Eleições: “A esperança não nos decepciona” (Rom 5,5)

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Élio Gasda SJ

O Brasil vive um dos momentos mais tensos de sua história. 30 de outubro de 2022 será excepcional. Não haverá apenas uma eleição para presidente, mas um plebiscito entre autoritarismo fundamentalista religioso e democracia com direitos humanos.

Não há espaço para neutralidade. Será preciso escolher. Justiça ou injustiça? Civilização ou barbárie? Respeito ou intolerância? Armas ou cultura de paz?

Ouvir a voz da consciência. “Graças à consciência, revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de Deus e do próximo” (Gaudium et spes, 16).

A Igreja defende a laicidade do Estado. Mas é sua missão ajudar seus fiéis no processo de discernimento na busca da verdade, da justiça e da paz. Em defesa do bem comum.

“A dignidade da pessoa humana e o Bem Comum são princípios que deveriam estruturar toda política econômica” (Evangelii gaudium, 203). Bento XVI ensina que “ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol do Bem Comum” (Caritas in Veritate, 7).

A pessoa humana é cerne e sentido da política. E a justiça é primeira virtude das instituições sociais: “as instituições públicas devem adaptar o conjunto da sociedade às exigências do bem comum, isto é, às regras da justiça social” (Pio XI, Quadragesimo anno, 110).

São duas propostas de sociedade. Que Brasil queremos? A que tem como projeto a “economia que mata”? Ou o projeto que defende a vida em abundância para todos e cuida do meio ambiente?

Cristãos de verdade estão escandalizados com um governante desqualificado favorável à tortura, corrupto e que despreza os mais pobres. Quatro anos sob o reinado da mentira. Notícias falsas são forma “oficial” de comunicação da presidência. Jesus diz que o Diabo é o pai da mentira (Jo 8, 44). Uma máquina de destruição sob o slogan “Deus acima de tudo”. Negou a pandemia, dilapidou a educação, destruiu direitos sociais. Intensificou o desmatamento, o tráfico ilegal de madeiras e o garimpo em terras indígenas, ofendeu mulheres e desmantelou políticas públicas. Precarizou o trabalho, congelou salários e provocou a volta da fome. Uma sucessão de tragédias. O país afundou.

Utilizando o nome de Deus em vão, abusou da religião com fins eleitoreiros. “A manipulação religiosa sempre desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados” (CNBB).

Como se não bastasse a luta por dignidade e paz, tornou-se urgente a união para salvar o país do caos. Adversários se uniram em defesa do Estado Democrático de Direito e das instituições da república. Não basta “um respeito formal de regras, mas é o fruto da convicta aceitação dos valores que inspiram os procedimentos democráticos […] se não há um consenso sobre tais valores, se perde o significado da democracia e se compromete a sua estabilidade” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 407).

“A Igreja não tem partido, porém ela tem lado e sempre terá: o lado da justiça e da paz, da verdade e da solidariedade, do amor e da igualdade, da liberdade religiosa e do Estado laico, da inclusão social e do bem viver para todos” (Bispos do Diálogo pelo Reino).

A Igreja se pauta pelo Evangelho de Jesus. Vejamos Jesus no rosto de cada pessoa, especialmente dos pobres. “As maiores preocupações de um político deveriam ser a de encontrar uma solução para a exclusão social e econômica” (Fratelli tutti, 188).

A Igreja orienta ao voto com discernimento para garantir a democracia, o bem viver dos povos, por justiça e paz. Que o voto seja um posicionamento intransigente na defesa da vida. Tudo o que produz morte deve ser combatido com políticas públicas de promoção da dignidade humana (Carta ao Povo Brasileiro. Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora da CNBB).

Qual dos candidatos valorizou mais a saúde, a educação e a superação da pobreza e da miséria, qual retirou verbas do SUS e acabou com programas sociais? Quem cuidou da natureza, principalmente, da Amazônia, quem incentivou a queima das florestas, o tráfico ilegal de madeiras e o garimpo em terras indígenas?

Vote pela paz! Quando todo povo for tratado com dignidade e respeito haverá paz. A paz “não é apenas ausência de guerra, mas o empenho incansável […]de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação” (Fratelli Tutti, 223).

Não nos deixemos vencer pela estupidez fundamentalista. Não há país que resista a tanta insanidade.

Justiça, paz, fraternidade e compaixão são as referências éticas do cristão. Votar “cristãmente” é manter a coerência com a fé que tem o amor como Lei de Cristo (Jo 13, 34).

 

Élio Gasda SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE