Sagrado Coração

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Sagrado Coração

 

Johan Konings SJ

No dia 19/06 celebramos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, tradição cara à Companhia de Jesus por causa do Pe. Claude de la Colombière, que acompanhou espiritualmente a grande promotora dessa devoção, Marguerite Marie Alacoque. É a festa do amor de Deus por nós, que se manifestou em Jesus Cristo.

As três leituras da liturgia ressaltam a ideia do amor de Deus. Na primeira leitura (Deuteronômio 7,6-11) Deus dá a conhecer que libertou Israel da escravidão do Egito por puro amor a esse povo oprimido, não por ser um povo forte e poderoso, pois não era mesmo! Deus comiserou-se da miséria do povo, e resgatou-o por amor. A segunda leitura (1ª Carta de João 4,7-10) contém a frase, tantas vezes citada e tão pouco compreendida: “Deus é Amor”. Por isso, quem não ama, não pode conhecer Deus.

Isso é muito forte. Por isso, convém refletir um momento sobre o significado da palavra “amor” nesse contexto. Amar é doar-se ao outro de todo o coração. Não cegamente, obcecado pela paixão ou adoidado pela ingenuidade, mas de coração. O coração, na Bíblia, não é a fonte de reações sentimentais descontroladas, mas significa o conjunto das faculdades superiores do ser humano: a sensibilidade, a vontade e a inteligência. Com essas faculdades o ser humano é capaz de se doar a alguém, de aderir a alguém de um modo responsável, fiel e eficaz. E isso é “amar de todo o coração”. É esse tipo de amor que Jesus nos revelou da parte de Deus, ao qual ele chama de “meu Pai” e por isso nos ensina a rezar a Deus como “Pai nosso”. Tudo o que ele fez por nós vem de Deus e é dom de Deus por nós. Pois Deus amou primeiro e é a fonte do amor.

O evangelho desta festa é o júbilo de Jesus por causa do amor do Pai (Mateus 11,25-30). Porque ama a Deus como seu Pai, que o ama como Filho, Jesus fica feliz por poder revelar isso aos simples e aos pequeninos, enquanto os “sábios” não chegam a entender. Isso significa que o amor de Deus não é um privilégio para alguns. Os mais simples podem ser tocados por ele, e foi isso que Jesus assumiu como sendo a sua missão. Revelar o amor de Deus, não em livros de teologia, mas no dom de sua própria vida, vivendo e morrendo por amor. Quando seu amor aos pobres e pequeninos se tornou insuportável para os homens do poder, Jesus mostrou que seu amor vai além do que, humanamente, é o fim: a morte.

Isso tem muitas consequências. Nosso amor não é de nós, não dispomos dele arbitrariamente. Nosso amor não nos pertence, porém, nos é dado como sendo um dom de Deus, que nós distribuímos. Ora, só por nós, dificilmente podemos imaginar como isso deve ser. Por isso Deus deu seu Filho querido para nos mostrar seu amor: “Como o Pai me amou, assim também eu vos amei… Este é o meu mandamento, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a própria vida por seus amigos” (João 15,9.12-13).

Johan Konings SJ é professor no Departamento de Teologia da FAJE