Humildade intelectual

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Geraldo Luiz De Mori, SJ

As grandes perguntas devem ser dirigidas não à luz, mas ao fogo que inflama e transporta tudo” (São Boaventura, Itinerárium mentis in Deum, VII,6).

 

O mês de janeiro de 2026 foi marcado no mundo católico pelo Consistório Extraordinário, realizado entre 7 e 8 de janeiro, e por algumas afirmações que ganharam grande visibilidade na mídia, como a do Cardeal Víctor Manuel Fernándes, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, na abertura da sessão Plenária do Dicastério em 27 de janeiro. Os dois momentos dão sinais importantes do que é o atual caminho eclesial.

No discurso de abertura do Consistório Extraordinário, o Papa Leão, além de lembrar a importância da unidade na Igreja, apontou os quatro temas sobre os quais ele gostaria de escutar os 170 cardeais que se reuniram: a Evangelii gaudium, ou seja, a missão da Igreja no mundo de hoje; a Praedicate Evangelium, isto é, sobretudo o serviço da Santa Sé às Igrejas particulares; o sínodo da sinodalidade, visto como instrumento e estilo de colaboração; a liturgia, como fonte e meta da vida cristã. O Papa afirma que estava no Consistório para escutar, que o aprendizado do sínodo, tanto o da escuta quanto o do comum apreço, ajudam a amar e servir mesmo nas contradições, fazendo com que os esforços comuns da Igreja possam criar sinergias em todas as áreas da missão.

Na conclusão de seu discurso, Leão XIV diz que o que os cardeais viveriam naqueles dias seria a prefiguração do caminho futuro, que, feito de um diálogo entre eles, pudesse oferecer pistas para o futuro. Para se chegar a isso, observa o Pontífice, é necessário que os cardeais escutem a “mente, o coração e o espírito de cada um”, que essa escuta seja mútua, que cada um deles expresse somente o que é o ponto principal.

A jornalista e vaticanista brasileira, Mirticeli Medeiros, afirmou, nos dias que se seguiram ao Consistório, que nele o Papa Leão XIV começava de fato seu governo, com seu estilo próprio. Certamente muitos elementos do estilo no novo Pontífice aparecem no Consistório e no que parece ser o desejo do Papa na forma de governar, escutando, por exemplo, o conjunto dos cardeais e não somente um grupo seleto entre eles, como foi no tempo de Francisco. Isso é corroborado, por exemplo, na convocação do próximo Consistório para junho de 2026. Para além da marca de um novo estilo, o que o Consistório mostrou, sobretudo a partir dos quatro temas abordados, é que a reforma proposta por Francisco continua sendo a dinâmica mais importante a ser implementada.

De fato, como recordou na ocasião o Cardeal Víctor Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, a “releitura” da Evangelii gaudium, texto tido como “projeto de governo” de Francisco, proposta no Consistório, não significa que o que nele foi proposto tenha morrido com o novo pontificado. Como afirma a Exortação com a qual o Papa argentino havia inaugurado seu serviço como Papa, é necessário colocar a “proclamação do kerigma no centro e relançar essa proclamação com renovado ardor no trabalho missionário”. Certamente, observa o Prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé, um novo pontificado inaugura coisas novas, introduzindo mudanças com relação ao anterior, mas o “desafio levantado pela Evangelii gaudium não pode ser enterrado”.

O que chama a atenção na fala do Cardeal, para além desta recordação da centralidade da proclamação do kerygma, é o que ele apresenta logo em seguida, na continuação de seu discurso. Não se trata, diz ele, “de uma proclamação obsessiva de todas as doutrinas e normas da Igreja, por mais necessárias e valiosas que sejam, mas, sobretudo, do núcleo do Evangelho, o kerygma”. Ele lembra ainda o que Bento XVI havia sustentado, a saber, que não se começa a ser cristão com uma doutrina ou uma proposta moral, mas a partir de uma experiência de um encontro decisivo”. Essa reflexão volta de outra maneira no discurso de abertura da Sessão Plenária do Dicastério da Doutrina da Fé, do dia 27 de janeiro de 2026, que é importante relembrar no atual momento eclesial.

Ele começa sua fala chamando à humildade intelectual, sobretudo no que diz respeito à reflexão teológica. Em seguida, ele observa que esta humildade tem que ser suscitada pelo caráter próprio do pensamento humano, que, apesar de capaz de pensar e conhecer, não consegue abarcar o conjunto da realidade, sem sequer, muitas vezes, uma pequena parcela dela. Isso significa, diz o Cardeal Argentino, que “somos incapazes de interpretar todos os significados e matizes de uma realidade, de uma pessoa, de um momento histórico, de uma verdade”. Mais que a arrogância de tudo pretender entender, é preciso cultivar o conhecimento das coisas em suas múltiplas relações. Nesse sentido, quanto “mais avancem a ciência e a tecnologia, mais necessitamos manter viva essa consciência do limite, de nossa necessidade de Deus para não cair num terrível engano, o mesmo que levou aos excessos da inquisição, às guerras mundiais, à Shoá, aos massacres de Gaza, situações que foram justificadas com argumentos falazes”.

Victor Fernández afirma ainda que todo conhecimento necessita, por um lado, da iluminação de Deus, e por outro, da escuta dos demais, acolhendo suas perspectivas, que permitem perceber outros aspectos da realidade graças a outros pontos de vista. Após esta afirmação, ele lembra que se isso é verdade sobre o conhecimento da realidade em geral, é muito mais verdade ainda para as verdades da fé. Nesse contexto, lembrando o papel do Dicastério do qual ele é o atual Prefeito, ele afirma como hoje é mais difícil esse trabalho, pois “em qualquer blog, qualquer pessoa, mesmo não tendo estudado muita teologia, expressa sua opinião e condena como se falasse ex cathedra”.

Esta sua última afirmação teve bastante repercussão nas mídias, pois toca num problema muito atual no contexto da Igreja. Ela lembra algo que muitos estudos sobre as novas mídias digitais têm observado nos últimos tempos. A ortodoxia passou a ser capturada por influenciadores ou gurus que se autoproclamam o novo magistério, não tendo a sabedoria da qual fala o Cardeal, que é justamente a capacidade de perceber que ninguém possui a verdade sozinho, que a verdade, como recorda São Boaventura, no Itinerarium mentis in Deum, citado pelo Prefeito para a Doutrina da Fé, está ao serviço “não da luz, mas do fogo que inflama e transporta tudo”, esse fogo que é Deus e tem seu centro em Jerusalém, onde o Cristo que o acende com o fervor de sua paixão”.

É interessante ter essa advertência e esse convite do Cardeal Argentino no início de 2026, num mundo onde a polarização política, com fundamentação religiosa e muitas vezes “teológica”, coloca-se não ao serviço da paz e do encontro e harmonia, mas de uma guerra de todos contra todos. Nesse sentido, o apelo à humildade intelectual, mais do que nunca, é necessário e urgente, pois coloca o próprio saber, inclusive aquele que se diz inspirado pela revelação divina, na condição necessária para o acesso à verdade, vista não como “pedras” a serem jogadas sobre hereges ou infiéis, mas como convite ao aprendizado com o outro. E o outro, na sua diversidade e unicidade, enriquece o conjunto, faz resplandecer a beleza e a bondade da realidade e o que dela há de verdade.

Geraldo Luiz De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

05/02/26

Foto: Vatican News

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