O “envenenamento” das palavras

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Há seis coisas que o Senhor odeia, sete coisas que ele detesta: olhos altivos, língua mentirosa, […], coração que traça planos perversos, […], a testemunha falsa que espalha mentiras e aquele que provoca discórdia entre irmãos” (Pr 6,16-19).

Geraldo De Mori SJ

No voo de retorno da Grécia, no dia 6 de dezembro, perguntado por uma jornalista francesa sobre a razão de ter aceitado tão rapidamente a renúncia do arcebispo de Paris, o papa Francisco surpreendeu mais uma vez pelo gesto e pela resposta. Ao invés de responder à pergunta, ele apontou o microfone para a jornalista e perguntou-lhe se ela sabia o motivo. Ao responder que não, ele disse que tampouco sabia, mas que “quando as fofocas crescem cada vez mais e afetam a reputação de uma pessoa, essa pessoa não pode continuar governando […]. Isso é uma injustiça. Por isso aceitei a demissão […], não sobre o altar da verdade e sim sobre o da hipocrisia”. Não é o caso aqui de comentar a situação que levou o prelado francês a pedir demissão nem a resposta do Pontífice à jornalista, mas de refletir sobre uma situação que se agudizou nos últimos anos, a da disseminação das falsas notícias (Fake News), não só no âmbito social e político, mas também no âmbito da fé, levando à pergunta sobre a possibilidade e a necessidade da verdade nas relações humanas em geral e nas religiosas em particular.

A questão da verdade está presente em todas as culturas, em geral identificada com a busca da sabedoria, embasando a maior parte dos valores éticos e a busca da justiça, que é inerente à condição humana. No âmbito filosófico, que tanto marcou a cultura ocidental, a questão da verdade irrompeu com a própria questão do ser, embora tenha conotações gnosiológicas, éticas e estéticas. O célebre fragmento de Parmênides, segundo o qual “o ser é e não pode não ser”, inaugura uma compreensão ontológica da realidade, que pensa o ser como permanência daquilo que é. Essa visão é tida por muitos pensadores atuais como algo atemporal e ahistórico, sendo por isso questionada. A ela, porém, se pode atribuir o surgimento da razão conceitual, que busca, através da argumentação crítica, estabelecer o que é de fato a realidade, atribuindo valor de verdade e falsidade a certos argumentos. Daí surgiu a primeira filosofia na Grécia antiga, que buscava dizer qual era o fundamento de tudo o que é, sendo denominada “physis”.

Os sofistas, com outro adágio, “o ser humano é a medida de todas as coisas”, tentaram trazer para o âmbito dos valores o mesmo tipo de argumentação aplicado pelos primeiros filósofos ao cosmos. Depararam-se, porém, com a multiplicidade de opiniões, que levavam à relativização do que se compreendia como ser humano e como valor. Sócrates e Platão, partindo da razão dialógica, vão chegar à necessidade de se pressupor as ideias de verdade, bondade e beleza do ser, condição de possibilidade de todo argumento que expressa realmente o amor à sabedoria. A filosofia posterior vai transformar a verdade, a beleza e a bondade em “transcendentais” do ser, ou seja, é possível distinguir a verdade da falsidade, a beleza da feiura, a bondade da maldade. Grande parte da história das sociedades ocidentais é construída sobre essa convicção.

Para o mundo bíblico também a questão da verdade é crucial. Ela dá origem a uma leitura fundamentalmente ética do conjunto da existência do povo eleito. Isso já aparece nos relatos com os quais o conjunto do texto bíblico se inaugura: o Gênesis. É interessante notar que no primeiro relato, que tem origem na tradição sacerdotal, a dimensão ética e estética são de imediato postas sobre o conjunto do cosmos e da vida que emerge do poder da Palavra. Após cada obra da criação, o narrador diz “E Deus viu que era bom”. Em geral, a maioria das línguas traduzem essa apreciação divina somente do ponto de vista ético, mas, segundo os conhecedores da língua bíblica, o termo que diz bondade é o mesmo que diz beleza. Ou seja, o conjunto da obra criada pela Palavra é belo e bom. Sobre a obra do sexto dia, o ser humano, o narrador observa “e Deus viu que era muito bom”. A leitura canônica, que toma o texto bíblico tal qual é disponível ao leitor, apresenta no capítulo seguinte a criação de Adão do barro e do sopro divino, e o plantio de um jardim, no qual é cultivado todo tipo de árvore frutífera, agradável ao olhar e saborosa ao paladar. Ao colocar o ser humano nesse jardim, Deus lhe diz que ele pode comer dos frutos de todas as árvores, exceto de uma, a do conhecimento do bem e do mal. Aqui, de modo explícito, a questão ética é inserida, com uma lei que é condição de possibilidade da própria liberdade. Por isso, ela não deve ser entendida como interdição, mas como adesão a um projeto divino, figurado na harmonia entre Adão e os demais seres que vivem no jardim, entre ele e a “ajuda” que Deus lhe deu, entre ambos e Deus. A deturpação da palavra divina pela serpente levou à leitura da lei como interdito que impedia a liberdade de realizar-se como obediência ao projeto divino. Jesus, identifica a serpente de Gn 3 com Satanás, a quem chama de “homicida desde o princípio”, “pai de mentira”, “pois nele não há verdade”; “quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio (Jo 8,44). A mentira é vista como fonte do pecado, e produz a divisão entre homem e mulher, o ser humano e a terra, os humanos e o próprio Deus.

Uma das maiores questões da humanidade, colocada na boca de Pilatos no julgamento de Jesus, “o que é a verdade?” (Jo 18,38), merece ser relida por cada geração, sobretudo pelos que se dizem cristãos/ãs. No mesmo evangelho joanino Jesus se diz “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6). Ora, a verdade cristã não se impõe pela força. Ela não se identifica com a “verdade” do “mundo”, entendida no sentido joanino, ou seja, como aquilo que se opõe a Deus. Ela aparece de modo emblemático naquele que assumiu de modo mais radical o projeto original de Deus para a humanidade, figurado no início das Escrituras pelo Jardim do Éden como lugar de harmonia, comunhão, realização plena de todas as potencialidades humanas e de toda a criação. A resposta à pergunta de Pilatos é dada na cruz enquanto sinal de entrega até o dom da vida por amor à humanidade e por fidelidade ao Pai. Nesse sentido, associar Jesus e a fé cristã à “verdade do mundo” é corromper a ideia de verdade da fé. Negar a noção de verdade é abrir o mundo a todo tipo de perversões, como o atestam todas as culturas e a história do pensamento filosófico inaugurado com os que intuíram pela primeira vez que o “ser é e não pode não ser”, que ele se manifesta como verdade, beleza e bondade, e se expressa no dom de si de uma liberdade totalmente disponível Àquele de quem provinha.

A mentira não é apenas o oposto da verdade, e ela não só nega a realidade do mundo em tantas expressões de conhecimento, produção de todo tipo de artefato, desde os mais elaborados pela ciência e pela técnica, aos mais simples do uso cotidiano, mas também o que torna uma vida eticamente autêntica, que é a vida baseada em princípios e valores que mostram o outro, em sua pluralidade e diversidade, sempre como fim e nunca como um meio, como tão bem expressou Kant, na Crítica da razão prática. Ao negar a verdade ou ao “envenená-la”, como expressou, de outra maneira, o Papa aos jornalistas, sobre o caso do Arcebispo de Paris, a mentira, em todas as suas tonalidades, nega, no fundo, a própria humanidade enquanto digna de valor e possuidora de uma dignidade inalienável. Muitos dos conflitos pelos quais passa a sociedade atual são, no fundo, fruto do desprestígio da noção de verdade nos muitos campos do saber científico, relacional, comunicacional, que transforma aquilo que é digno de conhecimento, valor, crença, objeto de suspeita, desprestígio, inviabilizando, dessa forma, a convivência civilizada e, no caso das comunidades de fé, toda comunhão.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE