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O dom da vocação e a graça da resposta

Geraldo De Mori, SJ

Antes que te formasse no seio de tua mãe, eu te conheci, antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te fiz profeta para as nações” (Jr 1,5)

Desde 1981 a Igreja Católica instituiu o mês de agosto como “mês das vocações”. Cada fim de semana é dedicado a uma vocação específica na Igreja: vida laical, vida religiosa, vocação ao ministério ordenado, ministério da catequese. Essa iniciativa tem despertado no conjunto da Igreja uma maior consciência das diversas “vocações específicas” e dos diferentes ministérios com os quais Deus enriquece sua Igreja. Ela tem também ajudado muitas pessoas a conhecerem melhor o que é específico de cada vocação e ministério, embora, é preciso reconhecer, ainda falte ao conjunto dos fiéis e também em muitas lideranças eclesiais uma maior compreensão de que o “mês das vocações” não deve ser identificado apenas com um despertar para a oração para que Deus envie “operários para sua messe”, que é grande, com poucos “operários”, como se repete na oração que é feita em muitas comunidades de fé ao longo de todo esse mês.

O despertar vocacional na Igreja do Brasil, iniciado em 1981, conta, em 2023, com um estímulo a mais: o ano vocacional, iniciado em 20 de novembro de 2022 e com previsão para terminar em 26 de novembro de 2023, tendo como tema “Vocação: graça e missão” e como lema: “Corações ardentes, pés a caminho” (Lc 24,32-33). Sem dúvida alguma, esse terceiro ano vocacional e os mais de 40 anos de dedicação à oração pelas vocações no mês de agosto contribuíram em muito para se criar a “cultura vocacional” pretendida pela Igreja. Apesar de todos esses esforços, infelizmente, ainda quando se pensa em mês vocacional e em oração pelas vocações, imediatamente vem à mente da maioria dos fiéis, e na de muitos pastores igualmente, a identificação de que se está rezando para pedir a Deus que continue chamando jovens para o ministério ordenado e para a vida religiosa. Depois de quase 50 anos de conclusão do Concílio Vaticano II e sua eclesiologia do “povo de Deus”, que resgata a compreensão da dignidade de todos os fiéis dada pelo batismo, que os torna sacerdotes, profetas e reis, esse modo de entender o que é vocação é um indicativo de que o modelo de Igreja proposto na teologia conciliar ainda não conseguiu criar no conjunto dos fiéis a convicção de que a questão e a cultura vocacional são muito mais amplas do que a do ministério ordenado ou a vida religiosa.

Os primeiros “meses vocacionais” e as atividades a eles relacionadas tinham clareza de que a oração ou o despertar vocacional não dizia respeito apenas à escolha de um estado de vida, de que antes do chamado a uma vocação específica ou a um ministério a exercer na comunidade, cada fiel era vocacionado à vida e, com o batismo, vocacionado a ser filho/a no Filho amado, ou seja, antes de qualquer engajamento havia uma vocação muito mais radical, que era o próprio dom da vida e o dom do ser cristão/ã.

Não se trata aqui de questionar os muitos frutos desses anos todos em termos de maior consciência do que são as diferentes vocações e ministérios. O que sim é preciso questionar é a identificação de vocação apenas com o ministério ordenado e a vida religiosa. No fundo, ao se valorizar tanto essas duas vocações, é como se a Igreja voltasse à eclesiologia anterior ao Concílio Vaticano II, na qual os ministros ordenados eram os “dispensadores” da graça, sobretudo dada nos sacramentos, e os religiosos e religiosas os membros de um pretenso “estado de perfeição”, superior ao dos fiéis comuns. No Concílio essas duas vocações foram reposicionadas no conjunto da Igreja povo de Deus, a primeira sendo vista sobretudo como serviço e a segunda como “sinal escatológico” de que o único necessário era “deixar tudo pelo reino de Deus”. A visão de Igreja que emana do Vaticano II reconduz todos os fiéis ao mais fundamental: a vocação que os torna todos revestidos da mesma dignidade, mas, para além dessa igualdade fundamental, a eclesiologia do Vaticano II recoloca o conjunto da Igreja na atitude que está na origem mesma da revelação na Bíblia. Deus se revela, ou, como diz a Constituição sobre a Divina Revelação, a Dei Verbum, se “autocomunica”, falando a cada ser humano como amigo. E o falar divino é, no fundo, um falar que vai ao fundo do coração, que recorda a cada pessoa que ela é única, amada e chamada a testemunhar com sua vida o amor com o qual Deus a revestiu, ao dar-lhe vida e ao chamá-la à fé. Ao convocar a Igreja a redescobrir tantos tesouros do Concílio, o Papa Francisco a coloca de novo no caminho da escuta dessa voz divina, que continua chamando cada fiel batizado a se Igreja em contínua saída, toda missionária, tornando o reino de Deus de novo presente no mundo.

Esse retorno ao fundamental da vocação à vida e à fé, que é mais do que a vocação específica, sem descuidar do caminho já feito ao longo desses mais de 40 anos, precisa ser continuamente refeito, pois cada geração é chamada a experimentar-se chamada. O acento na necessidade de vocações ao ministério ordenado ou à vida religiosa, corre o risco de reificar uma figura ou modelo de Igreja que certamente não é a que o mundo atual necessita. É verdade que muita gente prefere a segurança de alguns modelos do passado, muitas vezes defendidos como os mais seguros, mas a história da própria Igreja mostra que ao longo dos tempos, os modelos foram se modificando, cada época dando nascimento a uma figura nova, em resposta às novas configurações da sociedade. A volta a um passado pretensamente “seguro” não pode, portanto, ser álibi para não buscar o novo. Jesus, quando anunciava a vinda do reino de Deus, em debate polêmico com os fariseus, dizia que não se pode colocar vinho novo em odres velhos (Mc 2,22). O evangelho é o vinho novo a ser colocado em odres novos em cada nova época da história. Caso contrário, como tem insistido tanto o Papa Francisco, corre-se o risco de transformar a Igreja em museu. Ora, a Igreja deve o tempo todo inspirar-se em seu Senhor, e como ele, continuamente estar em saída. Para redescobrir isso, no caso específico da questão vocacional, mais do que nunca é necessária uma volta à escuta primeira, ou, como diz o livro do Apocalipse, “não esquecer o primeiro amor” (Ap 2,4).

E a escuta primeira é, no fundo, a escuta da Palavra que despertou à fé. O Concílio Vaticano I, na Constituição Dogmática Dei Filius, recorda que essa escuta primeira é um dom, ou seja, o chamado à fé é uma ação do Espírito no coração da liberdade de cada ser humano. Sua escuta é marcada por inúmeros condicionamentos, psicológicos, sociais, culturais. A disponibilidade à resposta é obra no seio da liberdade do próprio Deus, que por seu Espírito prepara e abre o coração para acolher a fé. Muitas vezes para se chegar à fé, a liberdade resiste, luta, como se vê nas histórias de muitos convertidos. Mas, uma vez dado o sim, a vida inteira se tornará um caminho vivo, provavelmente não mais fácil, pois a fé é uma peleja contínua, que supõe o deixar-se conduzir por um outro, que não é o “si mesmo” do próprio fiel, mas Daquele que o chamou por um puro ato de amor e quer que esse ato possa igualmente experimentar-se como puro dom e graça.

Esse terceiro ano vocacional da Igreja do Brasil coincide com o caminho sinodal da Igreja universal. Oxalá a busca de uma “cultura vocacional” se faça dentro da perspectiva desse caminho, que é o da redescoberta da dignidade vocacional de todos/as.

Geraldo De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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