Vidas vividas importam

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Vidas vividas importam.

Clovis Salgado Gontijo

Em memória de Eladio Pérez-González

 

Nos últimos meses, tão atípicos, sinto-me particularmente incomodado por dois pontos que, ao longo da pandemia, escancararam-se. O primeiro deles refere-se à descoberta do privilégio à vida. Sempre tive consciência de ser, em muitos aspectos, um privilegiado. No entanto, as regalias às quais tive acesso não me pareciam essenciais para a manutenção da vida. Pode-se viver sem ter estudado em boas escolas particulares, sem fazer viagens internacionais, sem frequentar teatros, sem comer alimentos orgânicos. Para muitos, alguns dos meus luxos talvez nem fizessem muita falta… No entanto, pela primeira vez percebi que os meus privilégios estavam vinculados a outro, mais indispensável. Tudo o que me foi concedido permitiu-me, hoje, zelar pela manutenção da vida. Nada me impede de seguir a prescrição do momento: “Fique em casa!”. As sacolas do supermercado chegam à portaria, enquanto me sento numa cadeira confortável para pesquisar, escrever e lecionar por via remota. Quando preciso assinar algum documento, o motoboy se encarrega de buscá-lo. É simples, cômodo e seguro.

Não posso me esquecer de uma das minhas poucas saídas nesta quarentena, em que me deparei com o chocante contraste entre cidadãos sem máscara num descoberto ponto de ônibus, ao fim da jornada de trabalho, e famílias de luvas e máscaras, aguardando a aplicação de uma vacina no estacionamento de uma clínica de luxo, encastelados em carros importados. As regalias que me haviam parecido mais modestas escondiam um privilégio maior e absurdo. É verdade que nem sempre se pode fechar o vidro à prova de bala para evitar os males e a morte, mas, agora, a possibilidade de se isolar revelou-se como a única comprovada prevenção. E, além do privilegiado confinamento, a recuperação dos infectados também tem se apresentado como “direito” só de alguns. A taxa de óbitos e de altas inverte-se, simplesmente, quando se compara um hospital da rede pública a outro particular. Perturbado por meu incompreensível direito à vida, só me resta o consolo de que o privilégio do isolamento repercute, em termos sociais, na contenção do vírus.

As diferentes vidas não partilham, nestes tempos, o mesmo inalienável valor. Cem mil mortes de desconhecidos são assimiladas com indiferença por aquele que não se viu privado de acompanhar as últimas horas de um ente querido. Talvez nada disso me afetasse, se fosse mais schopenhaueriano, afinal, seria esperado que cada ser agisse primeiramente por interesse próprio, no mundo regido pela sôfrega Vontade. Contudo, não é só a minha vida ou da pessoa amada que valem mais nesta era. Também estão em alta no mercado as vidas do jovem e do adulto produtivo. Quanto às vidas mais vividas, estas podem se apagar imediatamente, sem maiores prejuízos…

Esta é a segunda razão do meu incômodo. A desvalorização dos idosos no Ocidente pós-moderno, que tampouco é uma grande novidade, sustenta-se hoje numa ilusão, que a muitos tranquiliza. A morte concerne mais aos velhos que a mim. No entanto, enquanto estamos vivos, alguns se encontrariam mais tocados pela morte que outros? Em outra perspectiva, a morte seria uma questão mais de alguns que de outros? A ameaça suprema se ameniza ao perder algo da sua universalidade. Infelizmente, se a morte não é universal, a fraternidade que nos liga a um destino comum também se rompe. E, assim, a falta de compaixão se traveste na sentença supostamente realista: “Mas ele já ia morrer mesmo…”

Há poucos dias, inteirei-me da perda de uma figura lendária da cena musical brasileira e latino-americana. Por problemas prévios de saúde, agravados pela COVID-19, o barítono e professor de canto Eladio Pérez-González nos deixou. Alguém que não conhecesse esse senhor paraguaio de 94 anos, radicado há mais de setenta em nosso país, poderia imaginá-lo como chama bastante rarefeita, prestes a se extinguir. Contudo, não era este o caso. Eladio era vigoroso, manteve, até pelo menos a última vez que o vi, sua memória prodigiosa, sua perspicácia, sua sabedoria, seus sentidos sempre alertas, seu ouvido absoluto. Detentor de tantos privilégios imateriais, ele ainda teria muito o que ensinar, muito o que compartilhar. Não podemos afirmar, diante dos mistérios da existência, que uma morte ocorra antes da hora, mas não estamos autorizados a reduzir a significância de um luto e a gravidade de um vírus pela idade avançada da vítima.

Mesmo se Eladio não tivesse sustentado sua força flamejante até seus noventa anos, não teríamos o direito de compactuar com a indiferença ou com o negacionismo. Lembro-me da impactante obra La Mort, de Vladimir Jankélévitch, na qual o filósofo francês contemporâneo rebate exatamente a ideia de que, com a velhice, a vida perderia o seu peso ontológico. Convivemos com o preconceito de que a quantidade de ser decresce com a idade, como se o “ser” fosse mensurável. Desse modo, as vidas “velhas” pouco ou menos importam… No entanto, se a pele, o cérebro e, até mesmo, o coração envelhecem, a vida seria capaz de envelhecer?

Na contramão da cruel mentalidade vigente, Jankélévitch aposta que “a velhice é um modo de ser como a juventude e a idade madura; e esse modo de ser só é deficiente para uma supraconsciência sinóptica, à medida que compara, mede ou julga de fora. Vivido a partir de dentro, o presente senil não é mais vazio para o homem idoso que o presente juvenil para o homem jovem: há somente outro aspecto, outro ritmo, outro andamento, uma tonalidade diferente.”[1]

Para empregar, como o filósofo, uma linguagem musical, talvez esta pandemia esteja despertando a indignação necessária para buscarmos outros ritmos, outros andamentos, outras tonalidades na nossa organização social, na nossa compreensão do humano. As vidas carentes, as vidas depreciadas, as vidas maduras, as vidas recheadas de dores, de alegrias, de sonhos, de saudade, de poesia, as vidas recém-geradas ou bem vividas, enfim, sempre importam.

 

[1] JANKÉLÉVITCH, Vladimir. La Mort. Paris: Flammarion, 1966. p. 187.

 

Clovis Salgado Gontijo é professor do Departamento de Filosofia da FAJE. Dedica-se a temas como a Filosofia da Música, às poéticas noturnas e às interseções entre Mística e estética.