Acompanhar conversando

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Com o texto desta semana entramos na segunda palavra da nossa trilogia anunciada no mês passado: ESCUTAR – ACOMPANHAR – AMAR. Procuraremos, por meio das próximas reflexões, aproximarmo-nos dessa atitude fundamental de “escuta do outro” e “escuta do que Deus fala ao outro”.

“Com-versar”: quando a vida “se verte” nas palavras

Contar a vida, eis a nobreza do ser humano.
Como tantas outras palavras, “conversação/conversa” é uma palavra que procede do latim “conversatio” e do infinitivo “conversare”. Essas palavras latinas, por sua vez, formam-se a partir de uma raiz comum, “versare”, verbo que deriva de “vertere”, nosso “verter”, “derramar líquido em um recipiente”. José García de Castro nos conta que, quando era noviço jesuíta, em um dos cursos que fez durante o noviciado, escutou de uma das pessoas que o acompanhava espiritualmente a seguinte frase: “Uma das maiores coisas que um jesuíta pode fazer por outro é…” E ele esperava algo assim como “ser mártir, ser santo, morrer em uma missão, ser perfeitamente obediente, rezar mais devota e frequentemente…”. E enquanto essas hipóteses magníficas se sucediam rapidamente no seu pensamento, esperando que alguma delas fosse a acertada, nosso companheiro terminou a frase: “…é lhe contar a sua vida”. Jamais esperaria uma resposta como essa! Anos se passaram até que ele pudesse entender o porquê dessa resposta!

Olhemos para as casas onde vivemos, sejam elas casas de famílias ou comunidades religiosas… No mundo como o nosso, há clima – espaço – vontade – confiança – para contarmos nossa vida aos demais? Todos nós, de alguma maneira, vamos nos dando a conhecer direta ou indiretamente, por meio de nossos atos, silêncios, modos de presença, através de nossas opiniões, gestos… Falar direta e expressamente sobre nós mesmos e fazer da própria vida o argumento primeiro de uma conversação é dar à palavra um novo protagonismo e um novo estatuto de dignidade. Ao receber alguém para o acompanhamento espiritual, supomos que a pessoa que nos busca para escutá-la deseja ou ao menos pretende falar de si mesma. Mas o faz de verdade? Consegue alcançar esse objetivo? Nem sempre!

E como falar de mim mesmo?

Não é tarefa fácil. Não estamos habituados a falar de nosso mundo interior e, por isso, não é tarefa simples estabelecer uma associação entre a palavra e o objeto a que a palavra se quer referir (nossas próprias emoções). Pablo Neruda escreveu um poema onde expressa muito claramente sua intenção ao falar: “Quero que minhas palavras digam o que eu quero que digam, e que tu as ouças como eu quero que as ouças”.

Mas será que a realidade muitas vezes, acompanha as nossas belas intenções? Quando escutamos a alguém, muitas vezes não percebemos que a pessoa está (inadvertidamente ou não) falseando elementos da sua vida, talvez por vergonha ou timidez? Ou, ainda, caímos na conta que tínhamos escutado mal o que a pessoa estava dizendo?

Conversar é ir alcançando-me em meu “eu” mais verdadeiro, naquele âmbito que é só meu, onde repousam cada noite meus temores, desejos, angústias e cansaços, alegrias e ilusões que emergem à luz da palavra só quando vislumbram o lugar apropriado ao calor de uma escuta sincera. Ao conversar assim, somamos honestidade ao mundo. Há muitas conversas que geram um mal-estar interior, agressividade, despertando sentimentos e desejos negativos. Mas também há conversas que vão suavemente forjando uma atmosfera de bem-estar. Elas nascem de palavras bem-ditas, oportunamente lúcidas e afetivamente apropriadas. Pronunciar palavras de maneira acertada e construtiva desperta empatia, acolhida e afeto13.

Por que conversamos tão pouco (espiritualmente!)

Uma pergunta que gostaria de lançar a vocês, um pouco para provocar: nossas únicas “conversações espirituais” são os episódicos atendimentos que damos a quem nos procura para uma orientação? Se for assim, a coisa vai mal! Infelizmente, na “vida normal” parece que o que mais fazemos é fugir dela. Já pararam para se perguntar o porquê? García de Castro aponta 5 possíveis causas. Vejamos.

a. Por falta de sabedoria (= não sabemos conversar a este nível mais profundo)
b. Por falta de atenção (= não conseguimos realmente focar nisso e nos distraímos com outros pensamentos)
c. Por falta de interesse (= não queremos comprometer nossa vida com outras pessoas)
d. Por falta de escuta (= não escutamos em profundidade)
e. Por EXCESSO de comunicação (= o bombardeio de informações mina nossas forças)

Algumas dessas razões propostas teremos mais dificuldade de admitir, pois nos envergonhamos delas. A primeira delas: por não sabermos como, não fazemos. Pois temos vergonha de perguntar e revelar nossa ignorância aos outros. Ou por temer ser mal interpretado pelo grupo ao propor um outro estilo de conversa.

As três seguintes se comunicam entre si: por falta de atenção, de interesse e de capacidade de escutar. Revelam como o mundo egoísta e individualista nos atinge, onde quer que estejamos! Quanto tempo do nosso dia dedicamos aos outros (de verdade, não dando cliques nas redes sociais!)? Ah, mas sou muito ocupado, tenho que honrar meus compromissos! Já ouviram alguma vez a Parábola do Bom Samaritano? Sem comentários! A última desculpa diz respeito ao fenômeno frequente que somos capazes de passar horas e horas navegando na internet e ter milhares de seguidores nas nossas redes sociais e paradoxalmente nos encontros reais entramos mudos e saímos calados, seja em comunidade, trabalho ou em casa.

A saúde da conversação. Um guia para aprendizado

José García de Castro aponta que é preciso cuidar da qualidade da saúde de nossa conversação. Refletir sobre as experiências de conversação pode resultar de grande ajuda para ir melhorando nossa prática. Oferece algumas perguntas que podem nos ajudar a ir conhecendo o que acontece enquanto se desenrola a conversa. Sem pressa, procure tomar uma por vez as questões seguintes e, com honesta humildade, examinar como anda a saúde da sua conversação!

a. A nível pessoal
1. Qual o sentimento predominante ao terminar a conversa? Ilusão, esperança, alegria, frustração, tristeza, aborrecimento, cansaço, preguiça, otimismo, tensão? Por que creio que prevaleceu esse sentimento? O que o provocou?
2. Como me senti ao longo da conversa? Notei variações em meu estado de ânimo ao longo da conversação? Poderia conectar essa variação com alguma causa particular (alguma alusão que me afetou, alguma intervenção que me agradou ou desagradou?)
3. Qual foi o meu nível de escuta?
– Em termos “quantitativos”: Estive atento? Tive distrações notáveis? Elas afetaram minha contribuição à conversação? Alguma distração se destacou claramente sobre as outras?
– Em termos “qualitativos”: Predominou uma escuta livre de preconceitos sobre temas ou pessoas? A escuta esteve condicionada por meus interesses próprios? Escutei algumas intervenções condicionado (positiva ou negativamente) pela pessoa que intervinha? Foi uma escuta, em termos gerais, positiva e construtiva? Ou uma escuta interna carregada de preconceitos?
4. Minha participação falada: há quem goste de falar muito, há quem não goste. Isso dependerá em certo grau da personalidade de cada um. Contudo, é sempre importante, após cada atendimento, avaliarmos como me foi, sob este aspecto:
– Em termos de tempo, foi uma participação equilibrada levando em conta o número de participantes na conversação?
– A minha atitude durante a conversa: Senti-me livre para intervir quando acreditava que devesse fazê-lo? Em caso negativo, o que freava e dificultava minha participação? Posso localizar algum medo ou temor? Pude expressar o que eu queria expressar?
– Implicação: Foi uma participação mais teórica e racional ou contribui com algo de minha experiência pessoal?
– Tom de minha participação: Correspondeu ao que eu queria que fosse? Ou foi menos claro do que eu pretendia? Foi mais impulsivo ou “agressivo” do que eu teria gostado que fosse?
– Quando se tratar de uma fala minha em uma reunião, podemos ainda avaliar: Senti-me escutado pelo grupo? Senti e notei que minha contribuição era acolhida e levada em consideração para o conjunto da conversação do grupo?

O aconselhamento e o acompanhamento espiritual não se improvisam. Ministérios cada vez mais essenciais em um mundo complexo e confuso, precisamos nos preparar o melhor possível para podermos alcançar a função que nos é pedida: sermos bons “escutadores” e incentivadores de um discernimento profundo do que Deus está dizendo a nós.

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE