Memória “revolucionária”, memória “feliz”, memória “agradecida”

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Geraldo De Mori SJ

“Façamos o elogio dos homens ilustres, que são nossos antepassados, em sua linhagem” (Ecl 44,1).

O final de agosto de 2021 é marcado por duas datas que remetem à memória de quatro figuras importantes do catolicismo brasileiro do século XX e início do século XXI: o centenário do nascimento do filósofo jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz (24/08) e os aniversários de morte/páscoa de Dom Hélder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom José Maria Pires, todos ocorridos em um 27 de agosto (1999, 2006, 2019).

O livro do Eclesiástico, no capítulo 44, tece um elogio aos “homens ilustres” da história de Israel, seja pela forma como exerceram o poder em seus domínios, seja pela força e prudência de que gozavam, seja pela habilidade em aconselhar e escrever, seja pelos cantos e poemas que compuseram, seja pela riqueza, força e beleza de que foram dotados (Ecl 40,1-6). Todas essas qualidades, segundo o autor, os tornaram dignos de glória entre as gerações de seu povo e entre os que deles nasceram e os honraram através da memória e do nome (Ecl 4,7-8). O autor recorda ainda os que “não deixaram lembrança alguma”, por terem vivido como “se não tivessem nascido” (Ecl 40,9). A história do povo eleito é marcada por esse dever de memória para com os que, de alguma forma, manifestaram em suas vidas a “glória” divina. O mesmo acontece no Novo Testamento, cujos escritos também nasceram desse dever da “memória”, vista como “memória revolucionária” do Crucificado-Ressuscitado, que, enquanto arauto do Reino, indicou o caminho para uma existência em plenitude para a humanidade, a ser captada como “memória feliz”, cujo reconhecimento se traduz em “memória agradecida”.

Um filme de 2019, The song of names, adaptação do romance de Norman Lebrecht, tem uma cena extraordinária que ajuda a captar a importância da memória no universo judaico e cristão. Dovidl Rappaport, gênio do violino, deixado ainda criança pelo pai numa família de Londres para aperfeiçoar seus dotes musicais, descobre, alguns anos após a guerra, que toda sua família havia perecido no campo de concentração. Sua descoberta se dá numa sinagoga, cujo rabino fazia parte dos sete rabinos encarregados de guardar na memória os nomes de todos os que morreram naquele campo de concentração. A pessoa que o conduz ao rabino lhe diz: “mais que a morte, os judeus temiam não ter ninguém que recordasse seus nomes e por eles realizasse os ritos próprios dos mortos”. O nome, segundo Paul Ricoeur, é a resposta à pergunta “quem?”, que aponta a uma “história de vida” e a um sujeito responsável por sua ação no mundo.

A cultura contemporânea, classificada como pós ou hipermoderna, é dominada pelo presente, com forte tendência a esquecer o passado e a não se preocupar com o futuro. A experiência da velocidade, que marca essa maneira de viver o tempo, não permite que a memória seja cultivada, celebrada, para com ela aprender seus segredos e os dos antepassados, como tão bem captou o mundo bíblico, que descobre no passado razões para esperar e deixar-se surpreender pelas visitas de Deus inaugurando o novo.

Recordar Henrique Cláudio de Lima Vaz, Dom Hélder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom José Maria Pires é, sem dúvida, defrontar-se com “homens ilustres”, como tão bem captou o livro do Eclesiástico. Em que são eles ilustres e por que devem ser trazidos à memória? Quando o saber do passado era transmitido “de geração em geração”, num processo que passava pela mente e pelo coração, ele se inscrevia numa longa tradição, que dava origem a aprendizados, formava identidades e criava convicções, que, por sua vez, se traduziam em novas formas de habitar e agir no mundo.

Infelizmente, um dos frutos da reificação do presente é o esquecimento do passado e a inviabilização do futuro. O negacionismo, presente em tantos grupos no atual contexto internacional e nacional, não afeta somente a ciência e os serviços que têm prestado à humanidade, mas também a relação das sociedades com seu passado, sua memória e tradição, veiculada, como bem diz o Eclesiastes, pelos “homens ilustres”.

No caso do Brasil, recordar Henrique Cláudio de Lima Vaz é resgatar a trajetória de uma das inteligências filosóficas brasileiras mais brilhantes do século XX, que uniu sua imensa capacidade de compreensão dos grandes pensadores do passado a um discernimento acurado do que importava pensar no momento presente. Além de buscar o “universal”, que tanto caracterizou a cultura ocidental desde suas origens, o filósofo mineiro tentou encontrar sua dinâmica no particular da história e da cultura na qual viveu. Como ele disse num de seus textos sobre a Igreja católica pós-Medellín, “a Igreja da América Latina deixou de ser Igreja reflexo para tornar-se Igreja fonte”. Sob muitos pontos de vista, ele mostrou que essa dinâmica, vivida pelos cristãos do período posterior ao Concílio Vaticano II, também era a dinâmica que estava em curso no seio da cultura nacional. Nesse sentido, ele indicou como se relacionar com o passado, com o presente e o futuro: não pela cópia simples do que já foi vivido, mas pelo aprendizado do que no vivido existia de verdade, beleza e bondade, para produzir novas sínteses, que respondessem às novas questões do presente, abrindo-se assim à novidade do futuro.

Por sua vez, a recordação de figuras como Dom Hélder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom José Maria Pires aponta para a memória cristã enquanto capacidade de desinstalar, criar o novo e abrir ao futuro. Com efeito, esses três bispos da Igreja do Brasil, embora formados numa neoescolástica avessa a acolher a novidade da época moderna, deixaram-se fecundar pelas urgências do presente, revisitando o passado e permitindo que ele desentranhasse sua enorme riqueza e capacidade de imaginação de um futuro outro, mais próximo das “dores e angústias, alegrias e esperanças dos homens e mulheres” (GS 1) de seu tempo.

Dom Hélder Câmara, com seu poder de comunicação e atenção às novas questões de um mundo em mudança, participou ativamente da criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que prepararam a Igreja para o Concílio e sua recepção criativa na América Latina e no Brasil, sem contar seu profetismo nos tempos obscuros da ditadura militar. Dom José Maria Pires, com sua abertura ao aprendizado com os mais pobres, ajudou na criação de uma Igreja pobre e servidora dos pobres, participando ativamente na conquista de maior cidadania aos afrodescendentes no meio eclesial. Dom Luciano Mendes de Almeida, com sua inteligência, humildade e capacidade de escuta e diálogo, tornou possíveis consensos no seio do episcopado que contribuíram para fazê-lo avançar num compromisso efetivo com os mais vulneráveis.

O ato de fazer memória, segundo Jean-Baptist Metz, pode ser revolucionário. É o caso da memória da paixão-ressurreição de Jesus, que aponta para a revolução de um amor sem medida, de que o ser humano, habitado por Deus, é capaz e pode contagiar outros. Quando esse ato atinge a verdade, a beleza e a bondade mais exímias do humano, ela pode se tornar uma memória feliz, atingindo, porém, sua plenitude, se gratamente se sabe dada por outrem, como dom, frente ao qual só se pode agradecer.
Oxalá a recordação desses homens “ilustres” de nossa história nos ajude, enquanto brasileiros e brasileiras, a redescobrir a chama que neles fez mudar o mundo e que pode ainda inspirar novas buscas e sínteses, abrindo-nos a um futuro feliz e grato!

Geraldo Luiz De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE