COP-27: “Em nome de Deus, defendam a Mãe Terra” (Papa Francisco)

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Élio Gasda SJ

 

Vidas em risco! A vida das crianças, dos mares e rios, das matas, dos animais, de homens e mulheres, negros, brancos, indígenas. “A preocupação com o meio ambiente…deve andar a par de um amor sincero à pessoa humana e de um compromisso constante com os problemas da sociedade […] Temos a liberdade necessária para limitar a técnica, orientá-la e colocá-la a serviço de outro tipo de progresso mais saudável, mais humano, mais social, mais abrangente” (Laudato sí, 91-112).

Nosso Futuro Comum, relatório de 1987, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, da ONU, já indicava a necessidade do desenvolvimento sustentável, ou seja, desenvolvimento econômico atrelado ao social e ambiental. O conceito pouco evoluiu. Existe uma distância entre o discurso e a prática.

Antes do relatório o não desenvolvimento igualitário no mundo estava atrelado a distância econômica entre países pobres e ricos, ao consumismo indiscriminado e a depredação ambiental. O documento apontava a destruição da camada de ozônio, as chuvas ácidas e o aquecimento global. Temáticas, que associadas a outras como a perda da biodiversidade e o avanço de ocorrências de desastres ecológicos de responsabilidade industrial, levaram a ONU a estabelecer metas para o agir em comum das nações em prol do desenvolvimento sustentável.

Do dia 6 a 18 de novembro, representantes de 196 países estão reunidos, no Egito, para a 27ª Conferência da Organização das Nações Unidades sobre Mudanças Climáticas, a COP 27. O objetivo é conter as mudanças climáticas a partir de mecanismos aplicáveis globalmente. Renovar, também, compromissos assumidos no Acordo de Paris, assinado em 2015: reduzir as emissões de gases de efeito estufa e manter a temperatura do planeta em 1,5ºC.

O Fundo Verde do Clima, criado para apoiar países em desenvolvimento a responder aos desafios das mudanças climáticas, deveria ter atingido US$100 bilhões anuais, porém chega ao final de 2022 com um terço dos recursos.  A ONU estima que os países pobres precisarão de US$340 bilhões por ano até 2030 para se adaptarem as mudanças climáticas. São as nações mais pobres que mais sofrem com as mudanças climáticas, apesar da sua limitada emissão de gases. Alguns desses países podem desparecer com o aquecimento global.

Em 2021, 144 países, inclusive o Brasil, assinaram um pacto para zerar o desmatamento até 2030. O desmatamento mundial precisa ser reduzido em 10% ao ano. Menos de 20% dos signatários o colocaram em prática.

Amazônia é tema-chave nas negociações para o enfrentamento da crise climática global. Amazônia nunca queimou tanto. De janeiro a setembro de 2022, a área derrubada da floresta Amazônica Legal foi de 9.069 km² (Imazon), a maior dos últimos 15 anos. No governo Bolsonaro o desmatamento cresceu 73%. Este ano a Amazônia já acumula 101.215 focos de calor, maior registro em 11 anos (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE). O Cerrado é um dos biomas mais biodiversos do mundo e já perdeu quase a metade da vegetação. Uma ameaça não só para as comunidades locais, mas para a humanidade. O governo é inimigo do meio ambiente. O Brasil virou pária internacional.

A destruição do meio ambiente pode ser revertida a partir de 2023, com o governo recém-eleito. Lula irá ao Egito, um aceno a uma nova postura do Brasil diante das questões ambientais.

A mineração também impulsiona a destruição. O rompimento da barragem de lama tóxica das mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton ocorrido em 5 de novembro de 2015, em Mariana foi o maior crime socioambiental da nossa história. Até hoje ninguém foi punido criminalmente. Foram 19 mortos, e 3 mil trabalhadores continuam desempregados.

O nosso futuro comum parece catastrófico. “A humanidade tem uma escolha: ou cooperar ou perecer. Ou fechamos um pacto de solidariedade ou um pacto de suicido coletivo” alertou António Guterres, secretário-geral da ONU. Desde a COP 26, em 2021, inundações levaram o Paquistão a uma crise humanitária. Um furacão causou prejuízo e centenas de mortes no Caribe e Sul dos Estados Unidos. Na Europa o verão matou milhares de pessoas.

“Essa economia mata” (Papa Francisco). O sistema capitalista é a causa das crises ecológicas. Uma economia que coloca o lucro acima da vida leva ao desastre. Seu propósito não é salvar o mundo, mas obter o máximo de lucro.

Ativistas ambientais fazem suas reivindicações, os representantes das economias mundiais fingem ouvir. A COP quer realmente para reduzir as mudanças climáticas? São décadas de negociações. Países ricos, principais poluidores, relutam em colocar acordos em prática. Já ocorreram 26 COP. Será a COP 27 só mais um encontro?

A natureza não é uma mercadoria. Não espere dos diplomatas, mas daqueles que lutam por um mundo melhor. A situação é gravíssima.

“Chegou a hora de travar essa locomotiva descontrolada que nos está conduzindo ao abismo. Ainda estamos a tempo” (Papa Francisco).

 

Élio Gasda SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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