Escutar e transbordar: a exortação do papa à assembleia eclesial

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Temos vivido um momento privilegiado na Igreja. Tempo de escuta. De Sinodalidade.

Na homilia proferida na solene celebração eucarística na Basílica de São Pedro, no dia 11 de outubro de 2021, o Papa falou de três verbos do Sínodo: Encontrar, escutar e discernir.
Ouçamos suas palavras sobre o “escutar”:

Interroguemo-nos, com sinceridade, neste itinerário sinodal: Como estamos quanto à escuta? Como está o ouvido do nosso coração? Permitimos que as pessoas se expressem, caminhem na fé mesmo se têm percursos de vida difíceis, contribuam para a vida da comunidade sem ser estorvadas, rejeitadas ou julgadas? Fazer Sínodo é colocar-se no mesmo caminho do Verbo feito homem: é seguir as suas pegadas, escutando a sua Palavra juntamente com as palavras dos outros.
É descobrir, maravilhados, que o Espírito Santo sopra de modo sempre surpreendente para sugerir percursos e linguagens novos. Aprender a ouvir-nos uns aos outros – bispos, padres, religiosos e leigos; todos, todos os batizados – é um exercício lento, talvez cansativo, evitando respostas artificiais e superficiais, respostas pronto-a-vestir… essas não! O Espírito pede para nos colocarmos à escuta das perguntas, preocupações, esperanças de cada Igreja, de cada povo e nação; e também à escuta do mundo, dos desafios e das mudanças que o mesmo nos coloca. Não fechemos o coração, não nos blindemos nas nossas certezas. Muitas vezes as certezas fecham-nos em nós mesmos. Escutemo-nos
”.

O Papa Francisco numa frase lapidar nos fala da importância desse processo de escuta, diálogo e discernimento: “Numa assembleia, o intercâmbio facilita escutar a voz de Deus até escutar com Ele o clamor do povo, e escutar o povo até respirar nela a vontade a que Deus nos chama”.

A segunda palavra – “transbordar” – se insere no contexto de encontrar caminhos que evitem que as diferenças se transformem em divisões e polarizações: “Neste processo, peço ao Senhor que esta Assembleia seja expressão do “transbordar” do amor criativo do Espírito, que nos impulsiona a sair sem medo ao encontro dos demais, e que anima a Igreja para que, por um processo de conversão pastoral, seja cada vez mais evangelizadora e missionária”[1].

Não podemos falar de “escuta” hoje sem pensar em Francisco e sua luta para que a Igreja seja capaz de escutar e dialogar com todas as culturas, religiões e com os sem religião. Dialogar com aqueles que pensam diferente de nós é a missão de uma Igreja toda ela sinodal[2]

A “escuta” atenta a Deus faz parte da experiência primordial da fé do povo de Deus, como podemos ver no livro do Deuteronômio (Dt 6,4-9):

4. Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.
5.Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças.
6. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração.
7. Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares.
8. Atá-los-ás à tua mão como sinal, e os levarás como uma faixa frontal diante dos teus olhos.
9. Tu os escreverás nos umbrais e nas portas de tua casa. (Dt 6,4-9).

 

Shema‘ (“Escuta”) é a oração hebraica mais conhecida. Ela é recitada com uma profunda reverência e é sobretudo necessário deter-se no primeiro versículo: “Escuta, Israel, nosso Senhor, o Senhor é um só”. Colhemos de Rav Elia Kopciowski – rabino chefe de Milão estas sugestivas considerações sobre alguns versículos da primeira seção bíblica:

“Cada versículo, cada palavra, até mesmo cada letra tem dado aos nossos Mestres a possibilidade de aprofundar o significado do SHEMA, e forneceu novos ensinamentos para guiar o hebreu, mas não somente ele, mas todo fiel, a melhor entender o objetivo divino no apelo a ESCUTAR.  Já o primeiro versículo foi sempre uma fonte de ensinamentos e de conselhos que permite ao fiel compreender como o reconhecimento do Deus único tenha mudado o curso da história moral e espiritual da Humanidade, tenha incidido na alma do hebreu a confiança, a segurança que a humanidade inteira deveria ter rejeitado as falsidades da idolatria e reconhecido o único Deus! Único, porque não existem outras divindades; único, porque as suas qualidades são exclusivas e nenhum outro ser pode ter as qualidades divinas. São 6, no texto hebraico, as palavras que traduzimos por “Escuta, ó Israel”… “. 

Destas 6 palavras, três delas exprimem as características fundamentais do Um e Único. Duas vezes é citado o tetragrama e uma vez a palavra Elohim“. A repetição do Tetragrama, atraindo a nossa atenção, nos chama a reconhecer e a proclamar que tudo o que está contido no mundo e no universo está debaixo do domínio de Deus. Além do mais, segundo a tradição judaica, o Tetragrama, aqui traduzido por “Senhor” ou “Eterno”, indica a Middath ha-rachamim, a qualidade divina da misericórdia, enquanto Elohim indica a Middath ha-din, a justiça divina. Justiça e misericórdia são ressaltadas desde o início na proclamação de fé do judaísmo, e constituem as duas qualidades principais da Majestade divina!

Este único SER é Aquele que detém o poder da justiça e da misericórdia. E é muito significativo que a qualidade da misericórdia seja expressa duas vezes, enquanto aquela da justiça somente uma; de modo tal que o Eterno mesmo destaca que a misericórdia deve superar as exigências da justiça. É exatamente esta misericórdia que o judeu é chamado a recordar e demonstrar. Mas podemos ainda acrescentar algo: não é suficiente que o hebreu seja “testemunha” pelo fato de ter escutado: a letra ‘ain, a primeira da palavra ‘ed, “testumunha“, significa “olho“.

O olho que vê, unido à orelha que escuta, tornam o versículo mais denso de significado: todas as nossas faculdades devem ser chamadas a testemunhar esta “unidade e unicidade de Deus”, assim como se expressou Davi: “Ó Senhor, todos os meus membros proclamam: Ó Eterno, quem é como ti?”(Sl 35,10). O fiel se tornará então não uma simples testemunha, mas também uma “testemunha ocular”.

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Apocalipse 2-3)

O verbo “escutar”, do latim “auscultare”, significa: dar ouvido, escutar e obedecer. No hebraico, “escutar” (shemá) significa “ouvir, escutar, atender, prestar atenção, aquiescer, obedecer”. Já no texto grego da Septuaginta, a expressão “escutar” (akoue)  significa ouvir, escutar, vir a saber.

No Novo Testamento, o termo usado para “obediência”, “hypakouein”, traduzido literalmente, significa escutar ou ouvir atentamente.

Trago para nossa reflexão o que o livro do Apocalipse nos fala a respeito do Escutar, no contexto das 7 Igrejas da Ásia Menor (Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatita, Sardes, Filadélfia e Laodiceia). Cristo fala e a Igreja escuta[3]. Na sua raiz hebraica o verbo “ouvir” exprime, essencialmente, o prestar atenção a algo importante ou, ainda, a obediência. Nas cartas às 7 Igrejas do livro do Apocalipse, estas são convidadas a escutar/obedecer a toda a mensagem que o Espírito (Cristo Ressuscitado) profere, que é o conteúdo de cada carta, sempre atual. O fato de o homem ouvir constitui a sua capacidade de resposta à revelação da palavra. Também no Novo Testamento, a revelação é “palavra” que se ouve e precisa ser assimilada mais profundamente interiormente (= escutada). O escutar acende a fé e induz à ação[4].

Cristo fala e a Igreja depara-se com um imperativo: “quem tem ouvido ouça o que o Espírito diz às Igrejas”. E quem é essa Igreja que escuta? É a Igreja com o seu contexto, qualidades, defeitos e problemas. Uma Igreja que, muitas vezes, trabalha e se afadiga tanto, que é constante e luta pela fé, mas que perdeu seu amor primitivo, como a Igreja de Éfeso. Noutros contextos, é pobre em aparência e sofre tribulações várias, mas é rica aos olhos de Deus, apesar de caluniada e prestes a ser provada, como a Igreja de Esmirna. Noutras circunstâncias é fiel, não renega a fé, ainda que habite em ambiente hostil à mesma, como em Pérgamo. Ou como em Tiatira, corre o risco de se mundanizar e paganizar com a idolatria, ainda que possuindo amor, fé, dedicação, constância e obras numerosas. Poderá estar como morta, possuindo obras imperfeitas, como em Sardes, mas sempre existe a esperança de um resto que não manchou suas vestes. Ou como a de Filadélfia, Igreja frágil, mas que guarda a palavra e não renega o nome de Cristo. Por fim, à semelhança de Laodiceia, a Igreja pode aparecer como morna, nem fria nem quente[5].

A leitura atenta do Apocalipse revela uma diversidade de contextos, onde ressoa o mesmo apelo: “Escutar”. Isso vale para sempre.

O caminho da sinodalidade da Igreja passa pela escuta, isto é, pela obediência dos ouvidos. Uma consulta sinodal acontece quando a Igreja, impulsionada pela ação do Espírito Santo, começa por ouvir o povo de Deus e os seus pastores.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta e ciente de que escutar é muito mais do que simplesmente ouvir. A autêntica escuta comporta a reciprocidade num diálogo que se estabelece, onde cada um tem algo a ensinar e aprender[6].

É tempo de aprendizagem, de nos abrirmos mais e mais ao Sopro do Espírito que segue falando às Igrejas!

 

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

[1] https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2021-11/escutar-a-transbordar-a-exortacao-do-papa-assembleia-eclesial.html . Acesso em 22.10.2021.

[2] Ademilson Tadeu Quirino e Luiz Fernando Ribeiro Santana, Sinodalidade: escuta e comunhão na vida e missão da Igreja, Grande Sinal vol.74, n.01 (Jan/Jun 2020) 87.

[3] Cf. o trabalho de Vasco Emanuel Martins Figueirinha, Do Cristo que fala à Igreja que escuta. Estudo exegético-pastoral da trilogia “conhecer”, “dizer” e “ouvir” em Ap 2-3. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa. Faculdade de Teologia 2012.

[4] Vasco Emanuel Martins Figueirinha, Do Cristo que fala à Igreja que escuta. Estudo exegético-pastoral da trilogia “conhecer”, “dizer” e “ouvir” em Ap 2-3, 75-76.

[5] Vasco Emanuel Martins Figueirinha, Do Cristo que fala à Igreja que escuta. Estudo exegético-pastoral da trilogia “conhecer”, “dizer” e “ouvir” em Ap 2-3, 87-88.

[6] Ademilson Tadeu Quirino e Luiz Fernando Ribeiro Santana, Sinodalidade: escuta e comunhão na vida e missão da Igreja, Grande Sinal vol.74, n.01 (Jan/Jun 2020) 98.