A mãe de todas as guerras: ciúme, ressentimento, violência

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“[…] Se não fizeres o bem, saiba que o pecado ameaça à porta; ele deseja conquistar-te, mas tu deves dominá-lo” (Gn 4,7).
Geraldo De Mori SJ

Já há um mês que a Rússia invadiu a Ucrânia, desencadeando uma guerra que, com seu cortejo de horrores, invade os meios de comunicação, desencadeia uma série de reações na comunidade internacional, desestabiliza a economia mundial, com consequências terríveis em todos os países do mundo, sobretudo nos mais pobres. No Brasil, a inflação, que já tinha ressurgido de modo agressivo em 2021, faz saltar os preços de gêneros de primeira necessidade, tornando a vida dos mais vulneráveis ainda mais difícil. Muitas análises têm sido feitas sobre essa guerra, algumas, inserindo-a nas novas disputas pela hegemonia na política internacional, que após a queda do Muro de Berlim (1989), foi dominada até recentemente pelos Estados Unidos; outras, buscando suas raízes históricas e religiosas; outras, enfim, minimizando sua importância face às guerras intestinas que assolam tantas outras partes do mundo, denominadas pelo Papa Francisco, na Encíclica Fratelli tutti, “terceira guerra mundial por pedaços” (FT 25, 259).

Não é o caso de propor aqui uma análise de política internacional, questionando ou confirmando as leituras oferecidas a cada dia sobre uma guerra que poderá redefinir os destinos da humanidade nas próximas décadas do século XXI. Porém, enquanto discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré, há que se perguntar sobre o que ela revela do ser humano enquanto tal e de cada um/a em particular. Para além da compaixão e da solidariedade com os ucranianos, que, por sinal, possuem no Brasil uma expressiva presença, através de seus descendentes imigrados no século XX, ou para além da indignação contra os russos, cuja contribuição artística e literária tanto enriqueceu a cultura mundial, sem contar sua importância geopolítica e econômica, é importante dar-se conta dos elementos que estão na origem dessa guerra e deveriam ser relidos nessa nova etapa da história da humanidade, que, embora ainda marcada pela violência de muitas ressurgências da guerra, acreditava que caminhava rumo a um mundo de paz.

O autor das primeiras páginas da Bíblia hebraica, no episódio que narra a história de Abel e Caim, identifica a origem da violência e da guerra com o ciúme despertado em Caim, por Deus ter aceitado a oferta de seu irmão Abel e rejeitado a sua. O texto coloca na boca de Deus a advertência: “Por que estás furioso? Por que se transformou o teu rosto? Se fizeres o bem, serás aceito” (Gn 4,6). Esse ciúme, presente em quase todas as histórias familiares, parece, por um lado, responsabilizar o próprio Deus, por ter se agradado mais da oferta de Abel do que da de Caim, mas, por outro lado, mostra que na origem da violência fratricida encontra-se o ressentimento por acreditar-se preterido ou por querer ocupar o lugar de honra no coração divino, sendo o eleito. Deus chama, porém, Caim a dominar esse sentimento: “o pecado que ronda à porta, deseja conquistar-te, mas tu deves dominá-lo” (Gn 4,7). O ciúme entre irmãos marca outras histórias na Bíblia, como a de Esaú e Jacó, a de José e seus irmãos. Porém, a Lei de Deus apela a “não odiar o irmão” e a “não se vingar” e a “não guardar ira” (Lv 19, 17.18), embora também admitisse a execução de alguém por ter matado outra pessoa (Lv 24,17) ou a sentença de Talião: “fratura por fratura, olho por olho, dente por dente” (Lv 24,20).

Jesus, no Sermão da Montanha, comenta três mandamentos da Lei de Deus que estão relacionados com a violência do ser humano contra seu semelhante. Em Mt 5,21, ele retoma o mandamento “não matarás”, mostrando que o assassinato nasce sempre da ira ou de palavras más, ditas contra o outro, e convocando à reconciliação (Mt 5,22-26). Em Mt 5,38, ele comenta a lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”, e convida seus discípulos/as a não resistirem ao perverso, mas a praticarem a não violência ativa (Mt 5,42). Enfim, em Mt 5,43, ele recorda a lei que diz para amar o próximo e odiar o inimigo, instando seus discípulos/as a amarem o inimigo e a orarem por quem os/as perseguem (Mt,5, 44-47), assemelhando-se, dessa maneira, ao Pai do céu, que faz nascer o sol sobre os bons e os maus, e derrama a chuva para justos e injustos (Mt 5,45).

A violência sofrida por Abel e por tantos justos na história da humanidade, mas também a violência infligida por Caim e pelos algozes a milhões de inocentes ao longo dessa mesma história, e que, sob muitos aspectos, atesta que o “pecado que ronda à porta”, desejando conquistar o coração do violento (Gn 4,7), não foi dominado, mas, ao contrário, desencadeou mais violência, encontra não só nas palavras do Sermão da Montanha um caminho de solução, mas sobretudo, no percurso feito por aquele que o enunciou. De fato, ele, o inocente e justo, foi entregue e condenado como criminoso, mas, como o justo sofredor de Is 52,13-53,12, que assume em seu corpo as piores atrocidades, ele não respondeu o mal com o mal, mas perdoou aos que assim agiram (Lc 23,34). Como ele o diz, sua vida ninguém a tira, mas ele a dá livremente (Jo 10,18).

O caminho a ser percorrido por quem segue Jesus é o que não se deixa conquistar pelo “mal que ronda à porta”, com traduções e defensores em cada época e lugar, mas o que vence o mal com o bem, o ódio com o perdão, a violência com a não violência. As Igrejas cristãs e seus fiéis devem certamente denunciar as terríveis agressões que deram origem a essa guerra, além de suscitarem gestos de acolhida e amparo solidário para com os milhões de refugiados que buscam um lugar e um teto de acolhida e abrigo. Mas somente isso não basta. O dia de jejum e oração, com o qual começou a quaresma, proposto pelo Papa para que caminhos de diálogo e reconciliação fossem privilegiados, mostra que, para além das estratégias visando o domínio e o poder, é importante que cada geração redescubra o caminho do que, na Fratelli tutti, o Pontífice chamou de “amizade social” e “fraternidade”. Para trilhar esse caminho, certamente é necessário um percurso de conversão, pois o “pecado que ronda à porta”, se traveste em cada época de novas facetas, seduzindo a muitos e provocando terríveis perdas a inocentes.

Apesar de distantes geograficamente da guerra, embora sofrendo seus efeitos, como o do aumento dos preços dos produtos básicos, os que se dizem seguidores/as de Jesus no Brasil são chamados a irem além dos sentimentos de solidariedade com os ucranianos ou além da indignação contra os russos. Aquele que venceu a barreira, “o muro de inimizade”, podendo por isso mesmo trazer a paz (Ef 2,15), quer que os que nele creem e buscam pautar suas decisões e conduta em seu exemplo, se enveredem também pelo caminho que foi o seu, o da vitória sobre o ciúme, a inveja, o ressentimento, que estão na origem da violência, e que, infelizmente, nos últimos anos, tanto tem polarizado a vida social e política do país. Oxalá o Caim que habita cada palavra e ação perversa contra tantas encarnações de Abel no mundo de hoje, o Caim que, no fundo, habita cada ser humano, possa, com o auxílio do Espírito do Ressuscitado, deixar formar em si o “homem novo”, graças à cruz do inocente por excelência, através do qual foi destruída a inimizade, tornando possível a reconciliação e a paz (Ef 2,16-17).

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE