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A missão de reconciliar

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Inspirado em Pablo Guerrero, La misión de reconciliar, Manresa 88 (2016) 55-66

 

“Em um mundo dilacerado pela violência, lutas e divisão, também nós somos chamados, juntamente com outros, a chegar a sermos instrumentos de Deus, que “estava em Cristo reconciliando o mundo consigo, sem pedir-lhe contas de seus pecados” (2 Cor 5,19). Esta reconciliação nos chama a construir um novo mundo de relações justas, um novo Jubileu em que, superando todas as divisões, Deus restaure sua justiça para todos” (CG 35, D.3, n.16).

A Companhia de Jesus desde sempre entendeu que parte fundamental de sua missão era trabalhar pela reconciliação e justiça. Já a chamada “Fórmula do Instituto”, aprovada pela bula de Júlio III “Exposcit debitum”, promulgada em 1550, incluía essa missão como parte integrante da missão de todo jesuíta: “E também manifeste-se preparado para reconciliar aos desavindos, socorrer misericordiosamente e servir aos que se encontram nos cárceres e hospitais e a exercitar todas as demais obras de caridade, segundo o que parecerá conveniente para a glória de Deus e o bem comum, fazendo-as totalmente grátis, sem receber nenhuma remuneração por seu trabalho” (Fórmula do Instituto n.1).

Era uma encarnação concreta das palavras do Senhor: “Felizes os que trabalham pela paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

Aqueles primeiros jesuítas queriam e acreditavam que em seus ministérios estavam seguindo o modelo apostólico, isto é, estavam imitando e reproduzindo no seu tempo os traços essenciais dos ministérios de que deram exemplo os discípulos de Jesus no Novo Testamento.

“Reconciliar os desavindos” surgia no coração de todos os aqueles que, seguindo a pedagogia dos Exercícios Espirituais queriam se identificar com Cristo, Rei Eterno, mas também “pobre e humilhado” (EE 167).

“Da mesma maneira, empreguem-se em fazer as pazes” (Epp. XII, 243). Estas palavras foram escritas por Santo Inácio em 24 de setembro de 1549 a um grupo de padres enviados à Alemanha. Podemos ver como a missão de reconciliar desde sempre foi um tema que se encontra inscrito nas próprias entranhas dos primeiros companheiros de Inácio.

Importa ver como a reconciliação é (ou não) parte integrante do nosso ser. Chamados a sermos ministros e ministras de reconciliação hoje, podemos nos perguntar: quais os carismas necessários no ministério da reconciliação? Até que ponto, no ministério da reconciliação, assumimos nossa própria história? E, finalmente, o ministério da reconciliação como criador de relações justas e humanas[1].

 

  1. Carismas necessários para sermos ministros e ministras de reconciliação

 

Ersnt Bloch, em uma conferência pronunciada em Viena pelo ano de 1968, dizia que “um povo em marcha necessita o carisma do profeta, do cantor, do médico e do rei”. Comentemos brevemente essa resposta.

– A importância de sermos profetas e profetisas: para podermos sermos ministros e ministras de reconciliação, é necessário lucidez para analisar o presente e animar apontando para o futuro. Assim são os profetas. Conhecer o destino, olhar sempre para o horizonte, na direção do que podemos chegar a ser, na direção do que nossa Igreja, comunidade e sociedade pode e deve chegar a ser. Sem profetismo não há marcha, não se pode avançar. Pablo Guerreiro usa uma imagem muito significativa nesse sentido: “Gosto de imaginar esse homem, essa mulher, como um marinheiro contemplando as estrelas: nunca as poderá alcançar, mas as estrelas marcam o seu caminho” (Pablo Guerreiro, La misión de reconciliar, Manresa 88 (2016) 57).

O profeta recolhe o passado (o conhece, sabe que a negação e o esquecimento não são boas terapias), aprofunda o presente e nos lança para o futuro, para adiante. Ele é capaz de captar como ninguém o que não funciona, o que está mal, o que nos falta, o que podemos melhorar… Esse homem, essa mulher estão profundamente enamorados da justiça, da fidelidade, da igualdade. Estão profundamente enamorados de Deus.

Aprendem dos erros do passado, são críticos com o presente e alimentam com esperança a construção do futuro.

Mas não basta o profético. Com diz José Antonio García, “os profetas são o fermento da massa, mas não sabem fazer pão”. Sem profetas não há possibilidade de reconciliação, mas só com profetas tampouco.

Outros dinamismos interiores são também necessários. Em alguns momentos, faz falta cantar. Necessitamos celebrar e cantar a vida, as conquistas que já alcançamos. Em nossa vida pessoal, em nossa história grupal, há coisas que necessitam serem cantadas, celebradas e admiradas. O cantor é esse homem, essa mulher que reconhece que o horizonte está mais perto, que o sonho vai se realizando; que, em certas ocasiões, quase podemos tocar as estrelas. Os cantores nos repetem o que já temos, o que já somos, o que já estamos realizando do nosso sonho.

A quem está desanimado, triste, deprimido, não o levanta o profeta, mas sim o cantor. Porque alegrar-nos nos torna mais resistentes. Pobre do grupo humano que não é capaz de gozar, de celebrar, de sorrir, de fazer de sua vida uma ação de graças, de celebrar o encontro, de valorizar os pequenos passos, admirar as pontes já construídas.

Evidentemente não se trata simplesmente de cantar. É preciso saber o que se canta e como se canta. Cantar não é precipitar-se nem se alienar. É maravilhar-se de tudo o que temos em comum. Cantar a alegria que já está aqui é preparar-se para seguir caminhando.

Profetas e cantores tendem a excluírem-se uns aos outros. Para que um grupo humano possa avançar rumo a um futuro, é preciso que alguém “sente juntos” a profetas e cantores. É o que E. Bloch chama reis. Rei é esse homem ou mulher capaz de salvar ao profético e ao cantor de excomungarem-se mutuamente. As palavras mágicas do rei são “caminhamos juntos”.

Sem reis, as energias de profetas e cantores se perdem e se anulam mutuamente. Sem reis, o grupo se divide e não há caminho em comum, não há vida verdadeiramente compartilhada.

O rei, a rainha, é aquela pessoa que recorda ao grupo a necessidade vital da comunhão, mas também sabe que é necessário estrutura o desejo, estruturar nossos sonhos.

Nas dúvidas, nas encruzilhadas do caminho, pode ser que alguém tenha que tomar a iniciativa. Mas sem esquecer que também eles devem escutar, especialmente porque têm a missão de falar e de mandar.

Todo processo de reconciliação precisa do profético, do cantor e do régio. Mas há ainda um quarto dinamismo interior que é básico e capital. E talvez seja o tipo de pessoas que hoje está mais escasso, mas também o mais necessário. Em todo grupo humano, em toda comunidade, em toda família, em todo casal, que quer receber seu passado, celebrar seu presente e projetar-se para o futuro, há enfermos. Enfermos de muitas coisas e padecendo muitas dores, especialmente enfermos do coração e da alma. E a pessoa que está sofrendo o que menos necessita é de quem a culpabilize, de quem lhe diga “alegra essa cara, não é pra tanto” ou de quem tente coordená-la. Quem está enfermo necessita um médico.

Nem tudo é festa no caminho da vida humana. Uma sociedade que não admita em seu seio a “enfermidade” está fadada ao fracasso. Há momentos na vida (e os processos de reconciliação são um claro exemplo disso) em que precisaremos de médicos, de pessoas capazes de amar e de aproximar-se silenciosamente à pessoa amada e tratar de curá-la com grande dose de carinho e confiança. Oxalá não faltem médicos no interior de nossos projetos pastorais… em nosso ministério de reconciliar. Se nos faltam médicos, a marcha para adiante irá deixando muita vida à beira do caminho. O médico pode não ser clarividente, pode ser que não nos alegre a vida e que seja um desastre na hora de coordenar. Mas levar adiante um processo de reconciliação sem médicos comprometeria todo o processo, uma vez que as feridas continuarão sangrando e as cicatrizes, em lugar de assinalar, simplesmente, onde estivemos, nos comprometerão o futuro.

“Todos conhecemos a importância desse tipo de homem ou mulher cuja contribuição fundamental consiste em saber se aproximar silenciosamente a cada sujeito, intuir sem muitas perguntas onde está sua ferida e tratar de curá-lo devolvendo-lhe grande dose de confiança em si mesmo. Sua presença é absolutamente necessária e preciosa dentro de um grupo em uma época como a nossa, em que uma civilização perfeita produz menos feridas exteriores (essas são fáceis de curar), mas tende a multiplicar as ocultas”[2].

Uma espiritualidade da reconciliação deverá enfrentar diversos tipos de ausência: a perda, a privação de alguém ou de algo que nunca poderá ser recuperado. Essa espiritualidade da reconciliação “reúne cuidadosamente os fragmentos de uma existência despedaçada e ajuda as vítimas a reuni-las de novo o melhor possível. É uma espiritualidade que sai em busca dos desaparecidos”[3].

 

  1. Ministério da Reconciliação: caminho para assumir a própria história

Estamos habituados a aplicar a palavra “reconciliação” a um processo que se dá entre os membros do casal, da família, entre grupos humanos. Mas é importante nos determos no processo de reconciliação pessoal. Pensar que os conflitos, desencontros, diferenças aparentemente irreconciliáveis acontecem sempre “fora de nós” não deixa de ser, no melhor dos casos, uma ingenuidade. Todo ser humano experimentará a necessidade de reconciliação interna. Todos temos um passado a assumir, isto é, a curar. Todos experimentamos o abismo que em certas ocasiões separa nossos sonhos da realidade. Todos necessitamos nos reconciliar com nossa humanidade, essa humanidade própria que, em certos momentos, nos escandaliza, negamos e nos atemoriza. Porque na reconciliação, enquanto processo humano, aparecerá o medo. Medo de muitas coisas, também da dor e do passado.

Será preciso vencer o medo de contemplar nossa verdade, desmascarar tudo o que oculta a nossa realidade. Muitas vezes esse processo é preciso que o façamos acompanhados por alguém que possa nos ajudar a olharmos para nós mesmos, escutando-nos a nós mesmos. Alguém que saiba nos sustentar na nossa fraqueza e não nos deixar desanimar. Que saiba nos encorajar, desmascarar sem humilhar, perguntar sem interrogar, interpelar sem demonizar. E, principalmente, acompanhar-nos no nosso medo…

 

  1. Ministério da Reconciliação: criação de relações justas e humanas

A reconciliação não trata somente de “cicatrizar as feridas do passado e aceitar o perdão; trata-se também de transformar as estruturas sociais que provocam, promovem e justificam a violência”[4]. A reconciliação social trata de um processo de reconstrução da ordem moral da sociedade.  Não se trata somente de perdoar o acontecido. É preciso seguir lutando para acabar com as causas da dor. A compaixão cristã não se reduz, como se diz, a “sofrer-com”. Implica o trabalhar para que aquele que sofrer já não sofra mais; a compaixão, bem entendida, evoca não somente a ternura, mas também a vontade de endireitar o que está torto, trabalhar pela justiça, que é uma das necessidades mais profundas das vítimas. A compaixão, se é verdadeira, caminha de braços dados com a reconciliação para criar relações justas e humanas[5].

 

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

Imagem: PIXABAY

 

[1] Pablo Guerrero, La misión de reconciliar, Manresa 88 (2016) 56.

[2] J.A. García Rodrígues, Hogar y Taller. Seguimiento de Jesús y comunidad religiosa, Santander 1987, 189.

[3] R. J.Schreiter, El ministerio de la reconciliación. Espiritualidad y  estrategias, Santander,  2000, 61.

[4] R.J. Schreiter, Violencia y reconciliación.Misión y ministerio en un orden social en cambio, Santander, 1998, 11.

[5]   Pablo Guerrero, La misión de reconciliar, Manresa 88 (2016) 65.

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