Memória, Atenção, Esperança

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Geraldo De Mori SJ

Meu pai era um arameu errante” (Dt 26,5). “Vai e faze o mesmo” (Lc 10,37). “Esperamos novos céus e nova terra, onde habitará a justiça” (2Pd 3,13)

 

No número 222 da Evangelii gaudium, o Papa Francisco afirma que “o tempo é superior ao espaço”. Essa afirmação encontra-se na terceira parte da Exortação e é desenvolvida entre os n. 222-226. Junto com outros três princípios, ele procura apresentar o que deveria caracterizar a ação dos cristãos pelo bem comum e a paz social, ou seja, como os discípulos e discípulas de Jesus devem se envolver nos processos de transformação do mundo. Nas comunidades de fé no Brasil, as pastorais sociais são as que buscam, através de inúmeras iniciativas, colocar-se solidariamente junto aos mais pobres e a se engajarem em movimentos populares, que lutam por terra, trabalho e pão.

O sentido do princípio proposto pelo Papa extrapola, porém, o compromisso social, pois recorda algo que é constitutivo do modo bíblico de pensar a existência no mundo. Segundo alguns intérpretes das mentalidades, a filosofia grega é uma das principais responsáveis pela descoberta do espaço, mas a fé bíblica foi a que descobriu o tempo. De fato, a filosofia grega começou com uma atitude importante ligada à visão: a contemplação. Ora, a visão esquadrinha o que está ao seu alcance, e, em grande parte, preocupa-se em estabelecer critérios de medida determinados por aquilo que se entende como espaço. Essa perspectiva é muito distinta do que se vê na bíblia, toda ela marcada pelo apelo à escuta, que põe mais em evidência a audição. E o interessante é que no credo mais antigo de Israel, o povo é chamado a ouvir (Dt 6,4), e o apelo em questão é um convite à memória, ou seja, recordar as maravilhas realizadas por Deus na sua história. Esse apelo à memória será constitutivo da pregação profética, que diante das infidelidades do povo no presente, chama-o à conversão, recordando a ação divina no passado, e prometendo-lhe, no futuro, o castigo, se não se converter, ou a salvação.

A questão do tempo, desvalorizada por muitos filósofos antigos, em parte por causa da sensação de que ele destruía tudo, como mostrava o mito de Chronos, Deus grego que comia seus filhos ao nascerem, ou na expressão “tempus fugit”, para dizer que o tempo foge, é o indício dessa sensação de que o tempo devora tudo, que ele é irreversível. No Eclesiastes, ele é visto como marcador da finitude, nas contraposições: tempo para nascer e para morrer, para plantar e colher, para matar e curar, para destruir e edificar, para chorar e rir, para lamentar e dançar, para espalhar e ajuntar, para abraçar e afastar, para procurar e perder, para guardar e jogar fora, para rasgar e costurar, para calar e falar, para amar e odiar, para a guerra e para a paz (Ecl 3,1-8). Não por acaso, provavelmente, a principal reflexão sobre o tempo feita na antiguidade é de um filósofo/teólogo cristão: santo Agostinho. No livro 11 das Confissões, ele se pergunta: “o que é o tempo?” E sua resposta é curiosa: “Se não me perguntam, eu sei, mas se me perguntam já não sei mais”, ou seja, ele se interroga, talvez pela primeira vez e segundo o modo de raciocinar filosófico, mas já marcado pela tradição bíblica, sobre aquilo que para os gregos parecia não ser tão relevante, preocupados que estavam com a pergunta pela essência das coisas, que de fato eram algo, e por isso mesmo deviam ser pensadas.

A reflexão do bispo de Hipona sobre o tempo é feita de muitas perplexidades. A pergunta sobre o que é implica a pergunta pelo ser, e o tempo, segundo ele, parece não ter ser, pois o que se passou, não é mais, o que ainda não aconteceu, ainda não é, e o que está acontecendo, vai se transformar do que ainda não é para o que não é mais. Essa perplexidade se adensa, pois, segundo ele, muitos dizem que há tempos curtos e longos. Ora, como pode aquilo que parece não ter ser, ser longo ou curto? Onde se encontraria esse tempo longo ou curto? A solução final para algumas das perplexidades encontradas por santo Agostinho na sua reflexão sobre o tempo, será a que afirma que o tempo se encontra na “alma”, como “memória”, correspondendo ao passado, como “esperança”, correspondendo ao futuro, como “atenção”, correspondendo ao presente.

A “solução” agostiniana para as perplexidades levantadas pela reflexão sobre o tempo foi lida pelos filósofos como “psicológica”, pois reconduzia para a “alma”, ou seja, para a subjetividade do sujeito o significado da experiência temporal. Essa “solução” foi retomada por muitos pensadores ao longo da história, dentre os quais, no final do século XX, o filósofo Paul Ricoeur, em uma trilogia denominada Tempo e narrativa. Não é o caso de retomar aqui o conjunto dessa obra monumental, mas é interessante notar como a reflexão do bispo de Hipona norteia a leitura sobre o tempo do filósofo francês.

Ricoeur identifica na reflexão de santo Agostinho três “aporias” sobre o tempo. Uma delas, a que “localiza” na alma o tempo como memória, atenção e esperança, é retomada por ele numa perspectiva mais abrangente, que ele denomina de “hermenêutica da consciência histórica”. Mais que à subjetividade, diz ele, a reflexão de Agostinho deve ser lida para interpretar a existência histórica do ser humano. Essa existência é constituída de um “espaço de experiência”, que corresponde à memória no bispo de Hipona, ou seja, cada geração só é o que é graças às que a precederam. Daí a importância de valorizar a memória, a tradição. É graças às histórias que cada um recebe, tanto da família, quanto da sociedade e da cultura, na qual estão seus valores, ideais e modelos, que cada um é o que é, possui uma identidade. Outro elemento retomado da reflexão do autor das Confissões valorizado por Ricoeur é a esperança, lida por ele à luz da categoria de “horizonte de expectativa” ou de “esperança”. Quando esse horizonte se estreita, diz ele, uma pessoa ou coletividade parece não ter perspectiva de futuro. Esse horizonte não pode nem ser tão indeterminado que “exaspere” quem se coloca diante dele, nem tão estreito que feche todas as possibilidades. O centro da reflexão do filósofo francês é o que em santo Agostinho era a “atenção” e que Ricoeur entende como “iniciativa”. A experiência temporal é o lugar do agir, e toda a ação supõe a capacidade de iniciativa, que faz com que, em cada instante, se encontre sentido para a própria vida, mas se busque, através da iniciativa, abrir sentido para a vida dos outros.

Por que trazer essa reflexão sobre o tempo hoje? O Brasil vive um momento importante de sua história, que pode definir o futuro de sua democracia. Muitas pessoas, incentivadas a não pensar, esquecem o passado, a memória, estreitam seu “espaço de experiência”, deixando-se iludir pelas Fake News, por um pessimismo e eliminando a opinião do outro, do diferente. Isso fecha-lhes a possibilidade do futuro, não só para elas, mas para o conjunto da sociedade, que tem seu “horizonte de expectativa” reduzido. A iniciativa do presente, que se dará através do voto cidadão, é uma possibilidade de agir no presente, com repercussões no futuro. Esse é também o teor da fé cristã, que nos recorda sempre a memória de Jesus, sua vida, morte e ressurreição, deixando-se interpelar para que as decisões e iniciativas do presente possam abrir o futuro ao novo, que é sempre da ordem do “mais de Deus”, que não fecha a porta a ninguém, mas quer que todos possam captar a vida como boa notícia.

 

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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