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Compreender os condicionamentos para abrir-se ao Mistério

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Luiz Sureki, SJ

Homilia da Missa de um ano do falecimento do Pe. João Mac Dowell

 (08/09/2023)

 

Na festa da Natividade de Maria, fazemos saudosa memória do nosso querido Pe. Mac Dowell no primeiro ano de seu falecimento. Sua biografia é extensa e dela todos nós aqui conhecemos algo. Mencionamos aqui somente um, a saber, a aproximação da filosofia com a teologia, ou ainda, da razão com a fé, que caracterizou sobremaneira seu percurso intelectual e existencial. A disciplina Filosofia da Religião, que ele lecionou por tantos anos, era especialmente aquela em que o grande tema da experiência de Deus à luz da transcendência do espírito humano ocupava um lugar central, e que nós (seus alunos e alunas) notávamos claramente quão especial era para ele esse tema em que sublinhava os limites da razão, não para fechar-se em tais limites e condicionamentos, mas para, superando-os, abrir-se ao campo do razoável e aí ou desde aí ao mistério divino.

O texto do Evangelho de hoje é o da genealogia de Jesus (Mt 1,1-1ss). O que a genealogia de Jesus tem a ver com limites, condicionamentos humanos e superação? Bem, na verdade tem muita coisa a ver!

Na tentativa de explicar o comportamento humano, pelo menos três grandes teorias surgiram no século XX: a teoria geneticista, a psicológica e a social. Basicamente, a teoria geneticista tentou mostrar o comportamento humano a partir dos condicionamentos genéticos. Eu sou assim, porque trago na minha constituição genética as deficiências e/ou patologias dos meus pais, meus avós, meus antepassados. A teoria psicológica mostrará os condicionamentos psicológicos/psíquicos especialmente provindas do entorno familiar. Filhos de pais psicologicamente desequilibrados tendem a ser pessoas desequilibradas, assim como o contrário também é válido. A teoria social, por fim, mostrou os condicionamentos do entorno social. Filhos nascidos em um contexto de miséria, violência, abusos de todo tipo, que têm sua dignidade aviltada todo dia, tendem, diferentemente dos nascidos em contextos de bem-estar social, a ser pessoas com comportamentos agressivos ou violentos. Sabemos, contudo, que isso não é de todo verdade, porque não faltam exemplos que contradizem isso. Há pessoas perversas nascidas de pais boníssimos, pacíficas e pacificadoras que nasceram em contextos sociais marcados pela violência; e há pessoas psicologicamente equilibradas que tiveram antecessores profundamente perturbados psicologicamente.

Vejamos, pois, algo da genealogia de Jesus. Quando lemos despreocupadamente esse relato, até parece que todos eles e elas foram santos e santas. Abraão gerou Isaac com Sara; mas também gerou Ismael com a escrava Hagar, e essa apresentação unilateral da genealogia abraâmica provocou a discórdia que dura até hoje para com os povos árabes muçulmanos. Isaac gerou Jacó; mas também gerou seu irmão gêmeo e primogênito Esaú que teria abdicado de sua primogenitura por um prato de lentilhas. Judá e Tamar eram, na verdade, sogro e nora. A esposa de Salmon, Raab, fora por muitos anos uma conhecida prostituta em Jericó. Salomão nem é primogênito de Davi e nasceu da esposa de outro homem, Urias, cuja morte Davi arquitetou. O próprio Salomão se envolveu em cultos idolátricos de outros povos. Dentre os demais reis de Israel se encontram pessoas extremamente perversas. Manassés, por exemplo, tornou-se um bruxo, envolveu-se com magia, sacrificou os próprios filhos e cometeu numerosas perversidades. Sua conversão ao final da vida não apagou todo o mal que havia feito. E esses, outros e outras, são os antecedentes de Jesus, entraram na genealogia do Salvador!

 

Parece que para gerar o Cristo, o Salvador, Maria teria que quebrar todos esses condicionamentos genéticos, psicológicos e sociais. Pode vir algo bom de antecedentes ética e psicologicamente tão contestáveis? “Pode vir algo bom de Nazaré?” (Jo 1, 46). O ponto fundamental em relação à Maria, esta legítima representante do povo de Israel que espera com amor a vinda do Messias, se encontra na sua humilde atitude: “eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Que palavra? Ora, que o Espírito do Senhor gerará nela o Cristo. E é isso que o Espírito continua fazendo: gerando, espiritualmente, o Cristo em nós. É a partir do Cristo que falamos de Maria. E o que acontece agora? Acontece um novo nascimento (também para Maria), surge uma nova criatura: “banhados em Cristo somos uma nova criatura, as coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo”, diz um conhecido refrão. Isso não significa que não haja condicionamentos genéticos, psicológicos, sociais, mas sim que eles não são os determinantes completos para a minha vida, para tua vida.

Não importa onde nem quando nascemos, importa o que pode nascer em nós desde aquela atitude tão singela diante do mistério que encontramos em Maria: eis a serva / eis o servo do Senhor, aberta / aberto à habitação de Deus em nós. Isso permite que trabalhemos os nossos condicionamentos colocando-os sob uma nova luz. “Ela [Maria] dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21), das suas rupturas, dos seus pesados fardos condicionantes, das suas enfermidades corporais e psíquico-espirituais; Ele, e só ele, poderá (me) dizer: “Teus pecados te são perdoados” (Mt 9,2; Mc 2,5; Lc 5,20; 7,48).

Compreender os condicionamentos é fundamental para se entender a Boa Nova libertadora do Evangelho, para abrir-se ao mistério. Num de seus artigos filosóficos, publicado na Revista Sapere Aude (2010), Pe. Mac Dowell escreve:

“O   verdadeiro   filosofar   é   tentativa de compreender os condicionamentos e nesta compreensão superá-los, abrindo-se a novas perspectivas, integrando-as, se for o caso, na busca da compreensão última do sentido da vida.  Com efeito, nossa pretensão como filósofos não deve ser a de incutir nos outros as nossas ideias. (…) Teremos sempre nossas convicções e devemos defendê-las, enquanto podem ser justificadas. Mas não cabe ao filósofo oferecer uma resposta pronta aos problemas da existência. Pelo contrário, a sua fidelidade à missão de promover a racionalidade irá levá-lo a reconhecer os limites da razão. Ao levar ao extremo, na busca da verdade, os esforços de compreensão do todo da realidade, ele se depara finalmente com o mistério, que envolve toda a nossa existência. Confessar este mistério é a verdadeira missão do filósofo. Trata-se de revelar o ser humano a si mesmo como pergunta radical, como quem não possui por si mesmo a resposta para o enigma de sua existência.  (…) É por isso que não considero missão do filósofo na nossa sociedade oferecer esta ou qualquer outra resposta ao enigma da existência. Cabe-lhe sim, como expressão suprema de sua busca da verdade, promover o senso do mistério”.

Pois bem, esse mistério no qual “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28), e que em distintas religiões recebe também distintos nomes, e que nós chamamos “Deus”, é o para-onde a reflexão filosófica do Pe. Mac Dowell aponta, e é também o que o caracterizou como um homem profundamente espiritual, um filho da Companhia de Jesus, humilde e comprometido com a formação integral das pessoas, um insigne professor, um amigo querido, um dedicado sacerdote anunciador da Boa Notícia do Cristo, a mesma Boa Notícia que abre a razão ao mistério divino e renova o ser humano. Sua vida agradecemos ao Senhor da Vida, ajuntando esta pequena ação de graças à grande ação de graças da Eucaristia que celebramos.

 

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

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