Alfredo Sampaio Costa SJ
Damos continuidade ao nosso estudo sobre o fenômeno místico, seguindo a reflexão de Carlos Domínguez Morano na sua obra “Mística y Psicoanálisis. El lugar del otro en los místicos de Occidente”. Madrid: Editorial Trotta 2020.
Quando nos debruçamos sobre as diversas expressões de experiências místicas e suas tentativas de descrição ou definição, deparamo-nos com uma imensa variedade de definições. Domínguez Morano comenta que já esse próprio fato deixa perceber, sem dúvida, a enorme variedade de vivências que podem se esconder por detrás do termo, apesar das tentativas de alguns estudiosos do tema em acentuar sua igualdade e estabelecer uma espécie de essência única que unificaria os diversos modos em que poderiam se manifestar.
Há quem afirme que a experiência mística responderia em sua essência a um modo de religiosidade universal, que viria a transcender culturas e conhecimentos e que, na sua essência, responderia a uma experiência mais ou menos idêntica apesar de suas variadas manifestações. Mas, como afirma Juan Martín Velasco, “uma essência do misticismo assim descrita não existe a não ser na mente de seus inventores” (Martín Velasco, El fenómeno místico. Madrid: Editorial Trotta 2009,22). Quem afirma uma tal coisa se esquece, com efeito, dos contextos cognitivos, simbólicos, motivacionais que, sem dúvida, encontram-se implicados na dinâmica desses tipos de experiência. Por isso outros autores, apesar da dificuldade para delimitar a diversidade de vivências que se ocultam na experiência mística, optam por diferenciar distintas modalidades dela.
Tudo isso não impede, por outra parte, que se possa reconhecer na variedade de fenômenos místicos, uma mesma constelação de fatos designáveis com um mesmo nome. Assim, e como uma primeira aproximação, Martín Velasco opta por definir o campo do místico como o de umas “experiências interiores, imediatas, fruitivas, que têm lugar em um nível de consciência que supera a que rege na experiência ordinária e subjetiva, da união – qualquer que seja a forma em que ela se viva – do fundo do sujeito com o todo, o universo, o absoluto, o divino, Deus ou o espírito” (Ibid., 22-23).
Ao final de sua imprescindível obra sobre o fenômeno místico o autor volta ao que podemos entender por autêntica mística e, em um esforço para diferenciá-la de tantas técnicas pós-modernas que a confundem com meros métodos de autorrealização pessoal, insiste que supõe de experiência do Mistério como “realidade invisível que não pode ser abarcada pelo pensamento, dominada pelo sentimento, possuída pelo desejo humano e, contudo e por isso mesmo, mais próxima ao homem que sua própria intimidade” (Ibid. 481).
Recolhendo outras 3 definições particularmente importantes dentro do campo de investigação da mística, recordaremos em primeiro lugar a de Evelyn Underhill que a define como “ciência das coisas últimas, a ciência da união com o absoluto… e o místico é a pessoa que alcança essa união, não o que fala dela”. Mais adiante dirá ainda: “é a expressão da tendência inata do ser humano para a completa harmonia com a ordem transcendental, seja qual for a formulação teológica com a que se entenda essa ordem” (E. Underhill, La práctica del misticismo, Madrid: Editorial Trotta 2017, 89). Por sua parte, Robert Charles Zaehner falava da mística como “uma tomada de consciência de uma união ou uma unidade com ou em algo imensamente e infinitamente maior que o Eu empírico” (Martín Velasco, El fenómeno místico, Madrid: Editorial Trotta 2009, 23). Bernard McGinn sintetiza esse tipo de experiência como “consciência direta da presença de Deus” (Ibidem).
E Domínguez Morano, que posição toma?
Afirma ele que “de nossa parte, levando em conta o enfoque fundamentalmente psicológico que presidirá nosso intento, entenderemos a experiência mística como “a vivência de vinculação amorosa e gozosa com aquilo que se considera a origem da existência” (Mística y psicoanálisis, p.28). Vivência interior, portanto, de união afetiva com um objeto que, na crença de quem o experimenta, constitui o fundo último de toda realidade. Esse objeto pode ser, segundo os diferentes sistemas simbólicos nos quais se descreve a experiência, pessoal ou impessoal, transcendente ou imanente e pode ser chamado de Todo, Uno, Universo, Javé, Alá, Abba, Pachamama ou qualquer outra forma em que se pense estar sustentada a própria existência.
Algo que gostaria de destacar em Domínguez Morano é que para ele a vivência interior da experiência mística implica sempre uma vinculação amorosa, porque a experiência mística é sempre uma vivência de amor que dá pé a uma autêntica paixão tal como se manifesta nos textos místicos já desde Gregório de Nissa, primeiro grande mestre de teologia mística. O místico religioso, com efeito, não se contenta em participar de umas crenças dogmáticas, participar de uns ritos concretos, praticar uma determinada moral. O místico religioso faz realidade experiencial em um contato, uma relação, um encontro com o Mistério que funda sua fé. Essa experiência de relação é a que caracteriza e especifica sua “misticidade”. Também o místico ateu, em uma mística de caráter profano, realiza uma experiência que será descrita em termos diferentes, mas que remete a algo vivido de um modo pessoal e íntimo; experiência, diz Claude Boulogne, de “vazio interior que abre o ser a um infinito e que se traduz, de maneira muito sensual às vezes, por êxtase, gozo, embriaguez, em uma espécie de fusão com o universo em que as fronteiras corporais são abolidas” (Claude Boulogne, Le mysticisme athée, Mónaco: Rocher1995,44).
Morano, a partir de sua particular perspectiva psicológica pensa esse encontro e experiência através de um “objeto mental”, enquanto representação interna, cognitiva e afetiva ao mesmo tempo, de uma realidade que o sujeito crê e sente como existente dentro e/ou fora de si. Essa vinculação será sempre, de uma maneira ou de outra, amorosa, por mais que a experiência possa possuir umas conotações particularmente cognitivas ou intelectuais e ainda que, em determinados momentos, possa também adquirir conotações mais obscuras.
Ao mesmo tempo, a união com essa realidade última e primeira é vivenciada com um sentimento particular de plenitude, de sentido, de luz e de gozo, ainda que possa, em determinados períodos, converter-se também em fonte de sofrimento, renúncia e sacrifício (Morano, Mística y psicoanálisis, 29).
A mística é uma aproximação amorosa ao mistério: mistério e amor em torno à imagem de Deus, na mística teísta, e mistério e amor em torno ao conhecimento cósmico ou à criatividade, na mística profana.
Esta experiência poderá ser feita não só em modos, mas também em graus muito diferentes, dependendo, desde uma perspectiva psicológica, das determinações constitutivas, biográficas ou socioculturais nas quais a experiência se insere. Mas já de início será importante levar em consideração que não vamos atender nesse nosso estudo sobre a mística somente aquele tipo de experiências intensas, extraordinárias, com particulares fenômenos de arroubos, êxtases, visões ou revelações. Tais fenômenos devem ser considerados como secundários e marginais com relação ao que constitui o núcleo último da experiência, por mais que, desde o ponto de vista psicológico, não deixem de demandar interesse e estudo.
A perspectiva de Domínguez Morano nos coloca, portanto, em um contexto de compreensão da experiência mística como experiência aberta a todos e todas, e não a uma elite de “perfeitos”.
Esse núcleo que temos definido como vinculação amorosa e gozosa com o que se considera a origem da existência caracteriza também toda uma dimensão básica de qualquer experiência de fé religiosa. Por isso, ao falar de experiência mística, não vamos nos referir exclusivamente ao que poderíamos denominar “mística exemplar”, aquela dos grandes mestres espirituais, mas sim também ao que, com Karl Rahner, chamaremos de “mística do cotidiano”, a que qualquer sujeito experimenta quando busca se unir amorosa e gozosamente com uma realidade que o transcende e sustenta.
Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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