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O mundo está desmoronando (Papa Francisco)

Élio Gasda

Tudo bem?? Não está tudo bem! Tudo na paz? Menos ainda! O mundo “está desmoronando e talvez se aproximando de um ponto de ruptura” (Papa Francisco, Laudate Deum, 2). Ninguém pode dizer que não foi avisado. Imagens chocantes são parte do cotidiano.

Quem lucra com as bombas em Gaza, as ditaduras e golpes militares na África, a fumaça na Amazônia? Uma minoria sedenta de dinheiro, muito dinheiro. Uma elite poderosa com poder de decisão sem precedentes. Quanto mais desequilíbrios sociais e ambientais, mais dinheiro.

Donos do mundo em guerra contra a natureza. Um único rico polui mais que 66 pobres. 77 milhões poluem mais do que 5 bilhões de pessoas. 100 empresas são responsáveis por 70% das emissões de globais de carbono (OXFAM. Igualdade Climática, 2023).

Amazônia tem a pior seca em 102 anos. O desmatamento no Cerrado em um ano alcançou 11.011,7 km² (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe), superior à área perdida na Amazônia que teve destruição de 9,001 km². Considerado a savana com maior biodiversidade do planeta, o Cerrado é fundamental para o equilíbrio hidrológico do País.

Os últimos oito anos foram os mais quentes, a concentração dos principais gases de efeito estufa superou a pior marca. A Europa teve seu verão mais quente. No Brasil, altas temperaturas batem recordes consecutivos. Seca, inundações, ciclones em sequência, desertificação, aumento do nível do mar, derretimento das calotas polares.

Teremos uma COP do petróleo? Um “escândalo absoluto” (The Guardian). No dia 1º de dezembro, inicia a COP28 nos Emirados Árabes Unidos. A Conferência Mundial sobre o Clima será liderada pelo presidente da Empresa Nacional de Petróleo de Abu-Dhabi, a maior do país. O clamor da terra e o grito dos pobres não são ouvidos, pois, “um sistema econômico centrado no deus dinheiro precisa saquear a natureza para sustentar o ritmo frenético de consumo. Quem mais sofre são os humildes. Já tão vulneráveis economicamente, diante de um desastre natural, perdem tudo” (Papa Francisco).

Para os donos do poder, as guerras valem a pena. Quem lucra a cada míssil disparado contra hospitais, ambulâncias e refugiados? Enquanto o mundo assiste, Wall Street comemora. Em 2022, os Estados Unidos, que controla 40% das exportações globais de armas, é o maior fornecedor de armas para Israel.

Israel, um país menor que o estado de Sergipe, é um dos dez maiores exportadores de armas do mundo. E registra aumento recorde de vendas. “Israel vende armas garantindo que seu equipamento é “testado em combate”, “testado em campo” (Loewenstein. The Palestine Laboratory, 2023). Ou seja, Israel está testando novas armas em Gaza. Mulheres e crianças são, há muito tempo, os principais alvos. Mais de 70% da população de Gaza são de refugiados. Para eles há dois destinos: ser refugiado ou cadáver.

Se guerras são uma mina de ouro para a indústria bélica, a paz é sua maior ameaça. De fato, “há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Fabricam e vendem armas. Assim, o cálculo da economia que sacrifica o homem aos pés do ídolo do dinheiro, fica saneado. Não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, nos deslocamentos forçados, nas moradias destruídas, não se pensa em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor” (Papa Francisco).

Horror é horror. Mas o horror ganha proporções incalculáveis quando pessoas comuns defendem e incentivam publicamente a matança de inocentes, de crianças. Papa Francisco, já em 2014, denunciava que “dentro desta terceira guerra mundial em parcelas, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar” (I Encontro Mundial de Movimentos Populares). Grandes genocídios só foram ‘reconhecidos’ pela elite do poder depois que aconteceram. Mas “um dia se fará história do sofrimento palestino e ela será um monumento à indignidade e covardia dos povos” (José Saramago). Um a cada três refugiados no mundo é palestino. “A história está do lado dos oprimidos, todo colonialismo está fadado ao fim” (Ilan Pappé, historiador israelense).

O que deve ser e o que pode ser feito? Não há um outro caminho a seguir? Continuaremos conformados e subservientes às elites do poder? “Para que preservar um poder que será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e necessário fazê-lo?” (Laudate Deum, 60).

Todos os silêncios diante da violência são atos de cumplicidade. Aceitaremos a brutalidade como definidora de nossa condição de seres humanos? Está em jogo os rumos do que chamamos “civilização”.

Esperança ou capitulação. Um desafio à altura das gerações que lutam há décadas e das novas que estão chegando talvez seja a criação de um movimento civil global de solidariedade, resistência e reivindicação. Há também um processo de globalização da Palestina: 29 de novembro é Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino.

O pessimismo da razão deve ser combinado com o otimismo da vontade e da coragem: “Chegou a hora de travar essa locomotiva descontrolada que nos está conduzindo ao abismo. Ainda estamos a tempo” (IV Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 2021).

 

Élio Gasda, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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