Eleições: Como manter a coerência entre fé cristã e voto?

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Élio Gasda SJ

O Brasil vive um dos momentos mais tensos de sua história. As atuais eleições são decisivas para o futuro do país. Como manter a coerência entre fé e voto?

No Brasil, 81% da população se declara cristã (Datafolha/2020), seja de confissão católica, protestante histórico ou pentecostal/evangélico. Essas denominações vêm impactando o cenário político. As eleições chegaram às igrejas. Atores políticos reivindicam a recuperação de valores cristãos que, de acordo com eles, foram destruídos por governos anteriores. Contudo, muitos discursos em defesa da volta da moralidade tradicional ocultam a imposição de pautas restritivas de direitos. Cuidado!

Os cristãos buscam em Jesus de Nazaré a inspiração para sua vida. O discernimento é seu instrumento imprescindível no momento de tomar decisões em coerência com o ensino do Evangelho.

O voto é direito inalienável, pessoal e livre. Mas para o cristão, ele recebe inspiração na máxima de Jesus. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39). O cristão é responsável para que suas decisões sejam o reflexo do seu compromisso com o Reino de Deus. O momento do voto deveria expressar sua contribuição na busca de uma “política melhor colocada a serviço do bem comum” (Fratelli Tutti, 154).

O protagonismo cidadão do cristão nas eleições depende de sua coerência entre fé e vida. “Um bom católico (todo cristão) deve se interessar pela política, e oferecer o melhor de si mesmo para que seus representantes eleitos governem bem” (Papa Francisco).

Para construir uma sociedade justa, fraterna e sem violência é importante  avaliar o alinhamento das propostas das candidaturas com a Doutrina Social da Igreja atualizada pelo Papa Francisco, em sintonia com as posições da CNBB em defesa dos direitos sociais, humanos, ecológicos, econômicos e culturais.

A família é uma pauta cara ao cristão. Família nos leva a pensar em irmandade, comunhão e proteção. O desemprego, os baixos salários, a inflação, a fome, a miséria, desagregam a família. São inimigos para que a família tenha vida. Quem está efetivamente comprometido com a defesa da vida, da justiça social e do trabalho?

O Deus dos cristãos é o Deus da a vida. “Ouvistes o que foi dito: Não matarás” (Mt 5,21). O cristão não pode fazer apologia da violência e da tortura. A Constituição Federal de 1988, art.5, decreta: ninguém será torturado ou submetido a tratamento desumano ou degradante. O candidato é a favor do armamento da população? A Igreja se posicionou contra. O candidato defende a tortura? A Igreja se posicionou contra. Torturar pessoas é pecado mortal, contraria todos os princípios cristãos.

A violência é oposta ao cristianismo. Que seja um voto contra as forças da morte. A Igreja orienta a votar em candidatos promotores da paz que brota da justiça social. “Queremos a paz? Então vamos banir as armas para não ter que viver no medo da guerra” (Papa Francisco). Se temos dúvidas na hora do voto, “procuremos aquilo que leva à paz” (Rom 14,19).

A população é violentada quando políticas públicas inexistem ou não são colocadas em prática. Cortes em educação, saúde e moradia. Nada disso se assemelha aos valores do Evangelho. Comprometido com a vida em abundância (Jo 10,10), o cristão deve apoiar pessoas comprometidas com políticas públicas que defendam e protejam as mulheres, os idosos, as vítimas de violência, os discriminados, os povos originários e indígenas e comunidades tradicionais. Candidatos que tenham respeito pela cultura e pela diversidade religiosa. Diversos candidatos usam o nome de Deus para se eleger. Seu mandato estará a serviço do bem comum ou a serviço de sua igreja?

Cuidado da casa comum! No momento do voto, é fundamental levar em conta os compromissos dos candidatos com a defesa do meio ambiente. Prestar atenção nas propostas em relação à Amazônia. Cristão de verdade defende a criação de Deus.

As eleições ocorrerão em um domingo. Muitos sairão da igreja direto para a urna. Serão capazes de permitir que a mensagem da celebração inspire sua decisão? Voto tem a ver com amor. Porque Deus é amor! “Não podemos votar com o coração cheio de ódio, nem pensando que vamos mudar o Brasil de uma hora para outra” (Dom Leonardo Steiner).

A omissão seria uma grande incoerência. Está em jogo a democracia, a justiça, a vida dos mais pobres. O futuro do Brasil está em jogo. A fé cristã também. O voto do cristão terá consequência direta na vida de todos e compromete o destino de um país inteiro.

Nestas eleições, “não se esqueçam dos pobres” (Gal. 2, 10). A principal preocupação de Jesus não era se as pessoas eram religiosas, mas se elas estavam com fome ou doentes.

Votar com discernimento. “O homem prudente age com discernimento. O insensato revela sua loucura” (Prov. 13,16).

Élio Gasda SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

Foto: José Cruz / Ag. Brasil

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