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O pai da mentira

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ele é homicida desde o princípio […] mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44)

Geraldo De Mori SJ

No dia 30 de outubro, com o segundo turno das eleições para o governo de alguns estados e para a presidência do país, o Brasil conhece o desfecho de uma época marcada por muita polarização, que dividiu a sociedade, com repercussões nas famílias, entre amigos, nos bairros e no seio das próprias comunidades de fé. Embora já presente no linguajar das diversas mídias, a expressão inglesa “fake News” foi difundida em todos os meios e instituições, sendo quase que preferida, talvez pela força que tem por ser estrangeira, à expressão “falsas notícias”, ou ao termo mais banal para dizer o mesmo que é o de “mentira”. Apesar de já presente em pleitos anteriores, o recurso à mentira (= “fake News”) para fins eleitorais não só cresceu exponencialmente, mas parece ter se “naturalizado”, como se fosse normal e correto usar desse recurso para convencer o eleitor de que o oponente fez, disse ou fará algo que não fez, não disse e não prometeu. Muitos dados são manipulados, “dourando a pílula” ou simplesmente ignorando a realidade, aproveitando-se da ausência ou da pouca informação de muitos eleitores/as.

O recurso à mentira para enganar, persuadir e criar divisões é muito antigo e não se reduz ao âmbito da política. Nas Sagradas Escrituras, segundo um dos relatos mais antigos que tentam explicar a origem do mal no mundo, a figura da serpente, no capítulo 3 do Gênesis, já mostra como esse animal, “o mais astuto de todos os animais selvagens”, busca enganar a mulher perguntando-lhe se era verdade que Deus tinha proibido o primeiro casal de comer dos frutos das árvores do jardim do Éden (Gn 3,1). A mulher desmente a serpente, dizendo-lhe que Deus só os tinha proibido de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A serpente introduz então a suspeita contra Deus, dizendo à mulher que ele não queria que o casal original comesse dessa árvore porque eles seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal (Gn 3,4-5). Trata-se, portanto, não só de mentir, ao dizer que Deus tinha proibido de comer dos frutos das árvores do jardim, mas de colocar a dúvida sobre a Palavra de Deus, fazendo-a dizer o que não dizia, levando daí o casal original à transgressão do mandamento, que, na interpretação posterior feita sobre esse episódio, é identificada com o pecado original.

O episódio de Gn 3 é retomado em todos os evangelhos sinópticos, no episódio das tentações de Jesus (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13) para mostrar como é possível desmascarar a mentira daquele que o evangelho de João chama de “pai da mentira” e “homicida desde o início” (Jo 8,44). Segundo as narrativas de Mateus e Lucas, a primeira tentação é ao redor da comida, como em Gn 3. O diabo tenta Jesus dizendo-lhe: “se és filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães”. Jesus responde-lhe com uma citação da Escritura: “não só de pão vive o homem, mas de toda palavra da boca de Deus”. Em seguida, em Mateus, Jesus é tentado a saltar do pináculo do templo, e para isso satanás cita um texto bíblico, enquanto em Lucas ele é levado a um alto monte do qual contempla todo o mundo, sendo tentado a dominar o mundo em troca de adorar o maligno. A inversão dessas tentações está em função da teologia dos dois evangelhos, mas o mais importante a observar no episódio é que o diabo recorre à Palavra de Deus para tentar Jesus, que, por sua vez, responde citando-a: “não tentarás o Senhor teu Deus”, para a tentação de saltar do alto do templo, ou “adorarás somente o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto”, para o apelo a possuir o mundo, adorando a satanás.

Manipular a Palavra divina não é algo recente, uma vez que, segundo o texto joanino acima citado, “desde o início” o “pai da mentira” o tem feito, como também seus seguidores. Porém, os discípulos e discípulas de Jesus, a exemplo daquele que seguem e adoram como Mestre, Messias, Senhor e Deus, já possuem meios para “desmascarar” o tentador, que na bíblia também é identificado como aquele que provoca a divisão. Esses meios são dados pelos critérios apresentados por Jesus nesse episódio das tentações: não fazer do alimento (= tentação de ter) o absoluto, não fazer do sucesso (= pular do pináculo do templo, que é a autorreferencialidade) o critério do próprio juízo, não fazer do desejo de poder (= adorar satanás dominando o mundo) a referência para a organização da própria existência e a organização social e política. Portanto, quem se diz cristão/ã não pode compactuar com a mentira nem com sua expressão mais recorrente no atual momento da vida política brasileira, as “fake News”.

Infelizmente, grupos fortemente articulados com uma vertente que se diz católica, mas que nega as principais orientações da Igreja desde o concílio Vaticano II, têm semeado a dúvida e a divisão no meio católico nos últimos anos. Muitos católicos de boa vontade, sem se darem conta, até contribuem com esses grupos, seja com recursos financeiros, seja compartilhando os conteúdos que eles têm disseminado nas diversas redes pretensamente católicas e cristãs, mas que são mais disseminadoras da divisão e do ódio. Um desses grupos, capitaneado por Bernardo Küster, postou nesta semana um documentário chamado “Eles estão no meio de nós”, com a intensão de criar uma verdadeira “cruzada” contra a teologia da libertação e os que a encarnam.  Várias pessoas, que seriam representantes dessa teologia, são denunciadas como heréticas, porque estariam atentando contra a “pureza” da fé da Igreja católica no país.

Amar os pobres, defender seus direitos, é simplesmente identificado pela ideologia subjacente a esse discurso de ódio como “comunismo”. Curiosamente, Dom Hélder Câmara, no belo discurso que fez na Missa dos Quilombos, ao dirigir-se à Mãe de Deus (Mariama), já fala disso numa época em que, de fato, os regimes comunistas representavam no ambiente ideológico mundial, uma alternativa aos regimes liberais. Segundo ele, vão dizer que a opção pelos pobres, o compromisso com os injustiçados da terra é, da parte dos fiéis, “comunismo”. E o antigo arcebispo de Olinda e Recife diz, “não, Mariama, é evangelho vivo de Jesus Cristo”. Os que denunciam católicos comprometidos com as causas dos movimentos populares que lutam pela justiça apoiam um pretenso messias que os utiliza para seus fins, que, na verdade, já mostraram que não são os de construção de uma sociedade mais justa, que respeita os direitos dos mais vulneráveis, nem defende o futuro da vida no planeta, protegendo a casa comum.

Jesus, no sermão da montanha, diz que “pelos frutos se pode conhecer a árvore”. Por isso, observa ele, “uma árvore boa não pode produzir frutos maus, nem uma árvore má produzir frutos bons” (Mt 7,18-20). Para descobrir se os discursos políticos e religiosos utilizados no atual momento político e religioso do país são verdadeiros ou mentirosos (fake News), esse critério de Jesus é fundamental. Quem prega a violência, dissemina o ódio, recorre à mentira para atingir seus fins, inclusive a divisão no seio das comunidades de fé, não segue nem princípios éticos nem princípios religiosos, não ajudando a construir um “nós” coletivo respeitoso das diferenças e que busca a justiça e a solidariedade, nem um “nós” de fraternidade e sororidade que vê no outro um irmão e uma irmã, que, mais que inimigo, é “companheiro de viagem”, como diz o Papa Francisco na Fratelli tutti, ao erigir o Bom Samaritano como modelo da busca da amizade social e da fraternidade, que contribui para a construção de um mundo mais humano.

 

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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