropofagia” ou “canibalismo”).[1] A primeira não pode parar e muito menos quebrar e a segunda devora vidas humanas. O livro de Provérbios prefere dizer: “A sanguessuga tem duas filhas: Dá[-me mais] e Dá[-me mais]… que nunca dizem: ‘basta’!” (Pr 30,15-16). Enquanto isso…!

A mídia anuncia dia por dia o aumento do número de contagiados e de óbitos no país e no mundo causados pela Covid-19. E assim, o povo tem sua atenção voltada para cemitérios abarrotados, cadáveres em câmaras frigoríficas, valas comuns para os mortos, sistema de saúde à beira do colapso. Parece clima de guerra, reina o horror, a incerteza, a insegurança, a desolação, a indiferença de boa parte do poder público. Gente morrendo na mais pura solidão. “Converte-se em luto a nossa dança” (Lm 4,15b). Sim! O livro das Lamentações se faz evento entre nós.

É verdade que muitos se comportam como se nada estivesse acontecendo. Aglomerando-se tomam sua cervejinha tranquilamente nos bares, vão às compras sem máscaras, circulam sem qualquer constrangimento ou precaução etc. A vida continua normal. No entanto, são já tantos que estão trabalhando o seu luto, entes queridos que sequer puderam assistir na morte ou sepultar dignamente. Se por um lado não é sensato sofrer por antecipação se ocupando de uma realidade ainda remota, a morte, por outro lado, nas circunstâncias atuais, ignorá-la seria iludir-se. Eis a ambiguidade da sapiência humana! Todavia, a morte não é ambígua. Ela chega mesmo quando não esperamos. Como enfrentá-la? Mesmo sabendo que, diante dela, é sábia a atitude do silêncio e da prece, partilho um pouco de ingenuidade ou inocência já que nenhuma elucubração suficientemente racional seria o bastante para desvendar este enigma da vida.

Para o poeta hindu R. Tagore: “Quando morre uma flor, nasce uma semente. Quando morre uma semente, nasce uma planta. E a vida continua seu caminho, mais forte que a morteDe fato, o que para a lagarta ao hibernar em seu casulo é o fim do mundo, é para o resto do mundo uma borboleta, dizia Lao-tsé. Entretanto, ainda que por analogia esta sabedoria elevaria o nosso pensamento, conseguiria nos ajudar a ultrapassar o mundo criado? Replicaria o cético!

Conta-se que uma dupla de gêmeos iniciou um diálogo no ventre materno. “Diga-me, você acredita realmente numa vida após o nascimento?” pergunta um deles. “Sim claro! Nós crescemos aqui dentro e ficamos forte para aquilo que vamos ser lá fora” respondeu o outro. “Eu creio que isso é uma estupidez”, disse o primeiro. “Não pode existir qualquer vida após o nascimento. Como então deveria ser isso?” “Como é exatamente eu também não sei. Mas será seguramente muito mais claro do que aqui. E talvez nós vamos andar com nossas pernas e comer com nossa boca”. “Algo assim tão absurdo eu nunca ouvi. Comer com a boca! Que ideia maluca! Nós temos o cordão umbilical que nos alimenta. E como vamos andar se este cordão é tão curto pra isso?” “Ah sim! Vai funcionar seguramente! Talvez um pouco diferente do que imaginamos”. “Você está mesmo louco! Até agora ninguém voltou depois do nascimento para contar. Após o nascimento a vida chegou ao fim. Ponto final!”  “Eu admito que ninguém sabe como é a vida após o nascimento. Mas eu sei que nós veremos a nossa mãe e ela se ocupará de nós”. “Mãe!?? Você acredita numa mãe? Me diga por favor: onde ela estaria então?” “Ah! “Aqui! Em todo canto ao redor de nós. Nós somos e vivemos nela e através dela! Sem ela nem poderíamos existir!” “Bobagem! De uma mãe nunca vi qualquer sinal. Portanto, ela não existe!” “Claro que sim! Às vezes, quando estamos em silêncio, podemos ouvi-la cantar. Ou mesmo senti-la quando ela acaricia o nosso mundo![2]

Lorota de crianças! Leva-se a sério? Esta analogia consolaria os enlutados por uma pandemia?

Na verdade, essas expressões poéticas e sapienciais são como setas que apontam para algo verdadeiro, conhecido e que nos ultrapassa: a morte não tem a última palavra! (cf. Rm 6,8-9). Segundo Paulo: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (I Cor 15,18). É o mesmo Cristo que diz: “Eu sou a ressurreição” (Jo 11,25). Nossos mortos apenas dormem. Jesus, ao falar da morte de Lázaro (Jo 11,13-14), diz: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo” (v. 11; cf. Dn 12,2). Ideia presente no termo cemitério, do grego koimeterion = dormitório, do verbo koimáo = dormir. Em outras palavras, o cemitério é “um provisório”. Nossos mortos “estão na paz” (Sb 3,3b) apenas aguardam o raiar daquele dia que não conhece ocaso (Ap 21,25b; 22,5). Talvez isso ajude a aliviar a dor daqueles que não puderam oferecer um sepultamento digno aos seus entes queridos.

A fé (a teologia) não explica o enigma da morte, mas busca e oferece um sentido. E que sentido poderia ter a morte? O morrer pode ter algum valor?

Certa vez, um rabino voltava da sinagoga. Já em casa, sentiu falta do seu filho. Algumas vezes enquanto jantava perguntou à esposa onde estava o filho. Ela dava evasivas respostas. Mais tarde – quando ele já tinha jantado – ela disse-lhe: “Alguns tempos atrás veio um alguém aqui e me deu uma penhora para que eu a cuidasse. Era uma pérola preciosa e de grande beleza. Eu tinha posto minha alegria nesta pérola como se ele fosse minha. Hoje, enquanto estavas na sinagoga, este alguém chegou e pediu sua pérola de volta. Devo devolvê-la?” De modo sério o rabino a repreendeu: “Mas que pergunta? Como podes hesitar em devolver um bem alheio a nós confiado?” Então a esposa o tomou pela mão e o conduziu até o quarto. Levantou o lençol e mostrou-lhe o filho morto. O rabino agarrou o filho gritando em desespero. A esposa disse-lhe: “Você não disse que a penhora alheia devia ser devolvida? ‘O Senhor deu, o Senhor tirou. Seja louvado o nome do Senhor!’ (Jó 1,21)”.[3]

Eis um sentido, devolver o bem alheio, aquilo que de fato não nos pertence (cf. Gn 2,7). Ele não nos rouba, apenas devolvemos. Jesus, na hora de sua morte, grita: “‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’. Dizendo isso, expirou” (Lc 23,46), isto é, devolveu o hálito de vida. Queremos conservar o sopro de vida recebido na criação e queremos os entes queridos vivos entre nós. É humano e justo. Todavia, isso escapa de nossas forças. Que Deus nos dê a consolação e a graça de aceitar o que não podemos mudar. Seja feita a Sua vontade! Que ele receba a sua penhora.

Isso pressupõe ver a morte não como um corpo estranho ou um adendo, mas como algo natural da nossa existência. Em seu diário, no dia 02/07/1942, a judia Etty Hillesum diz: “As pessoas precisam aceitar a morte como parte da vida, mesmo a morte mais terrível”.[4] A frase ganha força de testemunho uma vez que a autora, como revelam seus escritos e alguns testemunhos, entrou de cabeça erguida no Campo de Concentração nazista e atuou de forma solidária junto às demais vítimas até a morte.

Entre as mensagens que as pessoas trocam durante esta pandemia, circula nas redes sociais o caso de um senhor de 93 anos de idade que superou a Covid-19. Ao receber alta do hospital foi-lhe pedido que pagasse 500 Euros por dia pelo uso do ventilador. Ele começou a chorar. O médico perguntou se ele estava chorando por causa da conta. Ele respondeu: “Não é pela conta ou pelo dinheiro. Eu posso pagar tudo isso. Choro porque respiro o ar de Deus por 93 anos e nunca paguei por isso. Custa-se 500 Euros para usar o ventilador um dia no hospital. Você pode ter ideia o quanto eu devo a Deus? Eu nunca agradeci por isso antes”.

O místico judeu A. J. Heschel diz:

“A mais profunda sabedoria que o homem pode alcançar é saber que seu destino é ajudar, servir. (…) A aspiração [humana] é ter, mas a perfeição é dar. Este é o sentido da morte: a suprema dedicação de si mesmo ao divino. Assim entendida, a morte não será distorcida pelo desejo da imortalidade, pois este ato de entregar é reciprocidade da parte do homem pelo presente da vida dado por Deus. Para o homem piedoso morrer é um privilégio”.[5]

Outro judeu antes dele, perguntado sobre o que fazer “de bom para ter a vida eterna?” (Mt 19,16), respondeu: “Se queres ser perfeito, vai vende o que possuis e  aos pobres…” (v. 21). Visto nesta perspectiva, o morrer pode ser assumido como um gesto de gratidão a Deus pela dádiva da vida outrora recebida. Extrema doação de si como expressão do obrigado. Certamente, chegar a esta compreensão requer maturidade espiritual, grandeza de espírito. Um passo difícil para quem é centrado no ego. Oferecer o melhor de si ao autor da vida (At 3,15). Eis outro sentido: ação de graças, gratidão! A ingratidão é uma miséria humana.

O mesmo Jesus, no contexto da catequese do seguimento, diz: “Aquele que quiser salvar a sua vida a perderá…” (Mt 16,25; Mc 8,35; Lc 9,24) e “Quem ama sua vida a perde…” (Jo 12,25). A relevância da frase emerge já do próprio fato de que os quatro evangelistas a registraram. Jesus não era um fanático que desprezava a vida, antes focalizava a grandeza da abertura, do sair de si mesmo, do doar-se. A morte seria a última oportunidade de sacrificar o ego e sair de si na direção do outro e do Outro.

A morte é passagem. Nossa fé é pascal! É bela a expressão do Missal: “Aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada”.[6] Fortalece-nos saber que: “É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus fiéis” (Sl 116,15). Ora, Deus não é sádico. Ele nos acolhe em sua morada (cf. Jo 14,1-3). Para ele, os mortos vivem (Mt 22,31-32). Nesta fé, Santa Teresinha de Lisieux, em carta ao padre Bellière, escreve: “eu desejaria dizer-vos mil coisas que compreendo, agora que estou à porta da eternidade, mas não morro, entro na vida…”.[7] Se não estamos prontos a “dar a razão de nossa esperança” (cf. I Pd 3,15), podemos ter a grandeza dos apóstolos de dizer ao Senhor: “Aumenta em nós a fé” (Lc 17,5).

Penso que o enigma da morte aponta também para o mistério divino. Na dificuldade de entendê-lo e de explicá-lo, nutrir-se dele. E aos enlutados, que na verdade somos todos nós família humana neste momento, digamos de forma orante e esperançosa: “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,4; cf. Is 60,19-20).

Eu quero viver, pois este é o desejo de toda criatura. A vida é bela. Tenho sonhos e planos. Gostaria de viver neste mundo mais uns anos. Vou lutar para viver enquanto me restarem forças. Mas quando minha hora realmente chegar, pedirei a Deus tempo para dizer três palavrinhas. Caso eu não tenha este tempo, já as antecipo aqui. Às pessoas que causei algum dano, que desiludi ou frustrei: “de coração sincero me perdoe!”; às pessoas que enobrecem a vida humana, que realizam o sentido simbolizado na cruz doando-se como têm feito os agentes de saúde e prestadores de serviços essenciais: “O Senhor vos abençoe e vos guarde!” (Nm 6,24) e; a Deus: “Muito obrigado!

 

Rivaldave Paz Torquato O. Carm. é professor titular do Departamento de Teologia da FAJE

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[1] A primeira, mamôn é uma palavra hebraica para “dinheiro”, “riqueza”, “posses” (cf. Mt 6,24; Lc 16,9.11.13). A segunda, molek, (da raiz mlk, a mesma para reinar, dominar e para o termo rei), era a divindade que exigia sacrifícios humanos. Os fiéis deviam oferecer-lhe os próprios filhos (cf. p. ex.: Lv 18,21; 20,1-5; II Rs 23,10; Jr 32,35; Dt 12,31; 18,10).

[2] Esta narrativa se encontra disponível em algumas páginas da Internet. P.ex.: “Eine Weisheitsgeschichte: Die Zwillinge im Mutterleib” em: https://www.zeitlos-meditation.de/2017/05/12/eine-weisheitsgeschichte-die-zwillinge-im-mutterleib/ acessado em 12/05/2020, tradução nossa. Na mesma página o pensamento de Lao-tsé.

[3] Cf. Paul Jakobi. Damit das Glück Wurzeln schlägt, pp. 164-5, tradução livre nossa.

[4] Cf. Uma vida interrompida. Diário de Etty Hillesum, 1941-43, p. 212.

[5] Cf. O homem não está só, p. 302, cursivo nosso.

[6] Do Missal Romano, Prefácio dos Mortos I.

[7] Carta 244 de 9 de Junho de 1897, cursivo nosso.

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