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Uma pedagogia enraizada na experiência espiritual dos Exercícios

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Estamos concluindo o ano inaciano, onde estamos tendo a rica oportunidade de conhecer mais de perto a espiritualidade inaciana e a experiência espiritual de Inácio de Loyola. Sabemos o quanto por toda a parte a Companhia de Jesus, ao longo dos séculos, desenvolveu sua ação apostólica em todos os campos. Qual a pedagogia que ela utilizou e segue desenvolvendo? Queremos nos aproximar da experiência espiritual inaciana, para captar a sua visão do mundo e da fé, que estão na base da sua pedagogia. Os Exercícios Espirituais, propondo um percurso determinado de caminho espiritual, promovem um modo característico de levar adiante um itinerário formativo pedagógico inaciano.  

 

Introdução: Articulando espiritualidade e pedagogia inacianas

A tradição pedagógica inaciana alimenta-se da experiência espiritual de Santo Inácio, cristalizada nos célebres “Exercícios Espirituais”. Nosso discurso deverá, pois, brotar do encontro entre espiritualidade e pedagogia, experiência espiritual e reflexão teológica, em um diálogo franco e enriquecedor que nos conduza a compreender melhor em que consistiria exatamente um viés inaciano no projeto educativo inaciano.

Nos textos que se seguirão, daremos três passos: no primeiro, queremos nos aproximar à experiência espiritual que o próprio Inácio vivenciou, atentos em recolher, em alguns pontos fundamentais, a sua visão do mundo, da fé, que está na base de sua pedagogia.

Em seguida, comentaremos algumas das dinâmicas internas dos Exercícios, que ilustram e propõem um determinado percurso espiritual, promovendo um modo característico de caminhar (um método!), aprofundando assim o discurso da nossa relação pessoal com o Senhor na Igreja.

Finalmente, no último ponto, queremos evidenciar no modelo pedagógico inaciano as inspirações, experiências que colaborem para formar modo de proceder inaciano na missão educativa do Corpo da Companhia, articulando espiritualidade e pedagogia.

 

A Tradição da Igreja é atravessada por uma variedade imensa de correntes e escolas espirituais. Algumas delas deram origem e ainda hoje geram um modo específico de fazer teologia. Pensemos como exemplo na tradição beneditina, franciscana, dominicana. Pois bem: e qual seria o modo propriamente inaciano de fazer teologia? Essa foi a pergunta que se fez o teólogo Christoph Teobald no seu artigo “uma maneira inaciana de fazer teologia”. Ele afirma que no século XX, quando ganhou mais força uma reflexão teológica sobre os Exercícios Espirituais – pensemos nas ricas contribuições de Erich Przywara, Gaston Fessard, os irmãos Hugo e Karl Rahner, Hans Urs Von Balthasar e outros – iniciou-se também a se perguntar se os Exercícios – e mais largamente ainda a espiritualidade e o Instituto da Companhia de Jesus – não veiculassem uma “maneira própria de fazer” (um “modus procedendi”) teologia[1].

Este modo próprio de fazer teologia revela-se sem dúvida na proposta pedagógica da Companhia de Jesus. Portanto, trata-se sempre de articular espiritualidade e pedagogia. A finalidade da pedagogia inaciana, nas palavras do antigo padre Geral Peter-Hans Kolvenbach, é a busca do desenvolvimento pleno de cada um a fim de possa alcançar a plena medida dos talentos recebidos de Deus. A atividade educativa da Companhia jamais se limitou a propor um conjunto de conhecimentos ou em preparar para uma profissão determinada, ainda que isso seja útil e importante para criar líderes cristãos de valor. O que se busca fundamentalmente na educação inaciana é muito mais o pleno crescimento da pessoa, em todas as suas dimensões, que conduza a um agir guiado pelo Espírito e pela presença de Jesus, o Filho de Deus e Homens para os outros[2].

Outro antigo Padre Geral dos jesuítas, o Padre Pedro Arrupe resumiu de forma muito feliz isso que dissemos, definindo a finalidade da educação jesuíta com a expressão “formar homens e mulheres para os demais”. O Padre Kolvenbach descreveu o aluno que sai dos centros educativos da Companhia como um jovem “bem formado, intelectualmente competente, aberto ao crescimento, religioso, rico em afetividade e comprometido em agir pela justiça em um serviço generoso ao povo de Deus. E acrescentou: “Pretendemos formar líderes no serviço, mulheres e homens que tenham competência, consciência e paixão pelo compromisso[3]. O Padre Arrupe não hesitava em afirmar que um Centro educativo da Companhia de Jesus deveria ser facilmente identificável como tal e toda educação ministrada aos nossos estudantes deveria dotá-los de uma certa “inacianidade”. E explica que “não se trata de uma atitude esnobe ou arrogante, nem um complexo de superioridade. É a consequência lógica do fato que, como jesuítas, vivemos e operamos em virtude deste carisma e nos nossos Centros educativos devemos prestar o serviço que Deus e a Igreja esperam de nós”[4], com humildade, responsabilidade e espírito de serviço à Santa Mãe Igreja.

O P. Kolvenbach sempre insistiu que para definir a identidade jesuíta dos nossos Centros é preciso fazer de modo que o nosso trabalho docente permaneça sempre unido e movido pela espiritualidade inaciana que o inspira. E nos lembra algumas ideias inacianas que iluminam e impulsionam nosso trabalho educativo:

“A visão inaciana de mundo é positiva, compreende o mundo de forma total, põe sua ênfase na liberdade, coloca-se a questão da realidade do pecado pessoal e social, mas faz sobressair o amor de Deus como mais forte que a fraqueza humana e o mal; é altruísta, potencializa a necessidade essencial do discernimento e oferece um amplo campo à inteligência e à afetividade na formação de verdadeiros líderes. Estes e outros temas inacianos não são algo de essencial para os valores que proclama um Centro educativo da Companhia?”[5].

 

A experiência espiritual inaciana, fonte de teologia e de pedagogia

Santo Inácio, desde os inícios da sua conversão, discerne o germe da sua espiritualidade. Na sua Autobiografia, ele mesmo nos conta sua experiência de ser agitado por diversos espíritos.  Durante sua convalescência em Loyola, refletindo sobre os pensamentos que lhe ocorriam, notava uma diferença:

“Pensando nas coisas do mundo provava muito prazer, mas quando, por cansaço, abandonava-os, sentia-se vazio e desiludido. Ao contrário, quando pensava em ir a Jerusalém descalço, não se alimentar senão de ervas, praticar todas as austeridades que tinha conhecido como sendo habituais aos santos, tais pensamentos não só o consolavam enquanto se detinha neles, mas também depois de tê-los abandonado sentia-se satisfeito e cheio de alegria…” (Aut. 8).

É notável que o ponto de partida da vida espiritual de Santo Inácio seja esta experiência tão simples na sua aparência: a sua reflexão sobre o que ele sentia. O seu conhecimento espiritual nasce do seu estupor diante desta situação espiritual: “Até que uma vez se lhe abriram um pouco os olhos e, maravilhado daquela diversidade começou a refletir sobre ela: por experiência tinha deduzido que alguns pensamentos o deixavam triste e outros, alegre; assim, pouco a pouco aprendeu a conhecer a diversidade dos espíritos que se agitavam nele: um do demônio, outro de Deus” (Aut. 8).

Essa atitude de examinar-se será muito característica na pessoa de Inácio. Seus companheiros o notaram. Assim Ribadeneira observa a seu respeito: “Sempre conservou o hábito de examinar a sua consciência a cada hora, perguntando-se com grande cuidado como essa hora tinha transcorrido”[6]. É claro que Inácio deverá ainda dar outros passos, rumo à sua interioridade. Ele mesmo confessa que, no início, sua alma estava ainda cega, não sendo capaz de compreender o que se passava no seu interior:

“E nestes pensamentos tinha toda a sua consolação, não olhando a nenhuma coisa interior, nem sabendo o que era humildade, nem caridade, nem paciência, nem discrição para regular ou medir estas virtudes, senão toda a sua intenção era fazer grandes obras exteriores, porque os santos também as tinham feito para glória de Deus, sem olhar a qualquer outra circunstância” (Aut. 14)

“Até esta altura tinha sempre continuado quase num mesmo estado interior, com uma grande igualdade de alegria, sem ter nenhum conhecimento de coisas interiores espirituais” (Aut. 20)

Podemos distinguir um duplo fruto desse período de convalescença de Inácio em Loyola: o primeiro é uma conversão real, definitiva, que o arranca do mundo e o coloca decididamente a serviço do Senhor. O segundo fruto é um modo de vida novo[7], baseado no desejo do maior serviço de Deus na imitação de Cristo pobre e humilhado. A perspectiva de ser educado por Deus o marcará profundamente:

“Neste tempo, Deus tratava-o como um mestre-escola trata uma criança, ensinando-o. E quer isto fosse pela sua rudeza e fraca inteligência, ou porque não tinha quem lhe ensinasse, ou pela firme vontade que Deus lhe tinha dado de O servir, via claramente e sempre pensou que Deus o tratava desta maneira. Pelo contrário, se duvidasse disto, pensaria ofender sua Divina Majestade” (Aut. 27).

Ao concluir seu relato na Autobiografia, Inácio nos revela que o que ele mais estimava não eram as visões e ensinamentos distintos (que nunca lhe faltaram, como podemos acompanhar pelas páginas que chegaram até nós do seu Diário Espiritual), mas sim a “facilidade para encontrar Deus”:

“Mais ainda, sempre crescera em devoção, isto é, em facilidade de encontrar a Deus, e agora mais que nunca na sua vida. E sempre e a qualquer hora que queria encontrar a Deus, O encontrava. E ainda agora tinha muitas visões, principalmente das referidas acima, de ver a Cristo como sol etc. E isto acontecia-lhe frequentemente quando estava a tratar de coisas de importância, e aquilo servia-lhe de confirmação etc. (Aut. 99).

O que caracteriza a experiência espiritual de Santo Inácio é a consciência elevada que ele sempre conservou, a respeito do que acontecia dentro da sua alma. Falamos aqui do termo “sentir”, característico de Santo Inácio, que ele utiliza no sentido que hoje damos à consciência espiritual, distinta de um mero saber intelectual. Ele nunca se contentou com o que ia conhecendo a respeito da vontade de Deus. Quer “sentir” a vontade de Deus mais e mais, conhecê-la experimentalmente, através da ação de Deus na sua alma”[8]. É próprio da experiência espiritual o querer conhecer os acontecimentos a partir do interior[9].

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

 

[1] Ch. THEOBALD, Une manière ignatienne de faire de la théologie, Nouvelle Revue Théologique 119 (1997) 377.

[2] A Pedagogia inaciana. Uma Proposta prática (de agora em diante PPI), publicado pelas Edições Loyola, São Paulo, 1993, n. 12.

[3] PPI, n. 13

[4] Pedro ARRUPE, Nossos Colégios Hoje e Amanhã, São Paulo: Loyola 1998, 3a. ed.,  n. 10.

[5] Peter-Hans KOLVENBACH, Discorso all’Università di Georgetown, 7 giugno 1989.

[6] P. de RIBADENEIRA, De actis Patris Notris Ignatii  n.42 (in FN II 326).

[7] Cf. Charles-André BERNARD, Pour mieux donner les Exercices Spirituels, CIS, Roma 1979, 20-21.

[8] Cf. José AYERRA, San Ignacio e la Voluntad de Dios, Manresa 28 (1956) 82.

[9] Cf. Charles-André BERNARD, L’homme spirituel selon Saint Ignace. Pro manuscripto, 27.

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