Cheia de Graça

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Geraldo De Mori, SJ

Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo” (Lc 1,28)

 

A Igreja católica celebra no dia 8 de dezembro a solenidade da Imaculada Conceição, festa inscrita em seu calendário litúrgico pelo Papa Sisto IV, em 1477, ou seja, muitos séculos antes que Pio IX, em 1854, declarasse solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria. Neste dogma mariano, como nos demais declarados pela Igreja, a saber, Mãe de Deus, Sempre Virgem, Assunta ao céu, vale o adágio central que une liturgia e teologia, expresso na fórmula latina lex orandi, lex credendi, segundo o qual aquilo que a Igreja reza é o que ela crê. Em muitos lugares no Brasil essa festa solene impacta o calendário civil, sendo dia “feriado”. Além do mais, a própria imagem venerada como padroeira nacional, é uma imagem da Imaculada Conceição, à qual se deu o nome de Aparecida. As orações litúrgicas e a piedade popular associam essa devoção a um dos temas centrais da doutrina cristã: o pecado original, do qual Maria teria sido preservada desde o momento de sua concepção, donde o nome “Conceição”, que remete justamente a esse momento em que Maria passou a existir no seio de sua mãe. Esse dogma, profundamente enraizado na consciência dos fiéis católicos, nem sempre é bem compreendido, necessitando, por isso, da inteligência que esclarece a fé.

Na consciência da fé de muitas pessoas, o ser “Imaculada” de Maria está associado a uma “pureza”, ou ausência de “mácula”, ou seja, da “mancha” que o pecado de Adão e Eva deixa em cada ser humano ao nascer. O fato de Maria ter sido preservada desta “mancha” desde sua concepção, associa indevidamente o pecado original ao ato da concepção, ou seja, ao ato sexual, que é então visto por muitos como “lugar” da transmissão do pecado original. Essa maneira de entender o dogma da Imaculada é fruto de uma suspeita com relação ao ato sexual, presente em Santo Agostinho, um dos teólogos que elaborou a doutrina que deu origem ao dogma do pecado original. Para ele, a “transmissão” do pecado de Adão e Eva se dava através das relações sexuais. Ora, a Igreja nunca “canonizou” essa opinião do Bispo de Hipona, mas sempre afirmou a bondade dos atos que expressam o amor entre o casal, dos quais são gerados seus filhos.

O termo “imaculada”, que significa “sem mácula” ou “sem mancha”, recolhe uma experiência profunda da consciência religiosa do ser humano, a de estar manchado ou a de manchar algo ou alguém. Essa experiência está na origem da experiência de responsabilidade moral pelo mal presente no mundo. Segundo o filósofo Paul Ricoeur, não se pode “surpreender” a entrada do mal no mundo, mas somente identificá-la através da “confissão” de quem está em sua origem. Essa confissão se dá de modo simbólico e sua primeira expressão na consciência religiosa é a da “mancha”, que faz com que o fiel se sinta “sujo” ou “impuro”, pois o mal que cometeu “polui” suas relações consigo, com os demais seres humanos e com o mundo. Por isso, em muitas religiões surgiram ritos que oferecem o “remédio” contra essa impureza. No cristianismo, o rito batismal “lava” do pecado original. Mesmo assim, muitos fiéis necessitam continuamente sentir-se purificados de suas faltas, daí sua busca por aspergir-se ou por serem aspergidos com água. O Salmo 50 diz isso de modo emblemático: “asperge-me com o hissopo, e ficarei limpo; lava-me e ficarei mais branco do que a neve” (Sl 50,9).

Em que consistiria então o dogma da Imaculada Conceição de Maria? Sua associação com o tema da “mácula”, recolhe, sem dúvida alguma, a experiência originária do surgimento da consciência moral da humanidade, que se expressa na ideia da “mancha”, a qual está na origem da ideia de responsabilidade frente ao mal. Mas, na teologia do pecado original, a “queda” dos primeiros pais não é vista como “mancha”, mas, segundo o texto de Gn 2-3, como “desobediência” à “lei” divina que havia prescrito a Adão não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,17; 3,3.6.11). Em todo o Antigo Testamento, o pecado cometido pelo povo eleito, mais que associado à “mancha” era uma ruptura de relação entre o povo e Deus, que em termos bíblicos se expressava como quebra da aliança. Embora muitos textos também tragam a ideia da “mácula”, em geral, o pior pecado era não “escutar” a palavra divina (Dt 6,4). Curiosamente, no texto de Gn 3, quando a serpente pergunta à mulher se era verdade que Deus lhes havia proibido de comerem dos frutos do jardim, ela responde que não, somente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 3,1-3). Em seguida, ao recordar a lei dada por Deus, a serpente propõe uma interpretação segundo a qual Deus não queria que eles comessem pois “se tornariam como ele, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,4-5). A verdadeira escuta supõe, portanto, discernimento, para não se deixar seduzir pelas astúcias do inimigo, e esse exercício demanda uma escuta profunda.

O autor da carta aos hebreus afirma que Jesus é em tudo semelhante aos humanos, exceto no pecado (Hb 4,15). A tradução da CNBB traz uma versão que ajuda a entender o que está em questão da doutrina da Imaculada Conceição. Segundo o texto, “ele mesmo foi tentado em tudo, sem, todavia, pecar”. Outro texto da mesma carta, afirma que ele “aprendeu, pela obediência o que significa ser filho” (Hb 5,8). A palavra obediência tem em sua etimologia a ideia de “estar à escuta”, ou seja, mais que submissão, muitas vezes cega a uma ordem ou lei, trata-se de deixar-se interrogar pela vontade divina, para realizá-la em sua intenção mais profunda. A vida de Jesus foi uma contínua busca de fazer essa vontade. Por isso, ele aparece nos evangelhos como aquele que vence satanás, não só no episódio das tentações, mas também nos exorcismos. No fundo, a convicção bíblica, que Jesus realiza em plenitude, é que o ser humano foi criado para ser filho, e que se ele “escuta” isso profundamente, ou seja, se ele acredita nisso, se ele tem fé, ele poderá, como Jesus, vencer as artimanhas do inimigo que leva a pecar.

Maria, num dos textos do evangelista Lucas que recolhe essa convicção, é evocada por uma mulher da multidão como “bem-aventurada”, por ter gerado e amamentado Jesus (Lc 11,27). A essa afirmação ele responde: “bem-aventurados, antes, os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam” (Lc 11,28). Nesse texto se encontra em síntese o significado mais profundo da festa da Imaculada Conceição. Ela é sem pecado porque foi quem mais escutou a Palavra. O próprio evangelista Lucas recolhe isso na resposta que ela deu ao Anjo Gabriel: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Como Jesus, que aprendeu pela “obediência” o que significa ser filho (Hb 5,8), Maria, aprendeu, pela escuta da Palavra, que o mal e o pecado só podem ser vencidos, em sua raiz, se a escuta vira adesão, pela fé, à vontade divina.

Portanto, mais que uma “pureza” milagrosa, dada como graça excepcional, Maria viveu em sua aventura humana de fé, o enfrentamento das seduções do maligno. E, graças à fé na Palavra divina, que era seu próprio Filho, saiu vitoriosa. É esse caminho que os que são seus “devotos” são chamados a trilhar, colocando-se, como ela, na atitude da perfeita escuta à vontade divina, que dá a graça da vitória sobre todo pecado.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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