Ecologia e Democracia: múltiplos olhares

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Elton Vitoriano Ribeiro SJ

Entre os dias 17 e 19 de agosto teremos na FAJE e na Escola de Direito Dom Helder o “Seminário: Ecologia e Democracia – Múltiplos olhares”. Nessa mesma oportunidade, teremos o lançamento do livro (<https://ebookspaulinas.com.br/produto/ecologia-e-democracia/327>) que deu origem ao seminário e que é fruto do trabalho de vários pesquisadores. Para dar um gostinho desse trabalho e do seminário, algumas palavras que escrevi para o Prefácio do livro e que, na minha opinião, expressam o caminho hermenêutico trilhado pelos pesquisadores.

 

Primeiramente é importante um olhar abrangente: A vida em sociedade é constituída por uma grande complexidade de realidades. Todos os tipos de vidas e vidas humanas, desejos e aspirações, costumes e práticas, instituições sociais e jurídicas, valores e normas, imaginários sociais e crenças religiosas. Os conceitos explicativos dessas realidades poderiam multiplicar-se ao infinito. Dada essa pluralidade que constitui e tece as nossas redes de relações, um olhar único e direto seria não só empobrecedor, mas muito limitado.

 

Diante desse emaranhado, complexo e bonito, no qual estamos inseridos, apenas múltiplos olhares podem nos ajudar a iluminar a realidade e vê-la em toda a sua exuberância. Essa tarefa, rica e desafiadora, sempre foi encarada pelo Grupo Interdisciplinar que reúne pesquisadores de várias áreas e instituições, e que agora apresenta-nos mais este livro abrangente e iluminador. Com pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), da Escola Superior Dom Helder Câmara (DOM HELDER), da Faculdade de Engenharia (EMGE) e da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) nos âmbitos da filosofia e da teologia, esse Grupo Interdisciplinar e Interinstitucional nos apresenta ao longo dos anos pesquisas onde a possibilidade de olhares distintos sobre as realidades nos enriquecem e questionam. Em 2019, “Tecnociência e Ecologia”, em 2020 “Direitos Humanos e Justiça Ambiental”, agora em 2022, “Ecologia e Democracia”.

 

Múltiplos olhares – eis o princípio hermenêutico desse grupo. A palavra hermenêutica é muito rica em significados. Basicamente, podemos compreendê-la como a arte de interpretar, de narrar as vicissitudes e as particularidades da realidade, das situações, das vivências e dos conceitos. Na genial proposta de Paul Ricoeur, hermenêutica é interpretar a vida no espelho de texto; é buscar o sentido mais rico, mais elevado e mais humano; é aprender a olhar a realidade em sua inteireza e variedade. Ora, se cada um lê com o olhar que possui e interpreta a partir do lugar onde os pés pisam, então, todo ponto de vista é a vista de um ponto. Múltiplos olhares, quer dizer multifacetados pontos de vista, diversas interpretações, não apenas ampliam nossos conhecimentos, como também os tornam mais humanos, porque faz jus a nossa realidade que insiste em extrapolar os conceitos excessivamente delimitados e as explicações rígidas.

 

Ecologia e Democracia: realidades humanas e desafiadoras que estão contidas nestas duas palavras tão bem exploradas nos textos desse livro. Para pensar a Ecologia é necessário um olhar múltiplo que supere a interpretação do ser humano como uma espécie dominante, isolada e separada do mundo, conquistadora e senhora de tudo e todos. Um olhar múltiplo que compreende a Ecologia como espaço onde se realizam as condições ecossistêmicas, naturais e sociais para a continuidade da vida num todo orgânico, não separando o social do ambiental, o humano do natural, o natural do cultural. Precisamos de olhares onde a reflexão acerca da Ecologia, da Justiça Socioambiental e da Democracia façam a diferença construtiva em nossa sociedade, especialmente, na gestação da estrutura básica da sociedade na qual três cuidados são importantes: cuidado com a natureza, cuidado com a sociedade e cuidado com as pessoas.

 

Para pensar a Democracia, como projeto político e como valor social, também necessitamos de múltiplos olhares. A democracia, como nos ensina a etimologia da palavra, vem do grego demos que significa povo, e cratos que significa poder. Democracia é o poder do povo no governo de seus próprios caminhos. Mas, é mais do que isso, pois constitui um valor fundamental das sociedades contemporâneas. Para muitos, é a única possibilidade de uma sociedade onde cidadania e diretos humanos sejam, verdadeiramente, vivos e vividos. Aprofundar essa compreensão de democracia, sem múltiplos olhares, é enfraquecê-la e diminuí-la. A democracia precisa de todos.

 

Nas sociedades contemporâneas, Ecologia e Democracia são inseparáveis, ao ponto de alguns falarem em Ecodemocracia. Talvez seja esse o caminho hermenêutico, enriquecido por estes múltiplos olhares do livro, que nos leve a enfrentar as crises que a realidade nos coloca como desafios. Assim, são iluminadoras as palavras do Papa Francisco na Encíclica Laudato Sí (n.139) quando diz: “Não existem duas crises separadas, uma ambiental e outra social, e sim uma só e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma concepção integral para combater a pobreza, para restituir a dignidade aos excluídos e, ao mesmo tempo, para cuidar da natureza”.

 

Portanto, a partir dos textos deste livro, que nos oferece múltiplos olhares, Ecologia e Democracia ou Ecodemocracia apresenta-se como um caminho hermenêutico significativo. Um caminho grávido de processos de vida e esperança, que nos permite pensar os fundamentos e construir planos de ação para ampliar nossa consciência, simultaneamente ecológica e democrática, em vista de um futuro ecodemocraticamente viável para nossas sociedades. Abaixo, link do seminário:

 

<https://faculdadejesuita.edu.br/seminario-ecologia-e-democracia-multiplos-olhares/>

Elton Vitoriano Ribeiro SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE