Não te culpes se te agridem

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Álvaro Mendonça Pimentel SJ

Por que me culpo quando me agridem? Digo, por exemplo: “que mal fiz eu para que ‘X’ me tratasse assim?”. E essa frase oculta outra: “se estou sofrendo, devo ter feito algo de errado”. E quanto maior é a violência, maior pode ser a culpa que, finalmente, me paralisa. Torno-me incapaz de reagir à agressão sofrida e, pouco a pouco, incapaz de agir. Duvido de mim, enquanto me atacam impiedosamente. E essa forma de pensar e de sentir não está somente em mim. Em toda parte, em todas as culturas, nas comunidades que conheço, entre amigos ou autoridades, busca-se o culpado pelo sofrimento. E com escandalosa frequência, cada um de nós experimenta-se culpado pelo mal que a violência do mundo lhe impõe.

Trata-se de culpa imaginária, alertam os especialistas; mas nem por isso menos real para quem a vive. Dizem que brota, por exemplo, das agressões (pequenas ou grandes) sofridas na infância. De fato, a criança não poderia romper com o adulto que a maltrata, pois dele depende para sobreviver. Passa a imaginar-se culpada. Aliás, muitas vezes declaram-na culpada, embora ela mesma não compreenda o que fez, afinal, para receber castigo tão doloroso… Também não possui uma ideia bem definida de seu estado, mas experimenta sentimento confuso de mal-estar consigo mesma. Acostuma-se a submeter-se e conformar-se.

Na idade adulta, a estratégia consistirá em encontrar sentido para a agressão, em transformar a treva e o escândalo em “clareza” e “justiça”, para salvar as relações. “Se algum mal me acontece, a culpa é minha”. E se não chega a dizê-lo com tanta clareza, sente o mal-estar…, duvida de si…, quando atingida pelo mal que se impõe, sem que se saiba porquê. Penso nas inumeráveis vítimas da história, caçadas e assassinadas por sua cor de pele, sua “raça”, sua condição social. Como convém aos algozes que suas vítimas se sintam culpadas pelo mal que padecem!

Tal atitude conduz à paralisia. Quem se culpa não age. Condena-se, aprisiona-se e “desculpa-se” assim por existir. Mata a própria criatividade e sufoca a iniciativa. A vida torna-se um lamento mudo e dolente. E há os que expressam a culpabilidade como julgamento. Deslocam a condenação para fora, para os outros. Ocultam-se na crítica que destrói. “Ninguém me verá, pois não agirei, nunca mais. Ninguém me condenará, pois sou eu o juiz do mundo”. Nos dois casos, a culpabilidade doentia enjaula em solidão a pessoa ferida.

E, no entanto, qual mistério que desafia a lógica, um dia se reacende o desejo de “ir além”. Como se a memória do encontro, outrora perdido, batesse com força à porta do corpo. “Retorna ao mundo real!”. E o corpo estremece de emoção e de temor. Mas como retomar a convivência humana e romper os grilhões invisíveis que nos freiam?

Algo consistente deve chocar-se contra a casca imaginária e quebrá-la. O olhar que não condena cruza o meu olhar, seguido da palavra gratuita e do gesto generoso. Alguém me desconcerta e eu não sei o que dizer. Parecia estar isolado de tudo e, de repente, ouço vozes e percebo um sorriso amigo ao meu lado. O tempo da prisão desembocou na oportunidade do encontro. As águas podres e turvas foram saneadas na pureza abundante da graça. O horizonte se reabriu.

Parto em busca do tempo perdido e o que devo encontrar está em mim, sou eu. Releio a minha história e as fibras do meu ser se concentram. Meu rosto ferve e endurece. Minha postura se endireita. Uma cólera santa toma-me a consciência. “Não deixarei que a agressão me domine novamente”, repito sem cessar. E desejo que os torturados, os violentados, os traídos, os abandonados e os explorados de todos os cantos do mundo recebam a visita da graça que me libertou. Recordo meu ofensor e meus punhos se cerram… Sinto ímpetos de vingança! E este sentimento terrível, que eu jamais pudera admitir, se revelará condição indispensável para alcançar o perdão.

Álvaro Mendonça Pimentel é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE