Caminhos para a paz: Diálogo entre gerações, educação e trabalho digno

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Élio Gasda SJ

O ano que se encerra foi de muita angústia, desânimo, tristeza e indignação, mas também de aumentar a resistência e a recuperar a esperança. Resistimos à maior crise sanitária e humana deste início de século. Muitos foram os desafios, em especial para os brasileiros: desgoverno, negacionismo, instrumentalização política da religião, alta dos preços, desemprego, retorno da fome, desmatamento, discriminações de toda espécie. Tensões e discórdias que colocam a paz em perigo.

Diante de tantas adversidades, é fundamental restaurar a esperança em 2022. O verdadeiro cristão não pode perdê-la. A esperança é o “renascimento dos escombros da história, o início de um futuro luminoso”, só possível com a construção da paz. E o caminho da paz, é o “desenvolvimento integral” recorda Papa Francisco em sua mensagem para o 55º Dia Mundial da Paz: “Diálogo entre gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradoura”.

O pontífice destaca que apesar dos esforços com vista a um diálogo entre nações, muitos estão apartados de uma vida digna, minimamente humana: “continua a predominar um modelo econômico mais baseado no individualismo do que na partilha solidária […] e o clamor dos pobres e da terra para implorar justiça e paz”. Ele propõe três vias de acesso a uma paz duradora: diálogo entre gerações, educação e trabalho.

Diálogo entre gerações. A pandemia, segundo Francisco, revelou a necessidade de partilha, de aliança entre jovens e idosos: “Se os jovens precisam da experiência existencial, sapiencial e espiritual dos idosos, também estes precisam do apoio, carinho, criatividade e dinamismo dos jovens” e continua, “sem as raízes, como poderiam as árvores crescer e dar fruto? ”

Através do diálogo acontece a troca de aprendizado entre gerações. Mantendo-se firmes no presente, visita-se o passado “para aprender da história e curar as feridas”, alimentar o futuro, “fazer germinar os sonhos, suscitar profecias, fazer florescer as esperanças.” O diálogo, ressalta Francisco, é “a força motora de uma política sadia, que não se contenta em administrar o existente “com remendos ou soluções rápidas”. A política é uma “forma eminente de amor pelo outro, na busca de projetos compartilhados e sustentáveis.”

Essa oportunidade de distintas gerações construírem juntas a paz não pode prescindir da educação e do trabalho: “enquanto a educação fornece a gramática do diálogo entre as gerações, na experiência do trabalho homens e mulheres de diferentes gerações se encontram para colaborar, compartilhando conhecimentos, experiências e competências em vista do bem comum.”

É fundamental perseguir “a instrução e a educação como motores da paz”. Francisco ressalta que nos últimos anos a instrução e a educação deixaram de ser investimento, são tratadas como gastos que pesam nos orçamentos das políticas públicas. Na contramão das despesas com a educação, os gastos militares aumentaram de forma exorbitante.
Para Francisco é urgente a inversão de tais gastos. O desarmamento só traz benefícios aos povos e nações, pois libera recursos para investimentos em infraestrutura, saúde e principalmente para educação. Essa última, destaca Bergoglio, é “alicerce de uma sociedade coesa, civil, capaz de gerar esperança, riqueza e progresso”. Instrução e educação são molas propulsoras para um “justo lugar no mundo do trabalho”.

“Promover e assegurar o trabalho promove a paz”. É no trabalho, e com o trabalho que produzimos, não só riqueza, mas construímos um mundo mais humano. Compartilhamos expectativas e esperanças, lutamos por direitos e justiça social.

A pandemia deixou ainda pior o mundo do trabalho. Tecnologias remodelaram a economia. A crise econômica gerou desemprego, intensificou o trabalho informal, a “economia dos bicos” e a “uberização”: jornada de trabalho exaustiva sem qualquer legislação. Precarização e deterioração das condições de trabalho. Milhões de famílias de trabalhadores abandonados à insegurança e precariedade!

Francisco ressalta que o lucro não pode ser o único guia da economia. “É urgente promover em todo o mundo condições laborais decentes e dignas, orientadas para o bem comum e a salvaguarda da criação!” A falta de trabalho afeta a liberdade e a dignidade das pessoas, provoca o aumento do crime organizado, impede o bem comum. A vida torna-se um pesadelo, principalmente para migrantes: “não são reconhecidos pelas leis nacionais; vivem em condições muito precárias para eles mesmos e suas famílias, expostos a várias formas de escravidão e desprovidos de um sistema de previdência que os proteja.”

Nesse sentido, o pontífice pede a sensibilidade de toda a sociedade no papel de estimular, acolher, sustentar e “respeitar os direitos humanos fundamentais de trabalhadoras e trabalhadores […] promovendo um justo equilíbrio entre a liberdade econômica e a justiça social […]. Oxalá sejam cada vez mais numerosas as pessoas que, sem fazer rumor, com humildade e tenacidade, se tornam dia a dia artesãs de paz.”

Artesão de paz, como Desmond Tutu: “A esperança é ser capaz de ver que há luz apesar de toda escuridão”.

Élio Gasda SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE