A coragem de ser… e de agir

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Geraldo De Mori, SJ

No mundo tereis aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33)

A coragem de ser, obra do teólogo germânico-estadunidense Paul Tillich, traz em seu título o termo “coragem”, sempre utilizado pelo filósofo e padre jesuíta João Augusto Anchieta Amazonas Mac Dowell, falecido no dia 13 de setembro de 2022, aos 88 anos de idade, dos quais 72 como jesuíta e 60 como padre, cumpridos um dia antes de sua morte. Dentre as mensagens e recordações de pessoas de todo tipo que o conheceram, destacam-se “inteligência” e “humildade”. Curiosamente, o termo que ele mais utilizava ao se despedir de alguém ou para estimular uma pessoa a ir adiante, a saber, “coragem!”, não foi muito mencionado. O presente texto quer ser uma homenagem ao grande companheiro jesuíta, mostrando como o termo que ele mais utilizava tem sua origem numa das experiências mais fundamentais da existência: aquilo que a ameaça.

Paul Tillich, como acima foi assinalado, utilizou esse termo em uma de suas obras, que reúne uma série de artigos, dentre os quais uma conferência que tinha como tema “Coragem e transcendência”. Coincidentemente Tillich teve como um dos autores que o provocaram a pensar Martin Heidegger, o mesmo ao qual Pe. Mac Dowell dedicou grande parte de sua pesquisa e vários de seus ensinamentos e escritos. Heidegger, em sua obra Ser e tempo, propõe uma análise existencial do ser para o qual a existência é compreensão. A este ser ele denomina Dasein, que, em geral é traduzido para o português como “ser aí” ou, como preferia Pe. Mac Dowell, “o aí do ser”, que é o ser humano enquanto busca e dá sentido à sua existência. Em sua análise do Dasein, Heidegger conclui que a maior parte do tempo as pessoas estão “preocupadas”. Ora, esse termo é o resultado de um prefixo, “pre”, que remete à ideia de antecipação, e do termo “ocupado”, que evoca a ideia de indisponibilidade a fazer outra coisa. Esse tipo de existência, diz o autor de Ser e tempo, não tem sentido ou é impróprio ou, segundo muitas traduções, “inautêntico”. Tillich, retomando em parte essa análise, mostra que as muitas “preocupações” dispersam as pessoas, impedindo-as de encontrarem o que está por detrás de toda preocupação, a saber, a “preocupação última”, traduzido também como “interesse último”. No fundo, todo ser humano é buscador, mas na maior parte do tempo se dispersa ou erra o alvo de sua busca. Santo Agostinho já havia refletido sobre isso a partir do termo “inquietude” ou “coração inquieto”, que outros teólogos cristãos da época patrística chamavam de “desejo de Deus”. Para Tillich, a “preocupação última” só tem solução com o encontro com o incondicionado, ou, retomando a reflexão de Agostinho, com a experiência do “repouso da alma em Deus”.

A preocupação que leva à dispersão esconde muitas vezes uma experiência mais radical e elementar, como a da “angústia” ou a do “medo”, que ameaça a própria existência, levando-a muitas vezes a permanecer na dispersão da preocupação. Para Heidegger, essa dispersão, que é o modo de existir da maioria das pessoas, só pode ser vencida através de uma “decisão antecipatória”, que leva o Dasein a acolher que ele é finito, mortal. Tillich, inspirado em outros autores, como Kierkegaard, e criticando os que haviam pensado a solução para a preocupação em um Deus criado pela razão, propõe o salto na transcendência do “Deus acima de Deus”, fonte da coragem de ser. Esta “coragem de ser”, segundo ele, é potência do ser e enraíza-se na transcendência.

O apelo à “coragem”, tão presente nas conversas do Pe. Mac Dowell, remete então ao que há de mais radical na existência que quer enfrentar tudo aquilo que a dispersa ou a leva a viver uma vida sem significado ou inautêntica, ou ainda o que a leva a se sentir ameaçada, e que se expressa como angústia, medo, sem sentido ou solidão.

Inteligência e humildade, termos utilizados por várias pessoas para falar do Pe. Mac Dowell, resumem sem dúvida sua biografia. Originário de uma família com uma história importante em Belém do Pará e em Recife, ao ingressar na Companhia de Jesus, nunca fez de sua origem motivo para diminuir ninguém. Pelo contrário, utilizou todos os dons que Deus lhe deu, dentre os quais a brilhante inteligência, a capacidade enorme de trabalho, o gosto pela reflexão e pela conversação e reflexão, para ajudar os que dele precisavam, seja na acolhida da pessoa mais humilde, seja nos contatos com pessoas que tinham poder, seja nas tarefas importantes que desempenhou na Companhia de Jesus, como as de reitor da PUC Rio, reitor da FAJE, Provincial dos Jesuítas, Assistente Regional da América Latina Meridional, função importante no governo geral dos Jesuítas.

O estímulo à “coragem” com o qual sempre concluía uma conversação, além de remeter a uma atitude radical, que diz respeito ao modo como alguém é chamado a se colocar diante da vida e de suas inumeráveis surpresas, boas e más, traduziu-se também em sua vida segundo a maneira como esse estímulo é compreendido na linguagem comum. Em geral, o estímulo à coragem é associado ao comportamento de pessoas heroicas e destemidas, como os guerreiros, os lutadores e os desportistas. Essa atitude também esteve presente na vida do Pe. Mac Dowell, sobretudo quando se defrontou com doenças que lhe demandaram grande capacidade de resiliência, paciência e luta.

Mas a coragem não é somente uma atitude, pelo menos não na vida de Pe. Mac Dowell, cuja existência foi um contínuo colocar-se ao serviço da missão recebida na Companhia de Jesus. Além de realizá-la com competência, responsabilidade e dinamismo, sempre associava à mesma algo mais, em geral relacionado ao serviço aos mais pobres. Enquanto Assistente Geral, por exemplo, se fez voluntário no Centro Astalli, que acolhia migrantes em Roma para dar-lhes comida. Não media esforços para atender quem quer que o buscasse para confissões, direção espiritual, acompanhando grupos de casais das Equipes de Nossa Senhora, das Comunidades de Vida Cristã (CVX).

Santo Inácio de Loyola, numa das “Notas” que propõe antes da Contemplação para alcançar amor, afirma que o “amor deve pôr-se mais em obras que em palavras”. Esta nota, sem dúvida, traduz bem o que foi a vida do Pe. Mac Dowell, em sua incansável busca de expressar o amor recebido de Deus em sua vida e em sua fé, em obras. A Companhia de Jesus perde com sua morte um grande “operário da vinha do Senhor”. A Igreja e o mundo da filosofia no Brasil também. Por isso, como já afirmava o sábio Sirácida, “façamos, pois, o elogio dos homens ilustres” (Si 44,1). Esse elogio, mais que enaltecer qualidades ou capacidades, feitos ou sucessos, é o esforço de fazer memória, pois, como tem insistido o Papa Francisco em muitos de seus últimos ensinamentos, é necessário de novo redescobrir o lugar dos “avós”, dos “patriarcas” e “matriarcas”, ou seja, da memória. Ser capaz de reconhecer o legado recebido dos “homens ilustres” é, por um lado, ser capaz de ser grato, por tanto bem recebido desses homens, e, por outro, ser capaz de deixar-se interpelar por aquilo que viveram e deixaram como contribuição para a humanidade. No caso do Pe. Mac Dowell, além, sem dúvida, de sua inteligência e humildade, seu convite a assumir cada momento da vida com coragem.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE.

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