Fascistas e democratas

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Fascistas e democratas.

Johan Konings SJ

A situação no Brasil e em outras partes do mundo, especialmente nos EUA, me lembra muito a divisão que conheci na minha infância na Bélgica pós-guerra II. Toda a sociedade, até no mínimo povoado, estava dividida (polarizada, se diz hoje) entre brancos e pretos. Nada a ver com raça, mas como tendência política. Os pretos eram os simpatizantes nazifascistas (com simpatias germanófilas, mesmo depois da derrota de Hitler) e os brancos eram os “belgicistas”, que propunham alguma forma democrática, embora de diversos modos dificilmente coadunáveis: os liberais (daquele liberalismo que conhecemos), os socialistas (mancomunados com os comunistas, democráticos “por enquanto…”), e os democrata-cristãos (mestres do meio-termo).

Deve ser difícil entender isso para quem não viveu naquele país trilíngue, que então abrigava oito milhões de habitantes num território do tamanho de Sergipe. Mas eu penso ver aí uma tipologia sociopsicológica dual, que talvez seja elucidativa para nossa situação aqui: os fascistoides não tinham paciência para resolver os problemas, gostavam de quem, como Alexandre Magno, cortasse o nó górdio com um golpe de espada, enquanto os democratizantes pediam paciência (às vezes muita…) para desintrincar o nó (daí a Bélgica ter fama de “país dos compromissos”, isto é, acordos em meios-termos).

Note bem que não chamo os fascistoides de fascistas. Penso, hoje, em operários, pequena classe média, caminhoneiros, donas de casa, empregadas domésticas, policiais comuns, tudo boa gente, bons paroquianos além de devotos da Rede Vida ou da Canção Nova… que perderam a paciência porque o partido trabalhista (que nunca governou sozinho) não resolvia os problemas, era corrupto etc. (qual é a novidade disso?). E foram acreditar num messias (dois mil anos depois que aquele que consideramos o verdadeiro messias morreu na cruz). Não viram ou não quiseram ver os progressos feitos durante a redemocratização depois de 1985 no nível social, econômico, cultural, diplomático etc. Não tinham paciência histórica, e o baixo nível de nossa cultura formal ajuda a explicar isso. E não é por nada que a primeira coisa que um ministro da “nova ordem” quer diminuir é o estudo de sociologia e história…

Nesse perfil cabe muito bem uma religiosidade milagreira e imediatista, como facilmente encontramos nas igrejas televisivas, fazendo da religião uma distração e fonte de renda, sem compromisso com a justiça social. E daí é só um passo até colaborar com forças antidemocráticas para ganhar uma gorjeta num momento em que o povo em geral passa pela pior crise.

Democracia significa diálogo, transparência, disposição para colocar as cartas na mesa e o dinheiro também. Não (só) democracia parlamentar, mas democracia real, social, para o bem do povo e não só de seus representantes (para não acontecer que o whisky seja “a bebida que o povo toma pela boca de seus representantes”). É o único caminho do progresso para todos. Os que querem avançar impulsivamente sozinhos cortam o galho no qual estão sentados: a sociedade cidadã.

Johan Konings SJ é professor no Departamento de Teologia da FAJE