‘E agora, filho? Ela é negra”. O filho respondeu: “Tudo bem, mamãe. Ela está usando luvas”

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Élio Gasda SJ

Humanos! Essa é nossa raça. Aquela que habita a casa comum, o planeta terra. Do ponto de vista biológico é falsa a ideia de que existem raças humanas. “Somos todos da raça de Deus”, diz a Sagrada Escritura (At 17, 29). Todo ser humano é fruto do amor de Deus.

Qualquer atitude, ato, comportamento ou fala de exclusão, humilhação, restrição ou preferência por determinada nacionalidade, etnia, cor é considerado discriminação racial.

Infelizmente, ainda existem pessoas e grupos que pensam que são seres superiores aos demais por causa da sua cor e nacionalidade. Em pleno Século XXI! Todos os dias, em casa e no trabalho, no transporte e no lazer, nas mídias e redes sociais, somos confrontados pela discriminação racial. A marginalização e o desprezo, os ataques verbais e físicos contra as minorias indefesas, etnias, pessoas LGBTQIA+, mulheres e negros parece não ter limites. A discriminação racial mata!

A guerra na Ucrânia e a devastadora crise humanitária é um testemunho da triste realidade que vivem as pessoas pretas e pardas por todo o mundo. É preciso enfrentar os horrores de todas as guerras. Mas também é preciso lutar contra o preconceito que decide quem vive e quem morre. Negros não recebem o mesmo tratamento que brancos. São muitos relatos de racismo e segregação, principalmente de africanos e asiáticos. Toda pessoa precisa ser salva igualitariamente.
O combate à discriminação racial é pauta permanente e urgente. É preciso rejeitar toda e qualquer atitude e políticas discriminatórias que ameaçam direitos fundamentais.

No Brasil a discriminação racial cotidiana, enfrentada por mulheres e homens negros, é estrutural. Impacta diretamente no acesso à educação, ao trabalho digno, ao saneamento básico, a água tratada e à segurança, entre outros direitos. Avançamos no discurso antirracista, porém, não derrubamos as barreiras impostas pelo racismo. Na prática somos omissos, indiferentes e covardes. Às vezes, temos palavras e atitudes racistas.

Estatísticas revelam a perversa discriminação racial. Segundo levantamento do IBGE/2021, a média de ganho de pretos e pardos equivale apenas a 57,7% dos brancos. Em 2020 pretos e pardos recebiam em torno de R$ 1.764,00 contra R$3.056,00 dos brancos. Naquele ano a taxa de desocupação entre pretos e pardos era de 15,9% contra 11,1% entres os brancos.

Outra pesquisa, do Data Zumbi (Instituto de pesquisas da Universidade Zumbi dos Palmares), indica que negros ocupam menos de 10% nos cargos de Gerência e Supervisão, e 3,3% nos cargos de Diretoria e Conselhos Administrativos. As mulheres negras ocupam respectivamente 5,5% e 0,8% desses cargos.
O estudo “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, realizado entre 2016 e 2020 e publicado pelas entidades Terra de Direitos e Justiça Global, mostra que a maioria das violências política atinge as mulheres. 76% das ofensas de conteúdo discriminatório foram direcionadas as mulheres, principalmente as negras.

O assassinato de Marielle Franco é um exemplo de violência. O Atlas da Violência de 2021 apontou que em 11 anos o homicídio de mulheres negras aumentou 2%. Já o assassinato das mulheres não negras caiu 27% no mesmo período.

Na educação a discriminação racial é alarmante. Em 2021, 47,4% das crianças negras entre 6 e 7 anos não estavam alfabetizadas; entre as pardas o índice era de 44,5%, contra 35,1% das crianças brancas. Entre os brasileiros acima de 60 anos o analfabetismo dos negros e pardos chegou a 27% contra 9,5% entre os brancos (ONG Todos pela Educação).

“Instâncias do racismo continua a envergonhar-nos, pois mostram que nosso suposto progresso social não é tão real ou definitivo como pensamos” (Papa Francisco).

Todo tipo de discriminação racial é violência. Dói no corpo e na alma. A enfermeira socorrista Laura Cristina Cardoso relatou sua indignação, dor e postura ética. Laura atendia a um chamado emergencial por um senhor que estava com sequelas de AVC. A senhora gritou: “E agora, filho? Ela é negra”. O filho respondeu: “Tudo bem, mamãe. Ela está usando luvas”.

Laura não abandonou seu juramento de “proteger a vida desde a concepção até a morte… Mesmo a vida dos racistas”. Completou: “Quem elas são (as pessoas racistas) não muda quem eu sou”. (Racismo | Enfermeira critica família que resistiu em deixá-la socorrer idoso: “Ela é negra” (midianinja.org). Racismo é crime inafiançável e imprescritível, com pena de reclusão de dois a cinco anos.

21 de março: Dia Internacional de luta pela Eliminação da Discriminação Racial. O que você fez, o que você faz contra “vírus do racismo”? Racismo é anormal, irracional e estúpido. Racismo é aberração. É doença.

Se o racismo não for destruído não haverá paz. Enfrentar a discriminação racial é defender a vida.

“...Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito
…De algum antepassado da cor
Brigar, brigar, brigar, brigar, brigar …
A carne mais barata do mercado é a carne negra
(Tá ligado que não é fácil, né mano?)
”. Elza Soares.

Élio Gasda SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE