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A difícil alteridade no interior da Igreja

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Num contexto marcado pela polarização extremada, discursos de ódio, violências e acusações, exasperadas pelas últimas eleições, salta aos olhos a urgência de refletirmos sobre essa triste realidade ao interno da Igreja. Reflexo e expressão de uma incapacidade de aceitar o diferente que permeia nossa sociedade. Retomo para nossa reflexão um importante artigo de Darío Molá[1] sobre o tema e desenvolvo minhas reflexões.

Embora nos últimos tempos o tema tenha viralizado nas redes sociais, com pesar constatamos que não é algo emergente somente agora. O Papa Francisco, na “Evangelii gaudium” (EG), de 2013 (quase 10 anos atrás!) já apontava para essa realidade no interior da Igreja, em um dramático capítulo onde trata da “Crise do compromisso comunitário”, nos nn. 98-101 que é preciso, de todos os modos, dizer “Não à guerra entre nós”. Recordo algumas frases significativas desse trecho:

“Dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no local de trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre cristãos!”.

“Alguns deixam de viver uma adesão cordial à Igreja por alimentar um espírito de contenda. Mais do que pertencer à Igreja inteira, com a sua rica diversidade, pertencem a este ou àquele grupo que se sente diferente ou especial”.

“me dói muito comprovar como nalgumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com estes comportamentos?”

Como enfrentar essa realidade de desencontro, divisão e ataques recíprocos e assumir uma eclesiologia de comunhão, proposta pelo Vaticano II, fundada na oração do Senhor “Que todos sejam um!” e que suplicamos na celebração eucarística (“Te pedimos humildemente que o Espírito Santo congregue na unidade a quantos participam do Corpo e Sangue de Cristo” – 2ª. Oração eucarística)?

Respira-se, principalmente nas redes, um clima de suspeitas, reprovação, acusações entre grupos de distintas sensibilidades. Quais seriam, pergunta-se Darío Molá, os elementos objetivos que, pese a boa vontade das pessoas (que nem sempre aparece), obstaculizam um projeto de uma Igreja em comunhão?

Ele aponta algumas possíveis explicações. Uma primeira possível estaria na forma como as pessoas religiosas vivemos em ocasiões as verdades de nossa fé. As vivemos como verdades inquestionáveis, que não admitem matizes nem discussão, diálogos ou polêmicas humanas. Elas são vividas, também, com uma carga emocional importante, pois são verdades que significam muito para nós, que nos ensinaram ser verdades fundamentais, nas quais colocamos toda nossa segurança. O temor de que elas possam cair por terra, serem atacadas, questionadas, detona em nós atitudes (muitas vezes violentas e irracionais) de revide ou enclausuramento.

Temos que admitir, também, que nem todos nós sabemos respeitar uma adequada hierarquia das verdades. Tendemos a “achatar” todas num mesmo nível. Os números 34 a 39 da “Evangelii Gaudium” trata exatamente das “verdades que são mais importantes por expressar mais diretamente o coração do Evangelho”. Recolhamos os textos mais importantes:

No mundo atual, com a velocidade das comunicações e a seleção interessada dos conteúdos feita pelos mass-media, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários. Consequentemente, algumas questões que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora do contexto que lhes dá sentido. O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos parece então identificada com tais aspectos secundários, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos não manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, convém ser realistas e não dar por suposto que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fascínio.

Parece-me que certas discussões e ataques que povoam a rede parecem exatamente concretizações desse parágrafo. O fato do desconhecimento do contexto, de que alguns aspectos secundários não podem de modo algum serem absolutizados, o perigo de lançar na rede reflexões e informações sem que sejam respeitadas as pessoas que estão do outro lado da tela e que têm uma sensibilidade própria que eu desconheço, tudo isso causa as incompreensões e desentendimentos.

 Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimir mais diretamente o coração do Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que «existe uma ordem ou “hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente» (Unitatis redingretatio 11). 

O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos. Este convite não há de ser obscurecido em nenhuma circunstância!  Todas as virtudes estão ao serviço desta resposta de amor. Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter «o perfume do Evangelho».

Quem em sã consciência poderia afirmar que hoje é capaz de filtrar o fluxo ininterrupto de informações e desinformações que nos chegam, sob esse critério da caridade, que é o coração do Evangelho? Quando um determinado grupo ou movimento fecha-se sobre si e declara todos os que pensam diferentes como “inimigos a serem combatidos”, “hereges” etc., estão ainda anunciando o Evangelho?

Darío Molá aponta ainda um outro ponto interessante: ele se pergunta quando algum grupo ou pessoa de põe a defender ferrenhamente uma determinada doutrina ou posição, será que, mais do que defender o evangelho, não se trata de defender a si mesmos e aos seus interesses que sentem estar ameaçados? Defendemo-nos de nossos medos, queremos afastar para o mais longe possível nossas inseguranças e, por essa razão, percebemos qualquer tentativa de questionar ou negar alguns aspectos de nossas verdades, como sendo um ataque inclusive pessoal. Apropriamo-nos de certas “verdades” e as defendemos como “propriedade” nossa que não podemos ceder em nenhuma circunstância.

Na sua Carta encíclica “Lumen fidei” (29 de junho de 2013), que já tinha sido preparada por Bento XVI, o Papa Francisco comentava (n.34):

A luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade. Muitas vezes, hoje, a verdade é reduzida a autenticidade subjetiva do indivíduo, válida apenas para a vida individual. Uma verdade comum mete-nos medo, porque a identificamos — como dissemos atrás — com a imposição intransigente dos totalitarismos; mas, se ela é a verdade do amor, se é a verdade que se mostra no encontro pessoal com o Outro e com os outros, então fica livre da reclusão no indivíduo e pode fazer parte do bem comum. Sendo a verdade de um amor, não é verdade que se impõe pela violência, não é verdade que esmaga o indivíduo; nascendo do amor pode chegar ao coração, ao centro pessoal de cada homem; daqui resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos.

Este belíssimo texto merece ser meditado e refletido por todos.

Em uma sociedade e Igreja feridas pelas mentiras, calúnias, acusações de todos os lados, importa iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade em um contexto de diálogo e escuta. Teremos que nos perguntar sempre se é a verdade do amor que perseguimos, aquela que se mostra no encontro e não no fechamento ao outro (e ao Outro). A intransigência que vemos em determinados grupos e movimentos choca-se com as palavras do Papa de que “a fé não é intransigente, mas crescer na convivência que respeita o outro!

 

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

[1] Darío Molá, La difícil alteridade en el interior de la Iglesia. Inspiraciones ignacianas. Manresa 86 (2014) 149-158.

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