A caridade “mais ampla” (FT,180)

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Geraldo De Mori ,SJ

“permanecem agora esses três dons: fé, esperança e caridade. O maior deles, porém, é a caridade” (1Cor 13,13).

Mais um episódio envolvendo “religião e política”, que a maioria das pessoas que se diz religiosa busca dissociar, vem atraindo a atenção da mídia: a da prisão, no dia 22/06/2022, do ex-ministro e pastor Milton Ribeiro, junto com os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, acusados de tráfico de influência e corrupção para a liberação de recursos públicos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), vinculados ao MEC. A disputa de narrativas que se instaurou e alimenta as mídias não pode desviar a atenção do mais importante: que lugar tem a religião num estado laico?

Nas sociedades ditas tradicionais não existe a separação entre religião e política. Em geral, a religião ou as religiões respaldam o que fazem os governantes ou o poder do estado. Por isso mesmo, a famosa aliança entre “trono” e “altar” parecia constitutiva do “modus operandi” das diferentes composições políticas criadas pelos diversos povos e sociedades ao longo da história. No judaísmo, essa vinculação, embora tivesse atraído o povo eleito depois do período dos juízes, o que o levou a demandar um rei (1Sm 8), que era o representante de Deus no meio do povo, estava submetida à crítica profética, sempre atenta às infidelidades do rei à aliança, através da introdução de cultos idolátricos, cuja tradução social era a injustiça e o esquecimento dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros, os “preferidos de Deus” segundo a revelação veterotestamentária. O cristianismo, apesar da clara orientação de Jesus, “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21), ao tornar-se religião oficial do império romano (Edito de Tessalônica em 380) e, depois dele, de tantas outros estados ditos “cristãos”, repetiu o que todas as religiões haviam feito até então, tornando-se o garante “sagrado” da ordem política e social em vigor, apesar das muitas posturas críticas e proféticas de tantas pessoas que, ao longo de sua história, se levantaram contra o poder estabelecido.

A Independência das Colônias Norte-Americanas (1776) e a Revolução Francesa (1789) estão na origem da separação entre estado e Igreja, que, sob muitos pontos de vista, subjaz às constituições de boa parte das sociedades ditas democráticas ou modernas. Esta separação não é compreendida da mesma maneira em todas elas e há muitas culturas para as quais ainda vigora a antiga aliança entre o “trono” e o “altar”, seja sob as formas tradicionais, seja sob novas modalidades, nas quais, muitas vezes, a religião é utilizada pelo poder político para respaldar sua legitimidade ou suas decisões.

A Igreja católica, apesar das relações conflituosas que teve com a modernidade, que a levaram a perder todos os territórios dos quais dispunha no que hoje é a república italiana, elaborou aos poucos uma reflexão importante sobre o lugar da política na vida dos fiéis católicos e sobre a relação entre fé e política. Pio XI, que foi Papa entre 1922-1939, além de posicionar-se contra o fascismo, o racismo e de exortar os fiéis diante dos enganos do comunismo ateu, fez um discurso à Federação Universitária Católica Italiana em 1927, articulando política e caridade. Na Fratelli tutti, o Papa Francisco retoma essa articulação de Pio XI e afirma que “um indivíduo pode ajudar uma pessoa necessitada, mas, quando se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos, entra no “campo da caridade mais ampla, a caridade política” (FT 180). O ingresso dos cristãos nesse espaço da “caridade mais ampla”, identificada como “caridade política” não se dá mais da mesma forma que quando a Igreja buscava tutelar o Estado ou abençoar o que nele era feito. A “laicidade do Estado”, tantas vezes advogada pelos herdeiros dos grandes debates que opuseram Igreja e Estado no processo que deu origem à separação das duas esferas, nem sempre é observada pelos que exercem o poder e pelos que os elegem. Em alguns casos, como na atual guerra na Ucrânia, houve, por parte de autoridades eclesiásticas, ambas “cristãs”, a bênção de armas. No Brasil, não só o atual mandatário do Planalto busca o tempo todo arregimentar as forças dos cristãos, de procedência evangélica e católica, mas utiliza-se da fé e do imaginário do evangelho para propósitos contrários à vida e à pregação de Jesus de Nazaré e dos ensinamentos autênticos de todas as Igrejas que se inspiram nesse mesmo evangelho.

Esse texto não tem a pretensão de “jogar pedras” nos pastores evangélicos denunciados por envolvimento em corrupção e tráfico de influência no MEC. Tampouco quer engrossar as vozes dos que insistem em identificar política e corrupção, levando à sua demonização. Enquanto os/as brasileiros/as não souberem quais são seus direitos e não irem à luta por eles, oportunistas de todas as tendências, inclusive se dizendo pertencentes a bancadas evangélicas ou cristãs, continuarão a fazer o que querem com os recursos públicos, que, por direito, devem ser aplicados em benefício do povo, não de um político ou de um partido. Ao aceitar a “autonomia” das realidades terrestres (GS 36), o Concílio Vaticano II não quis separar de forma radical fé e política, fé e economia, fé e sociedade, fé e cultura, mas mostrar que os fiéis devem estar presentes, como “fermento”, que leveda a “massa” dos ambientes em que se encontram, em todas essas instâncias, permeando-as dos valores do Evangelho. Mais que dominar ou sacralizar a sociedade, o estado, a cultura, trata-se de, com pessoas de diversas tendências e confissões, buscar o que é o “bem comum”, que diz respeito a uma justiça para todos/as.

No Brasil, no período que se seguiu à recepção do Concílio Vaticano II, mas já antes, com os militantes da Ação Católica, muitos fiéis fizeram e fazem da política o lugar de sua presença e atuação no mundo. O mesmo acontece entre os fiéis de outras igrejas e religiões ou entre pessoas imbuídas de princípios humanistas que participam ativamente na construção de um mundo mais justo para todos/as. Não se pode, por isso, de imediato demonizar a política e identificá-la com malversações, desvios, roubos. O desgosto pela política é o primeiro passo para que grupos de interesse poderosos entrem com suas pautas, exacerbando o fosso que separa ricos e pobres. Uma prova gritante disso é a “passagem da boiada” na Amazônia, que tem aberto as portas para todos os tipos de interesses escusos, ou a desconstrução de tantos direitos duramente conquistados na Constituinte de 88 e a duras penas implementados. Em grande parte, setores ativos da Igreja, em diálogo e parceria com outros atores sociais, foram construindo uma série de políticas públicas que permitiram ao país avançar a grandes passos na proteção dos direitos dos trabalhadores/as, na defesa do meio ambiente. Porém, a partir do momento em que a política, com as manifestações de 2013, começou a ser objeto de suspeita, o desinteresse por ela por parte dos/as cidadãos/ãs levou o país à situação em que se encontra hoje. Não há, porém, saída a não ser através da política. Por isso, a CNBB lançou o projeto “Reencantar a Política”, que não busca apenas preparar os fiéis católicos para as eleições de 2022, mas quer mostrar a importância do aprendizado da cidadania através da política, que, como tanto insiste o atual Pontífice, é a forma mais alta e plena da caridade. E a caridade, como mostram os textos no Novo Testamento, é o resumo e a “plenitude da lei” (Rm 13,10), revelada no dom de Cristo.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE