Luiz Sureki, SJ
Vivemos sob o signo do paradoxo: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e ‒ talvez por isso mesmo ‒ nunca fomos tão tentados a deixar de pensar. A preguiça intelectual é uma forma silenciosa de decadência cultural. Ela não se manifesta na ignorância, mas na indiferença diante da verdade. Não é a falta de informação, mas a falta de discernimento. Não é a carência de dados, mas o enfraquecimento do juízo.
Basta um clique para que tudo pareça à disposição: opiniões prontas, resumos instantâneos, respostas automáticas. Mas o perigo está justamente aí: confundir informação com compreensão. Pensar exige tempo, esforço, interioridade ‒ e nada disso combina com a pressa digital. Pensar é o modo pelo qual o espírito se reconcilia com o mundo. Quando abdicamos desse esforço, não apenas perdemos o gosto pelo pensamento, mas delegamos a outros ‒ sejam eles as redes sociais, os algoritmos, ou agora, as inteligências artificiais ‒ a tarefa de pensar por nós.
A preguiça intelectual é confortável. Ela nos poupa do confronto com o real, do incômodo de rever nossas certezas, do risco de errar e recomeçar. Preferimos repetir ideias que circulam bem, slogans que soam corretos, opiniões que reforçam nossa bolha. Mas, como dizia Kant em “O que é o Iluminismo?”: “a preguiça e a covardia são as causas pelas quais grande parte dos homens permanece voluntariamente na menoridade”. Pensar por si mesmo é o ato mais difícil e mais digno do ser humano ‒ é o primeiro passo da liberdade.
O filósofo não teme o esforço do pensamento; ele o acolhe como forma de vida. Em tempos de inteligência artificial, talvez devamos recuperar o que poderíamos chamar de inteligência essencial: a capacidade de discernir, de duvidar, de demorar-se nas perguntas antes de aceitar respostas. A filosofia não compete com a tecnologia, mas nos recorda que nenhum algoritmo pode substituir a experiência interior do pensar, esse silêncio fecundo onde o humano ainda se encontra consigo mesmo.
Superar a preguiça intelectual é recuperar o prazer da reflexão. É resistir à uniformidade das opiniões, à tirania da velocidade, à superficialidade do imediato. É voltar a acreditar que pensar vale a pena ‒ não para acumular dados, mas para compreender o sentido.
Há uma forma ainda mais sutil de preguiça intelectual: aquela que se disfarça sob o verniz da erudição. No meio acadêmico, o “pensar por escrito” corre o risco de se reduzir a um exercício de montagem: uma sequência de citações que substitui a voz do autor por um coro de vozes alheias. As pesquisas, para obter reconhecimento, parecem depender mais da extensão das referências bibliográficas do que da profundidade das ideias. Assim, o pensamento degenera em mera organização de pensamentos alheios, e a originalidade cede lugar à curadoria ‒ o gesto de quem apenas recolhe e dispõe ideias de outros, sem arriscar o próprio pensamento.
A história da filosofia não é bem uma história como as outras. Não se limita a repetir o que foi pensado, nem a traduzir tão somente o que já foi dito. Cada filósofo, ao pensar, não apenas recorda o passado ‒ ele o renova. A história da filosofia é, portanto, a própria história do pensamento em ato, sempre recomeçando em cada um de nós. Ler Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Kant, Espinosa, Hegel, Nietzsche, Heidegger, Foucault, Ana Arendt, Edith Stein ou Simone Weil não é visitar um museu de ideias antigas, mas reencontrar perguntas que continuam a nos interpelar hoje.
Citá-los é, antes de tudo, um ato de honestidade intelectual. É reconhecer que o nosso pensar nasce de um diálogo com aqueles que nos precederam. Mas esse gesto nobre não se confunde com a preguiça de simplesmente copiá-los. Quando os citamos para expressar e embasar o que pensamos à luz do que eles pensaram, não estamos apenas repetindo ideias, mas dialogando com elas, permitindo que nos questionem, nos inspirem e nos façam avançar.
Assim, o pensamento torna-se uma forma de comunhão: cada filósofo se inscreve numa conversa milenar que continua viva em nós, e que só permanecerá viva enquanto não tivermos preguiça de pensá-la novamente, com liberdade, rigor e amor pela sabedoria.
“A preguiça caminha tão devagar que a pobreza logo a alcança”; teria dito Benjamin Franklin. Não se trata apenas da pobreza material. Quem se entrega à preguiça de pensar empobrece o espírito: perde a capacidade de ver, de julgar e de criar.
O maior empobrecimento do ser humano começa quando ele deixa de se perguntar, de questionar, de ir às fontes, de conferir a verdade dos enunciados dos discursos filosóficos, teológicos, religiosos, políticos, econômicos e, não por último, hoje em dia, dos produzidos por fontes artificiais.
A virtude do caminho fácil, se existe, não nasce da preguiçosa facilidade, mas da consciência lúcida de quem diligentemente o escolhe e assume as consequências da própria escolha.
No início de um novo ano acadêmico na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, que estas palavras se tornem um convite dirigido a toda a nossa comunidade acadêmica, chamando-nos à vigilância e ao discernimento contínuo, a fim de não cedermos à letargia da preguiça nem cairmos na cegueira do ativismo.
Luiz Sureki, SJ é professsor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
12/02/2026

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