No princípio, o mistério de comunhão entre Pai e Filho e Espírito Santo!

advanced divider

Frei Sinivaldo Silva Tavares OFM

Como experimentar o mistério da Trindade? É possível compreendê-lo? A escuta de textos sagrados pode ser uma senda para nos aproximarmos desse mistério que nos fascina e nos atrai.

Com pesar, reconhecemos que, não raras vezes, a Trindade Santíssima nos foi apresentada como um enigma sem solução. A palavra mistério soava aos nossos ouvidos como censura a todo tipo de entendimento. Sequer podíamos ousar compreender! Quando, na verdade, mistério nos remete ao ilimitado de toda compreensão e não, como muitos pensam, aos limites do conhecimento. Mistério é aquela realidade que suscita em nós fascínio, nos atrai, e abraçando-nos faz com que nos sintamos sempre mais empapados por sua imensidão. Sentimo-nos atraídos pela beleza do mistério e nunca desistimos de indagar a seu respeito: jamais nos furtamos a perscrutá-lo.

Mistério remete-nos ainda à experiência de uma proximidade deveras paradoxal. Originariamente, mistério se refere àquilo que se sente quando se está recolhido na intimidade da própria casa, desfrutando do gozo oferecido pelo aconchego do lar. O mistério, portanto, não se subtrai ao nosso conhecimento, nem se furta à nossa apreensão, à maneira de uma exclusão arbitrária. Mas, ao contrário, é justamente por sua inusitada proximidade que esta realidade desborda por todos os lados, faltando-nos a suficiente perspectiva para compreendê-la. Não se trata, portanto, de uma deficiência na compreensão, mas, ao contrário, de uma insuficiente e limitada compreensão provocada pelo excesso de inclusão e de proximidade.

Cremos que uma possível senda para a compreensão do mistério da Santíssima Trindade se nos abra a partir da escuta dos textos sagrados de nossa tradição de fé ao narrarem as gestas do Pai e do Filho e do Espírito Santo no sinuoso curso da história da salvação. Ouçamos os textos bíblicos que nos são propostos na Liturgia da solenidade litúrgica da Trindade Santíssima. Atravessa-os a experiência de uma desconcertante “proximidade” que culmina em inaudita “familiaridade”. O texto de Dt 4,32-34.39-40 transmite-nos as seguintes palavras de Moisés dirigidas ao povo: “Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, e investiga de um extremo ao outro dos céus, se houve jamais um acontecimento tão grande, ou se ouviu algo semelhanteExiste, porventura, algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha permanecido vivo? Ou terá jamais algum Deus vindo escolher para si um povo entre as nações, por meio de provações, de sinais e prodígios, por meio de combates, com mão forte e braço estendido, e por meio de grandes terrores, como tudo o que por ti o Senhor vosso Deus fez no Egito, diante de teus próprios olhos? (Dt 4,32-34) A proximidade se revela, em primeiro lugar, como dádiva amorosa do Senhor. É ele, de fato, quem toma a iniciativa de se aproximar de seu povo propondo-lhe uma aliança acalentada e cultivada mediante o gesto singelo e terno de lhe dirigir a palavra em meio às realidades e fenômenos do cotidiano. Oferecida gratuita e generosamente ao povo eleito, esta proximidade se traduz na promessa de vida longa e feliz sobre a terra (cf. Dt 4,40).

Paradigmáticas, neste sentido, as palavras de Paulo ao nos comunicar a boa notícia de que, ao nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Deus, nós nos tornaremos, de fato, filhos do Pai: filhos no Filho na ternura e no vigor do Espírito. Escreve ele: “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de DeusDe fato, vós não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abá – ó Pai!” (Rm 8,14-15). De fato, a efusão do Espírito Santo, dom que Pai e Filho fazem de si, santificando-nos, constitui o evento da máxima proximidade de Deus. Santifica-nos na medida em que, presente na interioridade de cada pessoa, ele se torna mais íntimo nosso que nós mesmos, segundo o testemunho de Agostinho em suas Confissões. A promessa de salvação, bem compreendida, remete-nos à experiência de sermos reconduzidos à comunhão com a vida do próprio Deus. Pois, segundo Paulo: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para nos atestar que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8,16-17a).  Derramado em nossos corações, presente no seio da comunidade eclesial, na interioridade dos processos históricos e nos meandros sutis da trama da criação, o Espírito nos vai conduzindo pelos caminhos de Jesus Cristo “até que Deus se torne tudo em todos” (1 Cor 15,28).

Aqui precisamente reside o sentido profundo do batismo “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (cf. Mt 28,16-20). Pois, de fato, é no batismo que o dom divino se torna promessa conscientemente acolhida e correspondida. É quando, pois, a salvação gratuitamente oferecida se nos revela como autodoação do Deus trino e uno e se exprime na promessa de nossa divinização, da transformação da história e da transfiguração do cosmos. É quando, ainda, através da profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo, os fiéis batizados assumem o compromisso de se deixar conduzir pelo Espírito Santo para serem incorporados a Cristo, tornando-se, para todos os efeitos, corpo de Cristo. Pois, de fato, o Espírito Santo é quem realiza o lento e persistente processo de “conformação a Cristo” em cada fiel, no seio da comunidade eclesial, nos processos históricos e na inteira realidade criada.

Em razão do que dissemos, não há como fugir à seguinte incumbência: indagar acerca das eventuais implicações deste augusto mistério no que diz respeito à concreta maneira de vivermos nossa fé nos dias de hoje. Somos interpelados, portanto, a perscrutar e discernir: os vestígios da Trindade santa na complexa trama da criação; as pegadas do Deus trino e uno nos sulcos profundos de nossa história; a imagem da comunhão trinitária refletida no seio de nossas comunidades eclesiais; os traços indeléveis da Trindade santíssima no rosto de cada pessoa humana.

Diante deste inefável mistério só nos restam, ao final, mudez e silêncio. Mas calamos no fim e não no começo. Só no fim a mudez e o silêncio se revelam dignos e respeitosos. No início, trairiam preguiça e irreverência. Pois como escreve Clarice Lispector: “Só posso alcançar a mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Ah, mas para chegar à mudez, que grande esforço de voz!”.

Frei Sinivaldo Silva Tavares, OFM é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE