Não olhe para cima

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Elton Vitoriano Ribeiro SJ

Pode a realidade superar a fantasia? Certamente essa pergunta já foi feita por muita gente ao assistir, por exemplo, uma peça de teatro, uma novela ou um filme. Certas situações são classificadas como absurdas ou ridículas e nos levam a pensar: isso nunca poderia acontecer. Esse poderia ser o caso do filme da Netflix Don’t look Up – Não olhe para cima, de dezembro de 2021. Até agora um dos filmes mais vistos da plataforma, Não olhe para cima despertou na internet muita discussão. Classificado como uma comédia pela plataforma, o filme conta a história de dois cientistas que descobrem um cometa vindo rapidamente em direção à terra. Como era de se esperar, eles tentam alertar a humanidade, mas ninguém está muito interessado no que eles dizem.

A discussão em torno do filme, especialmente entre admiradores e detratores, toca em muitos aspectos interessantes. Claro, nestas discussões da internet ninguém chega a nenhum acordo sobre nada, mas produzem muitas perguntas: O filme é uma metáfora das mudanças climáticas que vivemos? É um grito de denúncia da confusão contemporânea? É uma crítica da situação política de muitos países com seus governadores insensíveis? Apresenta a futilidade de muitos programas de televisão que diariamente inundam nossos lares? Mostra explicitamente o negacionismo e a descrença na ciência atual? Reproduz a violência física e verbal das nossas cidades? A verdade é que o filme quer chamar a atenção pelo absurdo e, gostemos ou não dele, ficamos com a estranha sensação de certa familiaridade com tudo o que acontece na tela.

Não vou entrar nessas discussões sobre o filme, seu conteúdo e seu valor cinematográfico. Apenas destaco um ponto dessa comédia satírica que, cheia de ironia e sarcasmo, quer ser (como anunciam no site da plataforma) provocante, excêntrica, irreverente e espirituosa. O ponto é: a política contemporânea está se transformando num espetáculo cada vez mais midiático, preocupado, obsessivamente, com as pesquisas e os likes? Vivemos, politicamente, numa sociedade de espetáculos?

Filosoficamente, a política pode ser compreendida como toda atividade humana orientada para o controle e o uso do poder na organização e no gerenciamento da sociedade. A política relaciona-se com tudo aquilo que diz respeito aos cidadãos, ao governo das cidades, aos negócios públicos, ou seja, todas as relações que os seres humanos como animais políticos vivem em sociedade. As formas de poder político e as condições em que esse poder é exercido, as constituições, os sistemas de governo, a natureza, a validade e a justificação das decisões políticas, todos estes tópicos são objetos de análise da filosofia política. Também, o estudo da natureza, validade e justificação das instituições coercitivas que compõem as sociedades desde as mais elementares como a família até as mais complexas como é o caso do estado nação entram na reflexão sobre a política.

Por exemplo, o filósofo brasileiro Henrique Cláudio de Lima Vaz (Padre Vaz), nos diz que a política “nasce com a tarefa de desvincular o exercício do poder como força ou como violência, assumindo esta tarefa na esfera legitimadora da lei e do direito ”. A partir dessa tarefa, a política deverá buscar um projeto de existência consensual em torno do mais justo que, por definição, será também o melhor para a sociedade. Na argumentação de Padre Vaz: “A arte da política, à luz da virtude intelectual da prudência, empenha-se na difícil e delicada tarefa de conciliar o possível com o melhor”. Essa perspectiva interpreta a tarefa política de forma dialética, articulando tanto a visão grega quanto a moderna. A grega que interpretava a política como uma atividade de caráter moral, como arte da conciliação e do acordo consensual, criando um espaço racional de busca do melhor possível. A compreensão moderna, mais pragmática, onde a política é entendida como lugar da razão calculadora na arte de governar, voltada por sua vez, para a conquista e a conservação do poder.
Neste ano teremos eleições e, por isso mesmo, muita discussão política em todos os âmbitos da nossa sociedade brasileira. E se a nossa política, como o filme sugere, se transformar num grande espetáculo, barulhento e vazio? E se a nossa política for povoada por likes e views das redes sociais, inundadas de haters (odiadores), fofocas e Fake News? E se a discussão perder espaço para a sedução fácil de salvadores autoritários? E se os grandes temas das políticas econômicas, públicas e sociais forem silenciados? E se as reformas, especialmente as que favorecem os mais pobres, forem negligenciadas nos debates? E se não tocarmos na gritante desigualdade social em que vivemos e nos meios para superá-la? E se o espetáculo substituir a discussão séria, sensata e propositiva? Ora, se isso acontecer, talvez o melhor mesmo seja não olhar para cima. Não olhar porque já estaremos embasbacados pela sociedade do curtir, nosso amém digital. Ou, talvez não! Talvez seja ainda tempo de acreditar que a luta continua e que a política é a melhor forma de lutar por uma sociedade mais justa e solidária.

Elton Vitoriano Ribeiro SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE