Chamados a trabalhar juntos em uma missão de reconciliação e justiça

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Passadas as eleições presidenciais e estaduais, como sociedade democrática somos chamados a seguir trabalhando pela justiça e reconciliação. Inspiro-me no artigo de José Ignacio García Jiménez, Reconciliación y justicia, como reto de comprensión y práxis. Manresa 91 (2019) 1-10.

 

Companheiros e companheiras em uma missão de reconciliação e justiça

A última Congregação Geral da Companhia de Jesus (36ª.) recorreu a esta categoria de “reconciliação e justiça” quando quis propor um texto breve e motivador que pudesse responder à questão de qual é missão dos jesuítas hoje. No nosso mundo conturbado, necessitado de paz, essa missão ganha tons ainda mais dramáticos e urgentes. A CG quis contemplar naquele momento a atividade e o apostolado dos jesuítas no mundo inteiro, como se se tratasse de um exercício da contemplação da Encarnação (cf. EE 102), onde a Santíssima Trindade contempla o mundo necessitado de salvação e decide enviar o Verbo para realizar a redenção do gênero humano. Nos moldes atuais, essa redenção ganha os contornos da reconciliação e da paz, em busca de uma sociedade mais justa e democrática.

Se queremos hoje dar passos em uma missão de promoção da reconciliação e justiça será preciso dedicar muitos esforços para compreender as causas múltiplas da desigualdade, do ódio e da intolerância, e encontrar as ferramentas aptas para enfrentar tal realidade. Será preciso levar em consideração aspectos fundamentais como os limites meioambientais, a concepção do trabalho humano, da extensão do mercado como instrumento regulador da vida social e o papel que a tecnologia vai jogar em tudo isso. Sem esse esforço de compreensão dos fenômenos sociais, políticos e econômicos de nosso tempo, nosso compromisso pode ficar encapsulado em um assistencialismo que é tão limitante. Nossa proximidade aos pobres, para ser sincera, necessita um olhar mais amplo sobre os fenômenos que alimentam a pobreza e criam miséria, causando divisão e ódio. Como enfrentar isso?

A dinâmica da reconciliação parte sempre da iniciativa divina. Assim o recolhe o subtítulo do decreto que é uma citação da segunda carta de São Paulo aos Coríntios: “Tudo vem de Deus, que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação” (2Cor 5,18).

A iniciativa é de Deus e nós somos convidados a colaborar neste ministério da reconciliação. Em que consiste essa colaboração? O Papa Francisco no seu magistério (Evangelii Gaudium 226-230) e Misericordiae Vultus) tem insistido que a fé, a justiça e a solidariedade para com os pobres e excluídos são elementos centrais da missão de reconciliação.

“Mais do que perguntar-nos o que devemos fazer, procuremos compreender como Deus nos convida – juntamente com muitas outras pessoas de boa vontade – a participar desta grande empresa. Sozinhos, reconhecemo-nos pequenos, fracos e pecadores. Contudo, com o salmista, clamamos: “Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia e dá-nos a tua salvação” (Sl 85,8). Mas experimentamos alegria ao reconhecer-nos pecadores que, pela misericórdia de Deus, somos chamados a ser companheiros de Jesus e “colaboradores de Deus” (CG 36, Dec. 1, n.3).

No n.6 do Decreto 1 da 36 CG, nós jesuítas reconhecemos a importância da vida em pobreza e junto aos pobres para que nossos discernimentos respondam mais plenamente à vontade de Deus. É o que dá credibilidade à nossa missão! Inácio e os primeiros companheiros deram testemunho desse amor a Cristo pobre nos pobres, perseguindo sempre uma vida de maior pobreza e proximidade com os mais pobres.

Conscientes de que nossa resposta sempre será incompleta, precisamos pedir insistentemente a graça de podermos realmente participar desta missão de reconciliação e justiça.

“A reconciliação com Deus é, primeiro e sobretudo, um chamado à profunda conversão por parte de cada um e de todos nós” (CG 36, Dec. 1, n.17).

“No coração da espiritualidade inaciana está o encontro transformador com a misericórdia de Deus em Cristo que nos move a uma resposta pessoal generosa. A experiência do olhar misericordioso de Deus sobre nossas fraquezas e nossa pecaminosidade nos faz humildes e nos enche de gratidão, ajudando-nos a converter-nos em ministros compassivos para com todos” (CG 36, Dec. 1, n. 19).

Podemos nos aproximar do termo “reconciliação” conforme dois modos de conceber esse termo: como um processo ou como um estado final.

 

A reconciliação como processo

Ao colocar a ênfase no processo, queremos destacar que o percurso transcorrido entre a tomada de consciência e a experiência do perdão é um caminho no qual alguns elementos do processo se convertem em balizas que ajudam a caminhar, mas sem poder anular completamente uma margem de incerteza. Podemos reconhecer isso tanto nos processos pessoais como nos coletivos de reconciliação, seja sob um prisma puramente secular ou guiados pela fé. El qualquer destas situações o que nos é dado é o ponto de partida, contaremos sempre com uma metodologia para seguir avançando, mas temos que reconhecer que o ponto de chegada está sempre aberto. O Papa Francisco na sua alocução à CG 36 pôs especial ênfase nesse modo de conceber nossa espiritualidade e vida apostólica, não só como ações internas da Companhia, mas sim como uma espiritualidade que gera processos, que promove situações de mudança, frente a outros modos de conceber a vida religiosa mais preocupados pela estabilidade e pelo que o Papa Francisco denomina como “ocupar espaços”. Conceber nossa missão como esta capacidade e compromisso para gerar processos é um modo dinâmico de entender a ação do Espírito em e através da Companhia. Estes processos de transformação, de conversão, não são só uma resposta social a uma situação concreta, mas são um modo de conceber a presença da Igreja no mundo.

Gerar processos é conceber a ação dinâmica do Espírito que é capaz de transformar a realidade, levando-a desde uma situação de déficit de humanidade, ou de abundância de pecado, ou de obscuridade da graça, a um estágio novo onde a luz da fé permite estabelecer novas relações.

A reconciliação como processo vive atenta às dinâmicas internas que vão sendo geradas e, nesse sentido, em uma aproximação inaciana, diríamos que se trata de viver em chave de discernimento. É verdade que a espiritualidade inaciana está muito mais dotada para processos individuais do que para transformações coletivas ou grupais e que a prática do discernimento individual está muito mais generalizada e experimentada que a prática do discernimento em comum. Mas, em qualquer caso, o que queremos destacar nesse processo é que as mediações e as relações que se vão estabelecendo vão ser cruciais para alcançar um resultado.

Conceber a reconciliação como processo dá um relevo especial aos atores que participam nele. Em uma perspectiva inaciana, o papel do sujeito é fundamental, porque não se trata de ser meros espectadores, sujeitos passivos que esperam o desfecho de uma situação. Todos os que participam em um processo de reconciliação devem assumir sua responsabilidade. Serão responsabilidades diferenciadas, por suposto, mas que não poderão tolerar mecanismos de exclusão. Essa característica é provavelmente uma das mais difíceis de levar adiante quando nos imaginamos processos deste tipo; pois, tanto na vida social com em muitos âmbitos da Igreja, a tendência mais habitual é que a maioria das pessoas assistem como espectadores, enquanto somente um pequeno grupo leva adiante as decisões. Obviamente, quanto maior for o grupo, mais complexa é a participação, mas sem este decidido enfoque de corresponsabilidade no processo será muito possível que possamos chegar a articular uma transformação intensa, profunda e duradoura.

A reconciliação como processo é também muito determinada pelo modo, pela metodologia que permite a novidade de uma vida restaurada. Na literatura de processos civis de reconciliação, costumamos identificar diferentes etapas que basicamente poderíamos reduzir ao esclarecimento da verdade, reparação pelos danos causados até chegar a uma situação de perdão que permitiria, sobre as bases de equidade estabelecidas, retomar as relações sociais de uma forma nova, aceitando-se mutuamente.

Um traço interessante da reconciliação como processo é o papel que desempenha o tempo. O tempo é aqui um aliado do processo e não o contrário. O processo vai se transformando no resultado, pois se trata de desenvolver umas novas relações, um modo novo – e justo – de se relacionar com Deus, com os outros, com a criação, inclusive consigo mesmo. Assim compreendida, a reconciliação não é um resultado, mas sim uma forma de viver, um modo de compreender a vida. O tempo nos recorda que, enquanto caminhamos, vamos fazendo presente a vida nova que Deus oferece, e essa vida restaurada se converte em luz e guia para o restante do caminho.

Um aspecto muito importante ao considerar a reconciliação como um processo é que o resultado final está aberto. Ao iniciar o caminho, não conhecemos exatamente como será o estado final, mas é mais uma intuição e quiçá a conclusão poderia ser esse novo modo de se relacionar como algo dinâmico e, portanto, não pré-fixado.

 

A reconciliação como estado final

Se na perspectiva anterior a dinâmica de transformação é já em si mesma possibilidade e fruto de uma vida reconciliada, nesta perspectiva somente alcançar um estágio de reconhecimento mútuo e aceitação recíproca seria o fim que se vai perseguindo.

Na sociedade civil este modelo de reconciliação, como término, costuma decantar-se em desenvolvimentos legislativos. Leis da verdade, leis de anistia, seriam um modo concreto de alcançar esse estado de reconciliação ou, ao menos, declarar esta intenção. A experiência mostra que este tipo de perspectiva tem uma enorme fragilidade, em primeiro lugar porque não é tão simples alcançar esses consensos e depois porque, geralmente, algumas das partes implicadas, com o passar do tempo, acabam perdendo a capacidade de negociação e devem aceitar como um fato imposto a nova situação e não como um acordo.

Do ponto de vista da fé a reconciliação como término estaria conectada com a dimensão escatológica de nossa fé, pois sabemos que, no fim dos tempos, no final da história, tudo será reconciliado em Cristo e, portanto, nossa vida pessoal e a da humanidade inteira, entrará em um novo estado de relação definido pela misericórdia de Deus (Cl 1,15-23).

Este horizonte escatológico, ainda que deva ser considerado como um término, isto é, um estado onde a ação humana já não poderá alterá-lo, no entanto pode resultar como algo longínquo ou uma solução por elevação a uma categoria a-histórica, do que supõem os esforços e lutas do tempo presente.

Ainda que possa parecer que, desde um ponto de vista histórico, esse horizonte escatológico tenha um escasso impacto em nossa vida, para uma pessoa de fé esse horizonte é uma fonte de esperança, criatividade e paixão pelo compromisso nesta história.

Nossa compreensão do fim dos tempos não é um exercício abstrato de reflexão, mas inspira-se na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Esse é, sem dúvida, um dos aspectos que deveria ser tratado com maior profundidade no momento de imaginar nossa missão de reconciliação.

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE