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Geraldo De Mori SJ

Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19)

Provavelmente, o próximo dia 2 de outubro de 2022, seja um dos dias mais importantes da história recente do Brasil: as eleições para os cargos majoritário do executivo nacional e estaduais, e os componentes do senado e da câmara dos deputados federal e estaduais. O que dá densidade a essas eleições e que significado podem ter para quem se diz discípulo e discípula de Jesus de Nazaré? Por que é importante o voto de cada cidadão e cidadã? O que difere esse pleito diante de outros já ocorridos no país?

A história da democracia no Brasil é marcada pela forma como foi estabelecida. Em sua origem estiveram implicados os militares. O Marechal Deodoro da Fonseca, que “proclamou a república”, instaurou uma ruptura com o regime anterior, que tinha sido instituído com a Independência do país, no dia 7 de setembro de 1822, a qual, por sua vez, havia dado origem à história da nova nação independente. O fato de os militares terem iniciado a aventura republicana fez com que tivessem uma presença muito significativa na vida nacional. Isso é atestado por sua presença em vários momentos, muitos deles, como o que foi inaugurado com o golpe de 1964, marcados por todo tipo de atentado ao que diziam defender: a democracia. Com efeito, as exações do regime militar não só interromperam o sistema democrático, mas atentaram conta os direitos humanos, como é atestado na forma como perseguiram os oponentes ao regime, com torturas, desaparecimentos de corpos e a declaração de uma anistia que beneficiou a eles mesmos de todas as ações que impetraram contra presumidos “inimigos da nação”.

O atual mandatário da nação, defensor do regime militar e negacionista de todas os crimes cometidos pela corporação, buscou, de muitas formas, ao longo do mandato que exerceu, propor uma outra “narrativa” da história escrita com tortura e sangue por tantos membros da instituição à qual pertenceu. O mandato que exerceu durante 4 anos fez de tudo para reescrever a história recente do país, negando o que havia sido a ação dos que, como ele, pertencem à corporação militar. Para quem não conhece a história recente do Brasil e se nega a revisitá-la, preferindo as falsas informações dadas pelos que sustentam os propósitos do atual presidente, o que importa não é o Brasil brasileiro, mas um Brasil completamente falsificado, à imagem mesma do que estão habituados a vivenciá-lo. Trata-se, como dizia Aldir Blanc, de um Brasil que “não conhece o Brasil”.

Por que são importantes as eleições de 2022? Para que o que foi o processo vivido nos quase últimos 60 anos não seja jogado no limbo do esquecimento. De fato, desde a interrupção do processo democrático de 1964, que contou, em seguida, com a generosidade e o dom da vida de tantos brasileiros e brasileiras “gigantes” em coragem e ousadia, enfrentando os desmandos do regime para lutar pelos direitos dos que tinham suas vidas perdidas ou torturadas, passando por todo o caminho da volta à democracia, que culminou na Constituinte cidadã de 1988, que assegurou tantos direitos para os que historicamente não tinham nenhum direito, não se viu tantos atentados contra a democracia como no exercício do atual presidente e seus seguidores.

Por que então há um dever cívico de votar? Para que esse caminho seja interrompido. Para que, mais que a vitória dos carrascos da imensa maioria dos cidadãos e cidadãs do país, que sofrem tantos tipos de atentados aos direitos mais elementares, seja assegurada a vitória dos que têm um mínimo de sentimento do que é o humano.

No livro do Deuteronômio, antes que o povo ingressasse na terra prometida, Moisés o insta a que escolha a vida. Sem dramaticidade, trata-se efetivamente disso nessas eleições: urge escolher a vida. E a vida, certamente, não passa pelo caminho trilhado nos últimos 4 anos, que foram de desconstrução do que o Brasil viveu desde a promulgação da Constituição de 1988. O projeto do atual “desgoverno” é justamente o de desconstruir tudo o que a Carta Magna do país estabelece como mínimo civilizacional.

Cada cidadão, em sã consciência, deve se colocar a questão: que país eu quero? Que projeto de civilidade e nação eu quero? Para quem se diz seguidor e seguidora de Jesus de Nazaré, sua participação no próximo pleito do dia 2 de outubro de 2022 não pode deixar de ter um significado também teológico. Não se trata de votar em quem diz colocar Deus em primeiro lugar, que é contra o aborto ou a ideologia de gênero, que é contra o comunismo. Na verdade, como diz Jesus, “pelos frutos conhecereis a árvore” (Mt 12,32). Colocar Deus em primeiro lugar é justamente promover o “governo de Deus”. Certamente o “governo de Deus” não passa por liberação de armas, muito menos ainda pela aprovação de agrotóxicos que são proibidos em todo o mundo por serem comprovadamente cancerígenos ou afetarem o sistema nervoso, ainda menos pela promoção da destruição do bioma mais importante para o equilíbrio ecológico do planeta, sem falar do incentivo à invasão de terras dos que primeiro habitaram o país.

Moisés, quando o povo ia ingressar na terra prometida, após mostrar-lhe o significado de ser um povo elegido, recordando-lhe que a terra que ia ocupar tinha lhe sido dada como presente por Deus, e indica ao mesmo povo como devia se comportar para que o presente recebido pudesse testemunhar da bondade do doador, instando o povo a “escolher a vida”. Na eleição do dia 2 de outubro de 2022, escolher a vida não passa pela escolha da continuidade do projeto de desconstrução do país levada ao longo do período que viu o nascimento da oposição à ditadura militar e à construção de nação elaborada pela Constituição de 2022. Não se pode deixar enganar pelos discursos que, em nome de princípios cristãos, na verdade são negadores da substância do Evangelho.

Votar nesse dia 2 de outubro, além de um dever cidadão, é uma forma de expressar o compromisso cristão contra os que atentam contra a democracia, os direitos humanos, sobretudo os dos mais vulneráveis, assegurados pela Constituição de 1988. Provavelmente, muitas pessoas serão intimidadas ao exercício desse direito cidadão. A melhor forma de o fazer, é, sem entrar nas polêmicas e, sem se deixar enganar pelas falsas notícias, realizar seu dever cidadão. Como tem insistido o Papa Francisco, a caridade mais ampla é a caridade política. Mas, essa caridade não se esgota no voto. Como tem insistido a Conferência dos Bispos do Brasil, é preciso “reencantar a política”, ou seja, descobrir seu sentido mais profundo e buscar viver o real papel do cidadão/ã, que é o de não reduzir sua participação ao voto, mas implicar-se no cotidiano da vida política, que é seguir o que é feito nas câmaras de vereadores, de deputados e no senado, como também seguir o que realizam os mandatários do poder municipal, estadual e federal. Somente assim, de fato, pela cobrança dos cidadãos/ãs, os interesses dos diversos grupos que compõem a sociedade, serão objeto de discussão, buscando o interesse do bem comum e não somente o dos grupos que representam as grandes corporações que detêm o poder econômico de cada instância da vida dos cidadãos/ãs.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE