Considerar “tanta pena que Cristo passou por mim” (ee 195)

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Sempre me chamou a atenção e incomodou a expressão inaciana “tanta pena que Cristo passou por mim” que aparece nos Exercícios. Confesso que levei muito tempo para compreender o seu significado mais profundo: por um lado, a intensidade do sofrimento passado por Cristo (tanta pena) e, em segundo lugar, que sofreu tudo isso por mim e pela humanidade. Proponho aqui algumas possibilidades de considerar essa expressão na nossa oração contemplativa:

1ª. Consideração: O olhar posto na humanidade sofredora de Cristo (EE 195).

Inácio, homem do seu tempo, coloca-se na longa tradição mística que valorizava sobremaneira a humanidade de Cristo. Recordemos que uma das grandes graças místicas que Inácio recebe quando da sua estadia em Manresa é exatamente esta! Embora Inácio seja muito discreto ao falar de suas experiências místicas, percebemos a sua importância na sua vida pelos efeitos que elas deixam. De fato, a devoção à humanidade de Cristo é uma constante que atravessa toda a experiência dos Exercícios: desde a encarnação até a ressurreição. O olhar contemplativo deverá repousar sempre nesta humanidade-corporeidade de Cristo que aqui, na Paixão, “quer padecer” (EE 195), percorrendo livremente esse caminho que o exercitante tem que contemplar em atitude itinerante “de um lugar a outro” (EE 290), mas que mais do que “ir”, parece que “é levado” (EE 291), em uma atitude de total passividade.

2ª. Consideração: O olhar que percebe a divindade escondida (EE 196).

Se a primeira consideração nos levava a centrar nossa atenção na humanidade de Cristo que realmente sofre (padece) a Paixão, ao nos chamar a atenção para o fato que aqui a Divindade “se esconde”, Inácio quer nos levar a enxergar para além do sofrimento e da dor, uma Presença Amorosa e discreta: o Senhor não nos abandona à dor! Seja qual for a situação pela qual padecemos, há sempre uma divindade escondida por detrás da espessura do sofrimento que acaba por cegar o olhar e impede de ver por detrás dele. Trata-se de aprofundar-nos no mistério de Amor do Deus oculto debaixo da maior expressão de despojamento e abatimento manifestado na Paixão. Para isso é preciso um olhar de fé, uma graça muito especial!

3ª. Consideração: A Personalização da Paixão: “Por meus pecados…” (EE 197).

Uma das piores atitudes diante do sofrimento alheio é, certamente, quando experimentamos que ele não nos atinge. A parábola do bom samaritano o ilustra muito bem. Inácio, consciente disso, contra-ataca essa atitude egoísta, afirmando que Jesus sofreu a Paixão “por meus pecados”. Essa expressão tem dois sentidos: por minha causa (eu como “causa” do sofrimento) – e “em meu favor” (sofreu por mim). Ao chamar-nos a considerar essa dupla face da Paixão, não temos como não nos deixarmos tocar por ela. E cada um será atingido de um modo. Surgirão perguntas na nossa oração, como por exemplo: “Qual meu papel no sofrimento de meus irmãos e irmãs hoje?”. E, ao mesmo tempo, irá brotando uma profunda gratidão, ao cairmos na conta que “tudo isso ele sofreu em nosso favor!”.

4ª e última consideração: A pergunta que surge: “Que devo eu fazer e padecer por Ele” (EE 197).

Quando nos convida a rezarmos sobre nossos pecados, Inácio pede que essa oração seja feita diante de Cristo na cruz (cf. EE 53), em uma conversa franca com Ele. Nessa ocasião, Inácio coloca uma tríplice pergunta que devemos fazer: “Que fiz, que faço e que farei por Cristo?”. Essa última proposta de oração da Paixão encontra sua fonte aqui, sendo que Inácio agora acrescenta ao “fazer” o “padecer por Ele”! Podemos certamente estar dispostos a “fazer” muitas coisas por Cristo, mas “padecer por Ele” não é nada atrativo!

Lembremos que ao preparar o tempo da escolha da vontade de Deus (Eleição), Inácio pedia que pedíssemos a configuração aos sofrimentos de Cristo. Tratava-se da Consideração dos Graus de Humildade (EE 167), onde verificávamos até que grau ia o nosso Amor por Cristo. Pois bem, agora se trata da “hora da verdade” das nossas intenções. A Paixão de Nosso Senhor, com seu realismo dramático, virá a confirmar (ou não) a profundidade e autenticidade de nossos desejos de estar com Cristo. Sem a incorporação do exercitante à Paixão, a eleição, com tudo o que implica de entrega-oferenda pessoal, poderia permanecer em um simples desejo facilmente volatizado pela dura realidade. Ao incorporar-se ao êxodo de Cristo até o alto da cruz aprenderá a revestir sua eleição-entrega com os elementos kenóticos que caracterizam esse êxodo, condensados todos eles no abandono total à vontade do Pai.

Normalmente fugimos de tudo o que possa causar dor, sofrimento, que revele a nossa fraqueza e impotência. Não é fácil encarar as pessoas na sua experiência de dor, pois o olhar delas incomoda, pede uma resposta concreta da nossa parte. Uma boa experiência de rezar a Paixão pode nos ajudar a sustentar o olhar aos crucificados, olhar tão difícil quanto necessário…

Procure trazer à memória do coração os rostos dos sofredores e descartados da sociedade, deixe-se interpelar por seus olhares. Peça ao Senhor que te faça sensível aos seus clamores…

O evangelista João, o “discípulo amado”, aquele que sempre soube reconhecer o Senhor, dotado de uma sensibilidade profunda, no seu Evangelho nos convida a elevar o nosso olhar para o Crucificado. “Olhar para Aquele que traspassaram” (Jo. 19,37) continua sendo imprescindível para “conhecer internamente” coisas fundamentais em nossa experiência humana e cristã, coisas que só nos são dadas nesse olhar: o sentido cristão do perdão, a fonte de uma esperança que mereça tal nome, a paz do abandono nas mãos do Pai. Ao rezar a Paixão, tudo isso deverá vir à tona da nossa vida, fortalecendo nossa fé e alimentando nosso desejo de retribuir a tanto amor recebido.

A contemplação da Paixão, mais que nenhuma outra coisa, é a que nos ajudará a “permanecer” em meio a tanta paixão e tanta passividade como a que encontramos ao nosso redor e como a vida mesma nos manifesta… Ela nos livrará de impaciências com a realidade e conosco mesmos, de messianismos fáceis e decepções carregadas de rancor, nos livrará de sermos escravos do êxito e nos fará descobrir que “perder” e “fracassar” é humano e divino. Aprenderemos na vida que, seguramente, estaremos mais próximos de Jesus na impotência que na onipotência ou na prepotência. Também nestas contemplações seremos ajudados para, verdadeiramente, “agradecer”, e fazer com que nosso seguimento brote da fonte mais pura e mais saudável: o agradecimento. Contemplando estes “mistérios” aprenderemos que a entrega é o modo divino e cristão de amar: “em grandíssimo sinal de seu amor, dizendo: Tomai e comei” (EE. 289), e que só na própria e total entrega o amor chega à plenitude e verdade.

Rezar a Paixão é o momento de aprofundar a nossa integração com o Senhor, pois ainda não estamos configurados com Cristo, e Seu Caminho também pode levar-nos à Cruz. A encarnação da Eleição é feita na história, e os obstáculos fazem parte da opção: não podemos prever os riscos, pois não possuímos a história, mas temos que criá-la, e isto equivale a correr riscos (passagem para as mortes concretas no seguimento de Cristo).

União com Cristo por meio de um amor de compaixão:

Nós sofremos quando devemos enfrentar situações que tememos ou quando devemos perder algo que desejamos. E estes são os olhos com os quais olharemos o sofrimento de Cristo. Nós o veremos indo ao encontro daquilo que nós mais tememos (o sofrimento, a perseguição, todo tipo de dor) e perdendo aquilo que nós tanto desejamos (a fama, a honra vã, o apreço dos outros, etc). Permanecendo com Cristo, por meio do nosso amor de compassivo com Ele, morreremos com Ele para tudo aquilo que nós tememos e desejamos. Ora, certamente isso não será uma coisa fácil!

O sofrimento que aparece com toda a sua força ao contemplarmos os Mistérios da Paixão já estava presente anteriormente à eleição. De fato, este está presente nas meditações estruturais dos Exercícios: no Fundamento (EE 23), onde se afirma que devemos nos tornar livres interiormente com respeito à doença, à desonra e vida breve; na Meditação do Reino, quando o rei nos convida não somente à sua amizade, mas também a sofrer e trabalhar com ele (EE 93); quando Inácio nos convida ali a fazer uma oração onde pedidos para imitar Cristo suportando tudo por ele (EE 98); nas Duas Bandeiras, quando somos convidados à pobreza, também pobreza atual, e a desejar receber insultos e opróbrios (EE 146); enfim, nos três graus de humildade, somos convidados a desejar escolher a pobreza com Cristo pobre, insultos com Cristo coberto por eles e de sermos estimados loucos por Cristo, que por primeiro foi tido como tal (EE 167).

Ao percorrer com Cristo sua Paixão, o Senhor nos mostrará que Ele deverá sofrer e deverá morrer. Seremos chamados a entrar neste movimento de compaixão com Cristo (literalmente sofrer com Cristo), e deveremos enfrentar para isso os nossos afetos desordenados e aprofundar a nossa eleição por Cristo, mesmo quando isso pareça significar que devemos perder tudo. Ora, a nossa compreensão do sofrimento deriva da nossa experiência pessoal de sofrimento. Se nós passamos por um grande sofrimento na nossa vida, seremos com certeza mais sensíveis ao sofrimento dos outros. Isto não será diverso, quando se tratar como agora de enfrentar a nossa capacidade de estar com Cristo quando Ele deve atravessar a Paixão. Se não amamos verdadeiramente a Cristo, não seremos capazes de viver a Paixão ao seu lado. Este amor profundo é fundamental na Terceira Semana. Nós não escolhemos “sofrer”, mas de “estar com Cristo no seu sofrimento”. Isto pressupõe um amor por Cristo mais forte do que todos os outros amores, um amor que é capaz de se tornar ainda mais forte ao longo desta Semana, quando formos capazes de pensar mais no Senhor do que em nós mesmos. Esta é a essência da verdadeira compaixão. O sofrimento deverá ser contemplado e entendido como sofrimento do Senhor. Um autor nos sugere uma imagem: como a criança que, quando vê os pais chorando, mesmo sem entender o motivo da tristeza dos adultos, os toma pela mão e procura consolá-los. Só sofremos quando perdemos alguém a quem amamos: de fato, quando morre alguém, se é um desconhecido, diremos simplesmente: morreu! Se é alguém que conheço, talvez direi : “Coitado! Morreu!”. Mas se se tratava de um verdadeiro amigo, eu chorarei a sua partida.

A compaixão deverá se traduzir no desejar sinceramente e no saber-se unir, de fato, às penas de Cristo, assumindo melhor os aspectos de paixão da própria existência e assim, levando com fé e amor a cruz de Jesus. Esta compaixão é mais que um sentimento: ela inclui uma escolha implícita e um compromisso contínuo. De fato, durante a Terceira Semana seremos constantemente conduzidos a encruzilhadas: em cada contemplação. Cristo caminha rumo à morte, ele abandona a estrada que conduz à felicidade temporal, o conforto, a popularidade, o sucesso. Em cada contemplação, somos chamados a estar com o Senhor, trilhando o caminho que conduz à cruz com Ele!

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE