Ensinar com o coração e para o coração

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Alfredo Sampaio Costa SJ

A pedagogia, arte e ciência do ensinamento, não pode ser reduzida a uma mera metodologia. Ela deve abarcar uma visão global do mundo e da pessoa humana que se deseja educar[1].

No documento das “Características da prática educativa da Companhia de Jesus” encontramos que o escopo último da atividade educacional dos jesuítas é “ajudar cada estudante a desenvolver a plenitude dos dons que recebeu de Deus”. Portanto, o objetivo é “muito mais o crescimento global da pessoa, que conduz depois à ação”. Nesse sentido devemos entender as consagradas formulações de Pedro Arrupe (“formar mulheres e homens para os outros”) e do Pe. Kolvenbach (“o que queremos é formar líderes comprometidos no serviço e imitação de Jesus Cristo, homens capazes e conscientes”)[2]

Mary Elizabeth Mullino More, no seu interessante trabalho “Teaching from the Heart” (“Ensinando a partir do coração”)[3], fala de um “integrative teaching” (“ensino integrador”), “incarnational teaching” (“ensino encarnacional”), “relational teaching” (“ensino relacional”) e “liberative teaching” (“ensino libertador”). Em outras palavras: o processo educativo deveria conduzir os estudantes a reunir e organizar as suas diversas experiências e ideias em um conjunto integrado (integrative teaching). Como notou o estudioso Alfred North Whitehead, “o problema da educação é como tornar possível ao pupilo ver a árvore em meio à floresta”[4].

Além disso, o ensino diz respeito à revelação de Deus no mundo, que respeita a preciosidade da vida onde quer que seja encontrada. O ensino, portanto, deve ser desenvolvido com paixão pelos outros, com um grande cuidado por eles, devendo responder a toda uma situação e aos indivíduos implicados nela. Trata-se de buscar sempre mais profundamente o Deus encarnado na história (incarnational teaching).

É evidente que o ensino é uma atividade relacional por excelência, onde o método narrativo é muito importante para pôr em movimento os atores em ação (relational teaching). Enfim, a dimensão do “liberative teaching” aponta para a conscientização à qual deveria levar o ensino: a uma prática social e política engajada.

O documento da Companhia intitulado “Paradigma pedagógico inaciano” descreve como se dá a constante interrelação entre “experiência”, “reflexão” e “ação” da dinâmica docente-aluno de uma sala de aula de um centro de estudos da Companhia de Jesus[5]:

“Nos centros educativos da Companhia de Jesus, a experiência da aprendizagem deve ir para além dos conhecimentos aprendidos de memória e desenvolver métodos de estudo mais complexos: entender, aplicar, analisar, sintetizar, avaliar; se a aprendizagem se detivesse aqui, não seria inaciana: faltaria, de fato, o momento da REFLEXÃO, no qual os alunos são motivados a considerar o significado e a importância humana daquilo que estudam e a integrar este significado, enquanto alunos responsáveis que crescem como homens dotados de competência, consciência e amor” (PPI 31).

O modelo pedagógico inaciano compreende 5 etapas: CONTEXTO, EXPERIÊNCIA, REFLEXÃO, AÇÃO E AVALIAÇÃO”.  Cada uma delas é importante dentro de qualquer que seja o processo educativo vivenciado.

CONTEXTO: Importa conhecer o aluno: temperamento, caráter, gostos, dificuldades, vida, saúde, família, história educativa, inclinações, mas igualmente conhecer a relação com o argumento da disciplina: conhecimentos prévios possuídos sobre o argumento da programação, atitudes e predisposições do aluno a trabalhar sobre o argumento. Por que o contexto é importante em vista ao ensino e aprendizagem? Porque a experiência humana não se constrói no vazio, mas também porque permite ao educador elaborar uma programação e utilizar instrumentos de trabalho mais adequados ao tipo de aluno concreto que deve acompanhar e não imaginar um aluno qualquer, ideal.

EXPERIÊNCIA significa para Inácio “saborear as coisas internamente” (EE 2) Isso requer que se conheçam os fatos, conceitos, princípios, que se examine de perto as conotações e nuances das palavras e acontecimentos, que se analise e pese as ideias e razões. Mas a experiência inaciana vai muito além de uma simples apropriação intelectual. Inácio insiste: toda a pessoa (inteligência, coração, vontade) deve tomar parte à experiência com que se aprende […] Tanto as dimensões afetivas quanto as cognitivas da pessoa são incluídas, pois se o que se sente interiormente não está unido ao que se aprende intelectualmente, o que se aprende não impulsionará à ação”.  O termo “experiência” é por isso utilizado para descrever toda atividade na qual, além da aprovação intelectual da matéria tomada em consideração, uma sensação de natureza afetiva é experimentada pelo aluno (PPI 80-81).

A nível da REFLEXÃO, a memória, a inteligência, a imaginação e os sentimentos são utilizados para captar o significado e o valor essencial do que se está estudando, para descobrir suas relações com outros aspectos do saber e da atividade humana e para avaliar as suas implicações na busca da verdade e da liberdade[6]. Adotamos o termo “reflexão” para indicar a reconsideração atenta de uma disciplina, de uma experiência, de uma ideia, de um projeto ou de uma reação espontânea, com a finalidade de captar melhor o seu significado. Por isso a reflexão é o procedimento mediante o qual emerge o significado da experiência humana: compreendendo mais claramente a verdade que se estuda, compreendendo qual é a origem das sensações ou reações que experimentei no decurso destas considerações, aprofundando a minha compreensão daquilo que implica para mim e para os outros o que eu aprendi, fazendo nascer pontos de vista pessoais sobre fatos, ideias, sobre a verdade ou as distorções da verdade, alcançando assim um certo conhecimento de quem eu sou e do que poderei ser em relação com os outros (PPI 49-54).

A AÇÃO desempenha um papel essencial. Para Inácio, a prova decisiva do amor é o que se faz, não o que se diz. A força dos Exercícios Espirituais consiste precisamente em dar ao exercitante a capacidade de conhecer a vontade de Deus e realizá-la livremente. Além do mais, Inácio e os primeiros jesuítas se preocupavam principalmente em suscitar nos estudantes atitudes, valores e ideais com base nos quais seriam capazes de tomar as suas decisões em uma grande variedade de situações (cf. PPI 59). O termo “ação” se refere aqui a um crescimento humano interior que tem como fundamento tanto uma experiência sobre a qual se tenha refletido quanto as manifestações externas. Compreende, portanto, duas etapas: escolhas interiorizadas e escolhas manifestadas exteriormente (PPI 62).

AVALIAÇÃO. Todos os docentes sabem que é necessário avaliar os progressos dos alunos no estudo. A pedagogia inaciana não se limita a buscar resultados acadêmicos. O que se avalia é o crescimento integral dos nossos alunos como pessoas para os demais. A avaliação periódica e sistemática dos alunos no que diz respeito a atitudes, prioridades e ações coerentes com o ser pessoas para os outros é essencial (PPI 63-64).

 

Um modo inaciano de ensinar aprendendo

Qual seria então o modus procedendi in theologicis próprio da Companhia de Jesus? Sempre segundo Theobald, esta teologia “inaciana” se desenvolve segundo três características essenciais:

  • O discurso teológico “inaciano” existe sempre em vista de um efetivo processo de formação humana e espiritual o qual ele deve regular. Como afirma Blondel, “saído do real, sendo real, indo ao real, o pensamento não é feito para nos dar o real em um espetáculo, mas para fazer-nos adquiri-lo”[7].
  • O modo de proceder em teologia de corte inaciano, sendo essencialmente prático, permanece tributário ao caráter histórico e infinitamente variado das experiências de “formação de uma vida verdadeira”.
  • Obediente ao círculo do feedback, o sistema de regulação se modifica e se verifica em uma prática efetiva de estruturação individual e coletiva[8].

A atualidade deste modo de fazer teologia é evidente, principalmente na situação mundial em que vivemos, que requer sem dúvida um discernimento constante, um ser capaz de fazer um diagnóstico  da nossa sociedade e da própria Igreja, uma vez que a normatividade dogmática deve sempre enfrentar o caráter único dos itinerários humanos. De fato, é a própria credibilidade da Igreja que está em jogo. Esta depende da sua capacidade coletiva de deixar-se verdadeiramente interrogar-se e trabalhar pela palavra do Evangelho.

O modo inaciano de fazer teologia será sempre marcado pela experiência cotidiana da imensidão sem limites de Deus, que ultrapassa todo conhecimento, segundo a dinâmica do Magis inaciano!

Trata-se, portanto, de ajudar cada ser humano a descobrir o projeto do Deus Criador sobre ele, de modo que possa cooperar voluntariamente com Ele no mundo. Isso significa ajudar a desbloquear em cada um a lei interior da caridade e do amor que o Espírito Santo escreve e imprime em nossos corações[9].

Será sempre uma educação personalizada, centrada nas pessoas que constituem a Comunidade Educativa, uma educação com uma estrutura organizativa responsável e participativa, que promova e estimule a liderança inaciana[10]:

“Encorajamento, respeito e espírito de serviço deverão caracterizar as relações entre docentes e alunos e entre os membros da comunidade educativa. O ideal de um centro de ensino da Companhia de Jesus é ser um lugar onde se crê nas pessoas, se respeita um ao outro, cuida-se um do outro; onde os talentos naturais e as capacidades criativas de cada um sejam reconhecidas e louvadas. Onde cada um seja tratado com justiça e equidade, onde os sacrifícios a favor dos pobres, marginalizados seja algo normal; onde cada um encontre convite, encorajamento e sustento de tudo o que necessita para atingir a plena atuação pessoal da excelência. Onde nos ajudamos uns aos outros e trabalhamos juntos com entusiasmo e generosidade, esforçando-nos por atuar concretamente em palavras e ações o ideal que propomos para nossos alunos e para nós mesmos”[11].

Podemos dizer que os Exercícios baseiam a sua eficácia no respeito a uma dupla verdade: a verdade objetiva do evangelho, lida na situação concreta na qual o exercitante se encontra; e a verdade subjetiva do exercitante, isto é, o seu estado pessoal atual.

Portanto, a integração, adaptação e a personalização são partes integrantes da pedagogia dos Exercícios e deveriam modelar qualquer ensino “de corte inaciano”!

 Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

 

[1] Vincent J. DUMINUCO, “Il futuro della Pedagogia dei Gesuiti”, in La Pedagogia della Compagnia di Gesù. Atti del Convegno Internazionale. Messina 14-16 novembre 1991 (a cura di F. Guerello – P. Schiavone), ESUR, Ignatianum, Messina 1992, 456.

[2] Vincent J. DUMINUCO, “Il futuro della Pedagogia dei Gesuiti”, 459.

[3] Mary Elizabeth MULLINO MOORE, Teaching from the Heart. Theology and Educational Method, Fortress Press, Minneapolis 1991.

[4] Alfred North WHITEHEAD, The Aims of Education, Free Press, New York 1957, 6.

[5] PPI, n. 29.

[6] PPI, n. 48.

[7] M. BLONDEL, “L’illusion idéaliste”, in Les premiers écrits de Maurice Blondel, PUF, Paris 1956, 116.

[8] Ch. THEOBALD, Une manière ignatienne de faire de la théologie, 394-395.

[9] Ignacio IGLESIAS, Influjo de los Ejercicios Espirituales en la pedagogia ignaziana, PUG, Roma 2004. Do site “Centro Virtual de Pedagogia ignaciana”, http://www.pedagogiaignaciana.com/admin/bibliografias.php accesso effettuato il 3  ottobre 2008.

[10] Cf. Carlos VASQUEZ, Características de la educación de la Compañía de Jesús, 9.

[11] PPI, n. 37.

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