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Geraldo Luiz De Mori, SJ

“E do lado que tomara do homem, o Senhor Deus formou a mulher e a trouxe ao homem” (Gn 2,22); “E um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água” (Jo 19,34).

8 de março, Dia Internacional da Mulher. Essa data, como ocorre todos os anos, é comemorada ou recordada de muitas maneiras: com manifestações reivindicando avanços na igualdade de direitos entre homens e mulheres na sociedade; com homenagens às mulheres que se destacaram na luta por maior igualdade de gênero; com apresentação de estudos indicando os vários tipos de atentado à dignidade das mulheres no mundo ou no Brasil; com exposições artísticas e cinematográficas pondo em relevo contribuições femininas. O Capítulo IX do Relatório de Síntese da 1ª Sessão da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos tem como título “As mulheres na vida e na missão da Igreja” e no último tópico das “Convergências” lembra que a Assembleia “pede que se evite o erro de falar das mulheres como uma questão ou um problema”. Embora seja difícil comemorar o Dia Internacional da Mulher sem lembrar suas dores e lutas, mesmo que permeadas de alegrias e vitórias, é importante, do ponto de vista da fé cristã, buscar pensar as razões teológicas que transformaram o “maravilhamento” de Gn 2,23-24 em injustiças que atravessam a sociedade e, infelizmente, também se perpetuam na Igreja, levando ainda a se falar da mulher como “questão” ou “problema”.

De fato, nas duas narrativas da bíblia hebraica que falam da criação do ser humano, predominam, por um lado, a afirmação de uma igualdade fundamental, pois, segundo Gn 1,27 “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou”; e, por outro, logo após ter colocado Adão no Jardin do Éden para cultivá-lo, permitindo-lhe que se alimentasse de seus frutos, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,15-17), Deus declara que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18), e daí decorre, num primeiro momento, a criação de todos os animais selvagens e de todas as aves do céu (Gn 2,19), aos quais o homem deu nome, seguida da constatação de que dentre eles nenhum lhe correspondia (Gn 2,20), o que levou Deus a provocar no homem um profundo sono, que permitiu que Deus formasse, do que tirou se seu lado, a mulher, a qual, apresentada a Adão, despertou nele o encanto e a palavra (Gn 2,21-24). É interessante que a cena termina com a observação de que ambos estavam “nus e não se envergonhavam” (Gn 2,25). Os dois textos afirmam tanto uma igualdade na diferença, vista como uma bênção, quanto uma harmonia profunda.

O capítulo seguinte do livro do Gêneses apresenta a cena da queda, que começa com a sedução, pela serpente, da mulher, a qual, por sua vez, seduz o homem. Em seguida, ao perceberem que estavam nus, ambos se cobrem com folhas de figueira, e, ao escutarem os passos de Deus pelo jardim, se escondem. Deus procura o homem, que lhe responde que eles tiveram medo ao ouvir seus passos, pois estavam nus. Deus lhe pergunta então como sabiam que estavam nus, se haviam comido do fruto da árvore que lhes havia proibido de comer. Adão então vai dizer que foi a mulher que lhe havia dado o fruto. Interrogada, a mulher diz que foi a serpente que a havia enganado. Nos momentos seguintes Deus profere várias sentenças: contra a serpente, que é amaldiçoada, devendo rastejar, alimentar-se de pó, ter a cabeça esmagada pela mulher; contra a mulher, que passará a sofrer na gravidez, além de ser atraída pelo marido, que a dominará; contra o homem, que se alimentará do pão produzido pelo esforço do suor e do sofrimento do trabalho sobre a terra, da qual foi tirado e à qual voltará (Gn 3,1-19).

A essa narrativa de Gn 3, sobretudo, é atribuída por muitos estudos de gênero, a sustentação “teológica” da desigualdade que historicamente tem dominado as relações entre homem e mulher na sociedade ocidental, marcadas pelo cristianismo. É curioso notar que no linguajar comum, muitas pessoas ainda se refiram à mulher como sedutora e responsável pelo pecado e todas as suas consequências. Certamente esse tipo de leitura é de caráter fundamentalista ou “pré-crítico”, ou seja, não foi ainda corrigido pelos inúmeros estudos que mostram que os primeiros textos do Gêneses não possuem caráter histórico, ou seja, não se referem a um fato que teria acontecido no início da história da humanidade, mas que são uma releitura, feita a partir da história do povo de Israel sobre sua incapacidade de manter-se fiel a aliança, indicando que essa dificuldade existe desde sempre, ou seja, desde que o ser humano começou a usar sua liberdade. Trata-se, portanto, de textos com caráter simbólico, que querem falar de como sempre foi a história da humanidade, mas que as coisas poderiam ser diferentes, ou seja, o mundo poderia ser o jardim do Éden de Gn 2, onde há harmonia entre Adão (= ser humano) e a criação, da qual ele é o “jardineiro”, entre Adão e Deus, entre Adão e aquela que foi tirada do seu lado, que indica justamente que a mulher não lhe é inferior, mas igual a ele na diferença, e que é o encontro entre eles que pode torna-los uma só carne.

Muitas teólogas têm mostrado, a partir das teorias de gênero, que é preciso redescobrir nesses textos dos primeiros capítulos do Gêneses que o ser humano, na igualdade e dignidade que lhe é constitutiva, como aparece na afirmação de que Deus os criou homem e a mulher, à sua imagem os criou, é plenamente humano na diferença que os constitui, ou seja, o ser macho ou fêmea não confere a nenhuma dessas duas formas de ser humano nenhuma superioridade ou direito diferenciado. A beleza do humano é justamente essa diferença, que pode ser intuída, mas que é própria de cada modo de ser inteiramente humano, ou seja, como homem (macho) ou mulher (fêmea).

Ao atribuir à mulher a “entrada do pecado no mundo”, o imaginário cristão a tornou responsável pela queda do homem, e o efeito disso, como aparece na sentença divina contra ela, dizendo que seu desejo a levará a ser atraída e dominada pelo homem, reflete-se na longa história de sua submissão à autoridade do homem. Certamente não era essa a “intenção” do relato de Gn 3, que mais que justificar a submissão da mulher pelo homem, mostrava como isso já se dava na época em que o texto foi escrito, mas, como diz Jesus na discussão sobre o divórcio, “desde o início da criação Deus os fez homem e mulher” (Mc 10,6), sua vontade originária era justamente dada nessa diferença. Portanto, as violências históricas que se perpetuaram e ainda marcam profundamente a história humana, diminuindo, humilhando e submetendo a mulher, não se encontra no plano original do Criador. É interessante como o tema do “lado” de Adão, do qual Deus fez a mulher, volta no Evangelho de João, no alto da cruz, quando Jesus já morto tem seu lado transpassado pela lança, e desse lado jorra sangue e água (Jo 19,34). A teologia da Igreja associa a água ao batismo, sacramento da nova criação, e o sangue à eucaristia, sacramento da comunhão e do dom total de Cristo pelos seus.

Quem sabe uma teologia do “lado”, de Adão, de Cristo, poderia ajudar não só a sociedade, mas também a Igreja a redescobrir o quanto essa dimensão do corpo e do espaço é carregada de sentido, porque está próxima do coração, sede da vida e, simbolicamente, dos sentimentos, dentre os quais o mais sublime, sem dúvida é o amor erótico e o amor místico, e da capacidade de tomar decisões, mas também porque evoca a horizontalidade, o olhar o outro face-a-face, descobrindo nele, não um concorrente, mas um parceiro, com o qual, se é uma mulher, se pode aprender a ser humano “outramente”, podendo também olhar juntos para um horizonte a construir em comum.

Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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