O Diálogo pedagógico

advanced divider

Alfredo Sampaio Costa SJ

 Inácio percebeu cedo que, do mesmo modo como Deus conversava com ele e ele com Deus, era preciso também conversar com os outros espiritualmente52

Os primeiros padres atribuíram uma extraordinária força sobrenatural à conversação do fundador, à sua contínua conversação com o Senhor, à sua familiaridade com as três Pessoas divinas: “Em todas as coisas encontrava Deus: nos negócios, nas conversações…”53. Assim que, desde o início o binômio “conversações espirituais-exercícios” parecia resumir na mente de Inácio a sua concepção apostólica. De fato, em uma de suas cartas encontramos um trecho onde ele parece sintetizar a vocação do jesuíta exatamente em termos de uma “conversação”. Lemos: “Conforme nossa vocação, conversamos com todos”54 

Ainda que quando pensamos nos Exercícios, nossa imaginação nos leve a figurar uma experiência de deserto e solidão, na verdade não se trata de modo algum de caminhar sozinhos. A relação entre “o que dá” os Exercícios e o “que os recebe” constitui a experiência pedagógica dos Exercícios por excelência. Ninguém pode crescer se não está disposto a deixar-se ajudar.  

Fazer os Exercícios supõe ser acompanhado por alguém: o adentrar no Mistério de Deus e de si mesmo não se faz sozinhos. Os Exercícios, já notava Javier Meloni55, são concebidos como um “Livro do Professor”56, dando muita importância àquele que acompanha o exercitante.  

O acompanhamento é a chave para uma autêntica mistagogia. A comunicação assídua das moções interiores, que o exercitante experimenta na oração, é essencial para a dinâmica do discernimento. O papel do acompanhante consiste fundamentalmente em duas coisas: propor ao exercitante as pistas para a oração (EE 2) e ser informado fielmente sobre as várias agitações e pensamentos que os diversos espíritos lhe provocam (EE 17).  

Os Exercícios nada mais são do que uma experiência de diálogo, a níveis diversos57 

Em um primeiro nível, trata-se do diálogo entre o autor (Inácio) e seu destinatário (aquele que dá os Exercícios). Através do texto do livro, é o próprio Inácio que quer comunicar sua experiência espiritual e torná-la acessível a outros. O ouvinte ou leitor é chamado a aprender de Inácio como aproximar-se ao Senhor.  

Em um segundo nível, não menos importante e profundo, dá-se o diálogo entre aquele que dá os Exercícios e quem os recebe. Sem esta interação profunda não se pode entender a força da eficácia dos Exercícios.  

Ainda há um terceiro nível, sem dúvida o mais importante e para o qual os outros níveis estão dirigidos: a comunicação entre o exercitante e Deus, entre a criatura e seu Criador e Senhor.  

Os Exercícios, na mente e na prática de Inácio, devem ser “dados e recebidos”: inscrevem-se, portanto, naquela corrente de transmissão da fé. O que se transmite é a experiência e a atitude de fé. O texto dos Exercícios torna-se então um texto vivo e significativo no ato por meio do qual é transmitido de modo vital.  

Portanto, primeiro está o texto dos Exercícios, que recolhe, de algum modo, a experiência do próprio Inácio. Depois há um outro texto: o texto daquele que o transmite, a partir de sua experiência espiritual, mas sempre atento a não interferir nem perturbar o contato direto do exercitante com seu Criador e Senhor. Só a partir deste texto “dado”, “transmitido”, é que surge o texto do exercitante, à medida em que este assimila, integra e amadurece na sua vida a Palavra que vem de Deus e é dirigida a Ele58 

O modelo pedagógico inaciano: sempre dialogal 

Nos documentos corporativos próprios da Companhia de Jesus encontramos o conceito de “Pedagogia” tal como foi recebido da tradição educativa da Companhia, através da “Ratio Studiorum” e a prática educativa centenária. Significa o conjunto dos processos, devidamente regulados que, como um caminho progressivo, planificado e acompanhado, permite aos educadores partilharem com os seus estudantes, por uma parte, a visão, valores e princípios educativos contidos na espiritualidade inaciana e, por outra parte, ajudar a capacitá-los e prepará-los, com excelência, nos conhecimentos necessários para o crescimento humano deles e sua vida em sociedade 59 

A Ratio recolheu esse ideal pedagógico na sua célebre síntese de formar “em virtudes e letras” (Cf. Ratio Studiorum, nn. 1-2).  

Podemos sem dúvida encontrar nos Exercícios os pontos centrais que tradicionalmente se conectam à pedagogia inaciana, a saber: a centralidade da pessoa, o ser protagonista do próprio percurso formativo, a gradualidade do próprio processo, que deve se dar de acordo com os ritmos próprios da pessoa, o papel de acompanhamento do educador60 

Jerônimo Nadal dizia que o desejo era unir a especulação à devoção e à compreensão espiritual61. A “Ratio” não está somente radicada na espiritualidade dos Exercícios (e nas intenções de Inácio), mas é o produto de uma reflexão crítica e partilhada pelos seus membros sobre a experiência pessoal deles de educar62. É fruto de todo um processo por meio do qual os Padres da Companhia de Jesus, fundada há pouco, reconfiguraram naquele sistema cultural os materiais disponíveis a eles, a saber, a didática e as configurações educacionais da época, o chamado “esprit du temps (o “modus parisiense”, a escolástica da Alta Idade Média, as práticas educativas das escolas catedrais, o humanismo do Renascimento)63. Os volumes das práticas e reflexões reunidas na chamada “Monumenta Pedagogica” testemunham exatamente este intenso trabalho de pesquisa de campo e comunicações constantes64 

Como escreve o Padre Kolvenbach, “o sistema educativo da Companhia de Jesus encontra seus fundamentos nos Exercícios Espirituais”65. Esta afirmação do então Padre Geral nos autoriza a ver neles, nas palavras de Schiavone66, a “Protopedagogia inaciana”, o princípio de onde deriva o fundamento sobre o qual se apoia o método educativo jesuítico.  

Assim igualmente entendeu Joseph Thomas no seu célebre livro sugestivamente intitulado “O Segredo dos Jesuítas” onde ele procura encontrar, no próprio texto dos Exercícios, toda indicação capaz de inspirar e orientar uma pedagogia que se propõe objetivos mais vastos do que somente a educação da67 

De fato, a verdade cristã não é uma verdade abstrata, é antes de tudo a pessoa vivente do Senhor Jesus (cf. Jo 14,6), que vive ressuscitado em meio aos seus (cf. Mt 18,20; Lc 24, 13-35). Só pode ser acolhida, compreendida e comunicada ao interno de uma experiência humana integral, pessoal e comunitária, concreta e prática, na qual a consciência da verdade encontre respaldo na autenticidade da vida”68 

O documento das “Características da atividade educativa da Companhia de Jesus”, já no longínquo 1986 afirmava que “a educação inaciana coloca um cuidado particular no desenvolvimento da imaginação, da afetividade e da criatividade de cada estudante. Estas dimensões enriquecem o aprendizado, impedindo que ele seja reduzido aos aspectos puramente intelectuais. Elas são essenciais para a formação integral da pessoa”69. A participação do estudante deve ser também afetiva, envolvendo a sua pessoa em todos os níveis para chegar a decisões e ações sustentadas por motivações convincentes70. 

Daí que o papel da imaginação, das emoções, da vontade e do intelecto ganhem tanta importância no método inaciano. É a pessoa na sua inteireza que deve ser formada71. O objetivo primário, a verdadeira razão dos centros educativos é formar homens e mulheres para os demais, imitando Jesus Cristo, o Filho de Deus, por excelência o homem-para-os-outros. Um dos princípios fundamentais da pedagogia da Companhia de Jesus deriva diretamente da “cura personalis” dos alunos, um amor genuíno e uma atenção pessoal por cada um dos nossos estudantes.  

 

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

 

 

EnglishPortugueseSpanish