Graça de Deus e esforço humano articulados para servir

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Alfredo Sampaio Costa SJ

A consequência direta da vontade de uma progressão metódica será a preocupação constante de saber aonde ir, definindo assim os objetivos a serem atingidos. Globalmente, aquele que empreende o caminho dos Exercícios sabe o que quer: “Buscar e encontrar a vontade divina na organização da própria vida para a salvação da alma” (EE 1).

Esta intenção global irá se concretizando ao longo do caminho dos Exercícios em uma série de objetivos que irão sendo individuados e passíveis de serem controlados. Inácio gosta de usar a expressão “obter o que se procura”, “buscar com diligência o que tanto deseja” (EE 20).

O fim último permanecerá sempre o mesmo, mas, segundo o grau a que chegou, o exercitante terá que se propor uma tal realização ou aspecto da experiência cristã. Daí o recorrer da fórmula: “Pedir o que eu quero”[1]. O pedir é uma maneira para saber claramente o que se quer. “Com a intenção de encontrar o que quero” (EE 76).

A pessoa toda do exercitante é aqui requerida. Nos diversos exercícios que lhe vão sendo propostos, ele deverá lançar mão de todas as reservas de energia de que dispõe, como os exercícios físicos fazem trabalhar todos os músculos do corpo[2].  Assim, deverá atuar suas “capacidades naturais”(EE 20), sobretudo as clássicas “faculdades da alma” (EE 127), “memória, intelecto e vontade” (EE 234). A meditação com as três potências, presente na primeira semana (EE 45,50-52) trata delas diretamente. Elas prosseguirão atuantes e participantes durante todo o percurso dos Exercícios.

O termo “todo” é um dos mais presentes dos Exercícios. Segundo Inácio, o exercitante modelo è aquele que “é mais livre e deseja em tudo tirar algum proveito” (EE 20). Desde o início se pede que o exercitante entre nos Exercícios “com grande ânimo e liberalidade para com seu Criador e Senhor, oferecendo-lhe todo o seu querer e liberdade” (EE 5).

Inácio é consciente que não é nada fácil articular na ordem prática “natureza” e “graça” mas, não obstante, ele não atenua nenhuma das expressões, que fizeram com que fosse tachado de voluntarista. Ele exigirá ânimos em tensão contínua. Os seus Exercícios podem ser considerados como um desenrolar que parte da anotação quinta, que assinala a disposição prévia fundamental  e a oração “Tomai, Senhor, e recebei”, cume da entrega total. E mesmo ao chegar ao fim de todo o processo, a pessoa não deve somente se contentar em deixar a Nosso Criador e Senhor dispor de tudo o que é, mas deve ter a coragem de “oferecer tudo a Ele”[3].

Não nos é permitido retroceder diante de uma linguagem exigente e até mesmo heroica: combates, assaltos (EE 327), batalhas, ofensivas (EE 12,13), defesas (EE 327), conquistas (EE 93,95), bandeiras, inimigos mortais, supremos capitães (EE 136), derrotas, vitórias (EE 13), são termos que se repetem todo dia e a todo momento durante os Exercícios.

Ao mesmo tempo, Inácio pretende destacar que é sob a ação do Espírito Santo que o exercitante descobre, progressivamente, o seu caminho próprio, designado por Deus para ele. O Espírito Santo é o ator principal na experiência inaciana. O Pe. Géza descreve assim a presença e atuação do Espírito no exercitante:

“Os Exercícios Espirituais são, no seu conjunto orgânico, uma pedagogia sobrenatural na qual o Espírito instrui, move e nutre o exercitante, orientando-o na direção de uma vida divina sempre mais florescente. O crescimento na graça ultrapassa absolutamente as exigências e forças naturais do homem: nem a inteligência nem a vontade, pelo esforço próprio, podem elevar o exercitante à esfera luminosa da graça. Só o Espírito Santo è capaz de introduzir na comunhão com o Deus Vivo, por meio da inserção progressiva em Jesus Cristo, comunicando-lhe uma satisfação espiritual interna”[4].

Segundo Santo Inácio, tudo que existe de bom neste mundo provém de Deus. A obra de santificação toca antes de tudo a Deus. Deus Nosso Senhor entra na alma e sai dela, move-a e atrai a si, inflamada de amor, segundo lhe agrada (EE 330). Este é o caráter distintivo da sua ação!

É próprio de Deus comunicar-se à alma devota, inflamá-la no seu amor e louvor, dispô-la na via do maior serviço (EE 15). Deus continuamente assiste à alma com o seu auxílio e distribui as graças segundo o seu beneplácito[5]. Em uma palavra, segundo o autor dos Exercícios, neles ou fora deles, tudo o que é bom é dom e graça de Deus, Nosso Senhor (EE 322) e é sua tática divina o dialogar com a alma de tal modo que a pessoa seja consciente plenamente (EE 25) que os dons e graças divinas não se devem de modo algum ao trabalho ascético da alma (EE 322).

O método inaciano conta com a graça de Deus, busca-a incessantemente, tem como norma a máxima fidelidade à graça de Deus e se reduz na prática em dispor o cristão para que possa receber os dons divinos.

A concepção inaciana da graça é dinâmica: ele está mais interessado nos seus efeitos práticos na alma, isto é, como Deus vai santificando as almas[6]. O santo estabelece como pressuposto a abundância desses dons para avançar pelo áspero caminho da santidade. Sem estes dons, a alma facilmente não terá forças para o caminho. Inácio nas suas cartas fala sempre de como o Senhor concede graças de forma “abundante”, “muito abundante”, “suma e abundante”, “copiosa”, “muito especial”, “inestimável”. Esta superabundância se reflete em uma outra dimensão afim, a saber, na continuidade com que o Senhor vai distribuindo estes favores celestiais: concede-os “continuamente”, “sempre”, “perpetuamente”.

Inácio, com isso, quer infundir na alma a confiança de ter sido escolhida por Deus à santidade e lhe assegurar que uma consequência deste ter sido escolhida por Deus é experimentar essa profusão especial de graças abundantes que “Nosso Senhor, por sua infinita Bondade, concede normalmente”[7]. Para entender esta posição inaciana é preciso levar em consideração o seu grande apreço pela Providência divina: Ele está seguro de que Deus o escolheu para colaborar à realização de um plano determinado. E o desígnio divino não pode falhar: “A minha esperança no Senhor nosso não será frustrada se sua graça divina cooperar”[8]. Eis o fundamento da confiança inaciana: somos criaturas de Deus, temos a Ele como nosso Criador e Senhor. Escutemos suas palavras: “Creio e espero em Nosso Senhor, sem poder duvidar, que pela sua infinita e suma Bondade … Ele se dignará em nos dar sua graça costumeira… a fim de que sempre possamos caminhar no seu serviço, louvor e glória”[9].

Um outro aspecto característico da concepção inaciana da graça divina é que ela se realiza na alma em um desenvolvimento vital, em um aumento crescente[10]. Inácio não se cansa de repetir que Deus concede esta graça “em tudo”[11]: assim, fala de “graça inteira”, “inteiro favor e auxílio”, “graça realizada (cumplida gracia), expressão com a qual ele costuma concluir suas cartas. Podemos, pois, afirmar que os Exercícios contam ao mesmo tempo totalmente com o esforço pessoal e inteiramente com a ação da graça.

Inácio concede uma enorme importância ao esforço natural que consiste no uso dos meios que Deus concede aos homens em vista do seu fim. Esse uso manifesta a vontade do homem, seu desejo sincero – “Aquilo que quero”- de responder efetivamente aos apelos divinos da criação, da redenção, da fé e do amor. Por outro lado, Inácio coloca toda sua confiança em Deus, autor de cada dom, graça e ajuda indispensáveis à toda resposta livre do ser humano. Inácio exige todo o esforço pessoal que o homem possa fornecer, mas conta verdadeiramente com a graça de Deus[12].

Mística a ascética se conjugam na espiritualidade inaciana. Só podemos “encontrar” se “buscamos com diligência”(EE 20), pondo em ação os meios aptos (EE 89) e dispondo a alma (EE 1,7,18,213).

É preciso sem dúvida exaltar a graça: tudo vem de Deus, mas com uma submissão ativa da liberdade, a qual igualmente provém de Deus (EE 234). “O próprio Criador e Senhor se comunica à sua alma” se esta é devota e “busca a vontade divina” (EE 15)

Ao concluir os Exercícios, diz-se ao Senhor: “Tomai, Senhor e recebei…”, pedindo-lhe que disponha de tudo e acrescentando: “Dá-me o teu amor e a tua graça, que isso me basta”(EE 234). É a total disponibilidade de quem tudo espera de Deus[13]. Em Inácio não encontramos nenhuma antinomia entre o agir de Deus e do homem, que se dispõe a receber os dons de Deus e a ação de Deus, quel he concede tais dons.

Sempre o que vem primeiro é a presença radical da graça de Deus. Inácio não se cansa de insistir com o exercitante que, em todo momento dos Exercícios, peça a graça (EE 48) e nos colóquios peça à Virgem que interceda junto ao seu Filho para obter a graça e ao Filho para obtê-la do Pai.  Neste movimento se percebe como só ao Pai pertence conceder a graça: Ele è a fonte primária. E Deus quer conceder estas graças abundantemente. Mas nós devemos nos esforçar:

“Por amor de Deus N.S., esforçamo-nos nele, pois lhe devemos tanto: e muito mais cedo nos cansamos de receber os seus dons do que Ele a dá-los a nós. Agrade a Nossa Senhora interpor-se entre nós pecadores e seu Filho e Senhor e obter-nos a graça que nossos espíritos fracos e tristes possam ser transformados, com nosso fatigoso esforço, em fortes e alegres para seu louvor  (Carta a Inês Pascal – 6 de dezembro de 1524 – Epp I, 71-73).

Essa forte convicção de Inácio se revela também quando ele redige as Constituições da Companhia de Jesus. Ele escreve no Proêmio: “A suave disposição da Providência exige a cooperação das suas criaturas” (Const. 134). E o que vale para todo o corpo da Companhia de Jesus vale ainda para cada um dos seus membros e para todos os que querem ser homens e mulheres espirituais: “É preciso colaborar com engenhosidade e diligência com a graça de Deus”[14].

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

 

[1] EE 24, 48, 55, 65, 91, 104, 139, 152, 193, 203, 221, 233.

[2] Cf. Joseph THOMAS, Le Secret des Jésuites, 98.

[3] Ángel TEJERINA, Deseo, atención y docilidad a las gracias y dones divinos, Miscelánea Comillas 26 (1956)135.

[4] Géza KOVECSES (ed.), Exercícios Espirituais, Porto Alegre 1966, 15, nota 1.

[5] Ángel TEJERINA, Deseo, atención y docilidad a las gracias y dones divinos, 139-140.

[6] Ignacio IPARRAGUIRRE, Armonía sobrenatural de la acción de Dios y del hombre en San Ignacio de Loyola. Estudios Eclesiásticos 30 (1956) 344.

[7] Epp. Ign. I, 339.

[8] Epp. Ign. I, 148.

[9] Epp. Ign. I, 244.

[10] Ignacio IPARRAGUIRRE, Armonía sobrenatural de la acción de Dios y del hombre en San Ignacio de Loyola, 347. Cf. Epp. Ign. IX, 552, 235; VIII, 532; IX, 475; I, 634.

[11] Epp. Ign. IV, 94; IX, 550.

[12] Isso aparece em muitas de suas cartas, como por exemplo, A Juan Luis González de Villasimplez, Epp V,488-489; A Teresa Rejadell, Epp I, 99-107.

[13] Cf. Jacques LEWIS, Conocimiento de los Ejercicios Espirituales de San Ignacio, Sal Terrae, Santander, 108.

[14] Carta aos estudantes jesuítas de Coimbra de 7 de maio de 1547 – Epp I, 495-510.

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