Geraldo Luiz De Mori, SJ
“Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis” (Lc 6,24-25).
Os últimos dias, além de marcados internacionalmente pelas questões de geopolítica, como as das movimentações do governo dos Estados Unidos relacionadas à guerra na Ucrânia, às ameaças ao Irã, às manobras para manter a hegemonia frente à China, têm sido saturados pelas revelações dos Arquivos Epstein mesclados com um evento de outro tipo, esportivo, o Super Bowl, evento muito popular nos USA, no qual Bad Bunny, artista de origem portoriquenha, comandou um espetáculo que mostra o poder profético e político da arte frente à arrogância das políticas anti-migração do atual mandatário da potência mais rica do planeta. Nesse mesmo período, no Brasil, não cessam de ser reveladas as intricadas ramificações envolvendo os desvios bilionários do Banco Master, nos quais estão implicadas personagens da elite, da política, do judiciário, das igrejas e até mesmo do crime organizado no país, deixando a todos estarrecidos. Que palavra a teologia pode dizer diante desses acontecimentos cheios de significado?
Muitos fiéis se contentam em simplesmente acompanhar, sem compreender, o cotidiano e os eventos que se sucedem, pensando, muitas vezes, que o mundo está perdido, porque a maldade e a corrupção penetraram as mais altas esferas do poder e das instituições, inclusive as mais “sagradas”, como as igrejas. Outros reagem contra toda palavra que se diga sobre tais acontecimentos, pois dizem que são coisas mundanas, que a fé deve alimentar a “alma”, não se envolvendo em assuntos políticos. Essas duas atitudes, no entanto, não correspondem ao que é revelado na própria Palavra de Deus. De fato, já na bíblia hebraica, frente aos desmandos do poder político e ao uso indevido do nome de Deus, mesmo da parte de seus representantes, como os sacerdotes, os profetas se levantavam, denunciando a corrupção, a injustiça, a manipulação do nome de Deus. O próprio Jesus também não se calou frente ao poder de seu tempo, chamando o rei Herodes de “raposa” e não se curvando diante de Pilatos. Portanto, seja frente às grandes questões que afligem o mundo ou às que estarrecem uma nação, a palavra da teologia tem que ser dita, sob o risco de trair sua razão de ser.
No caso dos Arquivos Epstein, que voltaram novamente à tona, por conta dos milhares de documentos que recentemente vieram a público, envolvendo as mais altas autoridades da política norte-americana, mas também as de outros países, além de personalidades importantes do mundo dos negócios, da cultura, da arte e do esporte, o que chama a atenção é o caráter tentacular do poder que se crê sem limites. O financista estadunidense, julgado e condenado por uma série de abusos contra menores alguns anos antes, organizava festas em suas propriedades ao redor do mundo, para as quais convidava políticos, magnatas, intelectuais, celebridades do entretenimento e do esporte, oferecendo-lhes muitas vezes meninas e meninos que eram vítimas de abusos, que, por sua vez, eram encorajados a aliciar outros, criando um círculo infernal, que, em vários casos, culminaram em morte. Os Arquivos recentemente disponibilizados, trazem nomes de personalidades de todas as tendências ideológicas, tanto alinhadas à direita quanto à esquerda, um verdadeiro espetáculo de horrores, que “clama ao céu” (Gn 4,10).
No caso do banco Master, que implicou o Banco Central, a Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal de Contas da União, e instituições como o Banco Voit, Will Bank e o Banco de Brasília, o esquema de corrupção implicou não só o que foi o presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, mas líderes de partidos políticos, deputados, governadores, pastores de algumas igrejas evangélicas, pessoas ligadas às instâncias do judiciário nacional, sem contar os clientes que foram lesados, e os esquemas que envolveram os desvios das aposentadorias, num imbróglio difícil de ser decifrado, por conta da quantidade de recursos implicados, da ordem de bilhões, e também do número de pessoas que participou do esquema. Até o momento, sabe-se também das festas e do tráfico de influência do presidente do banco, e isso certamente não descarta possíveis abusos no campo da sexualidade. Como no caso dos Arquivos Epstein, salta aos olhos o envolvimento das mais altas esferas da economia, do poder e dos possíveis guardiões da moralidade, da legalidade e do exercício da justiça no país. Também nesse caso, do fundo dos corações brota a indignação, como a de Jesus, que, segundo o “sermão da planície”, em Lucas, pronuncia três “ai de vós”, que, nos dois casos em questão, se dirigem contra os “ricos”, os que estão “fartos” e os que “riem” (Lc 6,24-25). Com efeito, muitos membros das elites, mundial e nacional, pensam que por serem ricos, viverem na abundância e rirem, se considerando felizes, podem fazer o que quiserem, ignorando e menosprezando o princípio de humanidade dos pobres, dos famintos e dos que choram, por terem sido lesados, ignorados e desprezados por eles.
A indignação é um dos sentimentos que brota na mente e nos corações de todos os que se inteiram do que aconteceu nas festas organizadas por Epstein ou por Vorcaro. Ela faz parte de uma ira, que, como diz Jesus em Mt 23,35, “desde o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias” sobe aos céus, clamando por justiça. O profetismo bíblico sempre alçou a voz contra aqueles que desprezavam os órfãos, as viúvas e os estrangeiros. Na longa história da humanidade, não só no âmbito das religiões bíblicas, essa voz sempre ecoou, fazendo-se muitas vezes ouvir, ou sendo caladas. Mas ela é a voz dos que muitas vezes foram silenciados e precisam ser ouvidos.
De muitas maneiras a voz da profecia ecoa frente ao horror dos abusos do caso Epstein e do caso Master, junto com as de muitas mídias e grupos que não querem ouvi-las e buscam ignorá-las ou deslegitimá-las. Em muitos casos, essa voz só consegue se fazer escutar através da poesia ou da arte. É o caso do artista Bad Bunny, no Super Bowl de 2026, onde, mais que trazer a questão dos Arquivos Epstein, fez-se voz que denuncia a política do principal mandatário envolvido nos relatórios dos Arquivos: o presidente da potência que faz de tudo para manter sua hegemonia no mundo, que tem como um de seus efeitos o ataque de um dos grupos que a voz dos profetas defendia: os migrantes. De forma irônica, criativa e numa performance impressionante, recorrendo à própria língua de sua nação, mostrou que a bem-aventurança vem das margens, dos que são silenciados, dos que são humilhados, dos que são vítimas do sistema de morte.
A fé cristã não pode ignorar os dois grandes escândalos que povoam a mídia nas últimas semanas. Sua palavra tem que suscitar a indignação, pois tudo aquilo que afeta os mais pequeninos do reino, afeta o próprio Deus, e contra eles, Jesus também disse um “ai dos que escandalizam os pequenos”, mas também um “ai daqueles por quem o escândalo vem” (Mt 18,6-7). Que a capacidade de indignar-se possa brotar de muitos corações, e, como Bad Bunny, que suas palavras possam expressar-se de muitas maneiras, contribuindo para que o direito dos pequenos e dos últimos seja respeitado.
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
12/02/2026

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