Geraldo Luiz De Mori, SJ
“E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa” (Mt 6, 4.6.18).
A Igreja católica iniciou, na Quarta-Feira de Cinzas, o tempo da quaresma. Os textos litúrgicos propostos evocam algumas práticas religiosas importantes, não só no judaísmo e no cristianismo, mas também em outras religiões, a saber: a esmola, a oração e o jejum. Nessa ordem aparecem essas três práticas no texto de Mateus prescrito para a liturgia. O texto do profeta Joel, proclamado na primeira leitura, convoca a voltar-se para o Senhor com “jejuns, lágrimas e gemidos”, chamando a um “jejum sagrado”, e insistindo em “rasgar os corações, não as vestes” (Jl 2,12-13.15). Desde 1964, a Igreja católica tem promovido no Brasil, nesse período, as Campanhas da Fraternidade. Para 2026 o tema geral é “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós”.
Dentre as três práticas propostas pela Igreja, a do jejum é prescrita para a Quarta-Feira de Cinzas. Em geral, essa prática é vista como uma prática penitencial. De fato, a privação voluntária de alimentos nesse dia não remete a algum tipo de regime para emagrecer ou a um exame que supõe a não ingestão de alimentos. Ela visa criar um vazio, uma ausência, que afeta aquilo que mantém a vida: o alimento. Esse vazio e ausência são, em geral, vistos, do ponto de vista da fé cristã, como provocadores de um outro tipo de fome, como bem expressa o profeta Amós, “Eis que vêm dias, diz o Senhor Deus, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor” (Am 8,11). Essa fome aparece também no Salmo 42 (41), com o sentido de “anseio” e “sede” de Deus (Sl 42,2-3). Além de provocar esse vazio ou ausência, a ser preenchidos por Deus, a experiência do jejum visa ainda outro tipo de fome e sede: o que leva à solidariedade com os que realmente passam fome ou vivem tantas formas de ausência de algo fundamental na vida, como afirma de modo tão profundo o profeta Isaías: “o jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, que recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que deem roupas aos que não têm e que nunca deixem de socorrer os seus parentes” (Is 58,6).
É interessante, na ordem proposta por Mateus, a primazia da esmola, seguida da oração e concluída com o jejum. No fundo, o que vem primeiro é a capacidade de “compaixão” ou de “misericórdia”, ou seja, de olhar com o olhar do coração a situação do miserável. A esmola é expressão de solidariedade, e ela é o resultado da capacidade de “ter misericórdia” com tantos homens e mulheres caídos à beira do caminho, como narra Jesus na parábola do bom samaritano (Lc 10,37), que, segundo a parábola do juízo final de Mateus, se expressa em alimentar o faminto, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, acolher os estrangeiros, visitar quem está doente e na prisão (Mt 25,37s).
A prioridade da esmola sobre a oração e o jejum, na ordem do evangelho proclamado na Quarta-Feira de Cinzas, tem sido proposta para o conjunto da Igreja a cada ano no Brasil. No fundo, trata-se de uma convicção que se encontra presente na Igreja desde o início, quando Paulo, por exemplo, diz que dentre as três virtudes teologais, a mais importante é a caridade (1Cor 13,13). O mesmo diz Tiago, para quem a “fé sem obras é morta” (Tg 2,14) e Mateus, que afirma que o que salva não é dizer “Senhor, Senhor”, mas “cumprir a vontade do Pai que está no céu” (Mt 7,28). Faz a vontade do Pai quem, como ele, tem “entranhas de misericórdia”, sendo capaz de interromper a caminhada para se debruçar sobre quem está caído à beira do caminho, compadecendo-se, derramando óleo, curando. No fundo, essa é a lição da Campanha da Fraternidade a cada ano quando convida os fiéis a voltarem o olhar sobre uma situação de vulnerabilidade que demanda atenção e faz abrir as mãos na esmola que salva.
A oração sobre a qual fala Jesus no evangelho proposto para começar o tempo da quaresma, é uma oração que deve ultrapassar o desejo de “ser elogiado” pelos que veem a pessoa que está rezando. Trata-se de uma oração a ser feita no “segredo”, ou seja, uma oração desvestida de todo ritualismo vazio ou de toda tendência mágica. É interessante essa crítica embutida no modo como Jesus convida à oração. Não se trata, sem dúvida alguma, de deslegitimar a oração em comum, que, na Igreja católica, é revestida de muitos gestos públicos, como se pode ver nas liturgias que ela celebra. Trata-se de descobrir o que está em jogo em toda oração: o encontro com Aquele que mata o “anseio” e a “sede” de Deus, presente no mais profundo do coração de todo ser humano. Muitas vezes, orações meramente rituais, feitas de repetição de fórmulas sem deixar que elas despertem as nervuras do coração, não despertam para aquilo que é constitutivo na oração cristã: o encontro com o Totalmente Outro, o Deus Trindade, que é amor e quer que na oração cada pessoa possa não só procurá-lo, mas encontrá-lo, deixando-se amar, experimentando o que, na leitura da segunda carta aos Coríntios da liturgia da Quarta-feira de Cinzas, é chamado “deixar-se reconciliar com Deus”, vivendo no “hoje” e no agora da oração o “tempo favorável, o dia da salvação” (2Cor 5,20; 6,2).
Ainda tentando pensar a ordem em que aparece o jejum, é importante observar que seu caráter “penitencial” pode também desencadear não só o ritualismo, mas aquilo de que as três práticas da piedade religiosa são ameaçadas, segundo o texto: a tentativa de achar que o jejum, a oração e a esmola possam criar algum tipo de “mérito”. Já Lutero, durante o tempo da Reforma, brandiu sua forte crítica contra toda tentação de se crer merecedor de qualquer coisa da parte de Deus por algo realizado em seu nome ou para ele. Deus é pura graça e isso se manifesta em sua gratuidade. No fundo, o “não fazer as coisas diante dos homens”, sobre o qual insiste o evangelho, é descobrir em cada prática religiosa que tudo o que fizermos pensando em ser recompensados, no fundo, como diz Jesus, já teve sua recompensa: o elogio pela esmola dada, pela forma como se manifesta a piedade orante ou pelas marcas deixadas pela penitência do jejum. Nada disso salva. O que salva, é aprender de Deus como ser gratuito. E é a isso que deveria conduzir as três práticas penitenciais da quaresma: trata-se de um caminho de aprendizado da gratuidade. Um Deus que se entrega, no dom da vida do Filho, que, por amor, perde a vida para que a humanidade tenha vida plena.
Para ajudar toda a Igreja a redescobrir isso, o lema da Campanha da Fraternidade de 2026 é bastante provocador: “Ele veio morar entre nós”. Esse vir de Deus à condição humana, e não em qualquer condição, mas na condição do servo, como diz Paulo na carta aos filipenses, e, mais ainda, de um servo maldito, pois quem morria na cruz era justamente quem era visto como maldito pela própria lei de Deus, é um apelo a redescobrir a generosidade de Deus. Deus, o infinito em tudo, se esvazia, se torna um como todo humano, e assume a condição dos que mais são desumanizados, para que essa condição seja elevada, ou seja, para que quem sofre por todo tipo de escravidão e humilhação, possa ser reconhecido, apreciado, elevado à glória, como a que o Filho, após sua humilhação, foi elevada, para que frente a ele todo joelho se dobre e proclame que ele é Senhor (Fl 2,6-11). As práticas quaresmais devem levar a viver esse mistério.
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
19/02/2026
