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Justiça: alma da política, exigência da fé

Élio Gasda

A justiça é o princípio ético crucial que define um governante: “Amai a justiça, vós que governais a terra” (Sab 1,1). Sabedoria e justiça são dois lados da mesma moeda. Governante sábio e governante justo se identificam. Teoria e ação estão de mãos dadas: “Justiça e Direito são os pilares do trono de Deus” (Sal 89, 15). Praticar a justiça é cumprir o Direito e governar com sabedoria.

Ser sábio e justo, proclama o profeta, é conhecer a Deus (Jer 22, 16). Portanto, “a justiça é imortal” (Sab 1, 15). O oposto, a injustiça, leva à morte. Pois “em alma perversa a sabedoria não entra” (Sab 1,4). Ou seja, todo governante tem as duas possibilidades de entrar para a história do seu povo: governo sábio e justo, ou governo estúpido e perverso.

De fato, Santo Tomás de Aquino ensinava que cumprir a justiça é o primeiro dever do poder público. A justiça é o princípio que fundamenta o Estado em sua função de distribuir com equidade os bens comuns que garantem a sobrevivência do cidadão: trabalho digno, educação, alimentação, habitação, vestuário, transporte, segurança, saúde. Portanto, o Estado é a mais imprescindível de todas as instituições humanas no cumprimento da justiça.

Mas não apenas o Estado. Para que “o Direito jorre como água abundante e a justiça seja uma torrente inextinguível” (Am 5, 24), todo cidadão, mas principalmente, o cristão, precisa testemunhar a justiça. Em Cristo, “somos livres para a justiça” (Rom 6,20).

Não é possível ser cristão e preterir a justiça. Da justiça se tem fome e sede (Mt 5,6), por ela se é perseguido (Mt 5, 10). A justiça é um conceito em torno do qual se estrutura o Cristianismo. “Cristo, a Sabedoria de Deus para nós, isto é, Justiça, Santidade, Redenção” (1 Cor, 1-30), se identifica com todos os que sofrem injustiça no mundo (Mt 25, 31-46). Praticar a injustiça é ofender a Cristo, Sabedoria de Deus.

Em nossa era da estupidez – marca da injustiça – o cristão é enviado a “buscar em primeiro lugar o reino e a Justiça de Deus” (Mt 6, 33). Evangelizar é isso: testemunhar a fé que se expressa no amor aos irmãos, principalmente aos últimos (Gal 5,6). Não se evangeliza verdadeiramente sem proclamar a justiça, ensina Paulo VI: “A luta pela justiça e a participação na transformação do mundo aparecem como uma dimensão constitutiva da evangelização, que é a missão da Igreja para a redenção da humanidade e sua libertação de toda situação de opressão” (A justiça no mundo).

A justiça é tão central que o contrário, a injustiça, invalida as orações, o culto e as peregrinações: “De que me serve a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo” (Is 1, 11.15-17).

A missão da Igreja não é criar uma nova geração de adoradores. Vigílias intermináveis, adorações ao Santíssimo e jejuns eucarísticos, mensagens de Fátima, procissões suntuosas, casulas pomposas, cálices de ouro, missas em latim, comunhão na mão, “cercos de Jericó”, “missas de cura e libertação” “exorcismos e glossolalias, amuletos, escapulários e tatuagens, túnicas rendadas e indumentária medieval, exércitos de coroinhas, catedrais e templos faraônicos, eventos midiáticos, devoções infantis não impactam nação alguma!

“Quem não pratica a justiça não é de Deus” (1 Jo 3, 10). O cristianismo é uma religião essencialmente ética. Conhecer a Deus não significa praticar um pietismo privado ou saber “comungar santamente”. O compromisso com a justiça é uma exigência que brota da fé. O Reino de Deus somente irrompe onde a justiça é restaurada aos pobres. O amor a Cristo se manifesta no compromisso com o faminto e o sedento, o estrangeiro, o esfarrapado, os presos e os doentes (Mt 25,31-46). Para encontrar-se com Cristo na missa ou culto, o cristão deve encontrá-lo também no pobre que sofre injustiça.

Diz Papa Francisco: “Os cristãos, quando querem ver Jesus em pessoa e tocá-Lo com a mão, sabem aonde dirigir-se: os pobres são sacramento de Cristo, representam a sua pessoa e apontam para Ele” (Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, 2021). Tudo o que conhecemos da Sabedoria de Deus encontramos no homem Jesus de Nazaré, o Cristo. Deus se fez “carne” (João 1,14) e toma a forma de todos os injustiçados pela estupidez e perversidade humana.

Espiritualismos intimistas alienantes são superados somente com a volta ao espírito da Sabedoria: “Praticar a justiça e o direito vale mais ao Senhor que sacrifícios e oferendas’ (Provérbios 21, 3).

Élio Gasda, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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