O percurso sinuoso do termo “mística”

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Alfredo Sampaio Costa, SJ

Neste mês de fevereiro, queremos oferecer algumas considerações sobre uma obra muito importante para a espiritualidade inaciana. Trata-se do trabalho de Carlos Domínguez Morano, intitulado “Mística y Psicoanálisis. El lugar del otro en los místicos de Occidente”. Madrid: Editorial Trotta 2020. Serão 3 textos, apresentamos nas semanas sucessivas.

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Vivemos hoje um redespertar e uma explosão de experiências espirituais que se autodenominam como “místicas”. Mas o que justificaria essa atribuição a tais estados de ânimo? Ao nos colocarmos esta questão, experimentamos um grande embaraço. Queremos, com a ajuda de Carlos Domínguez Morano, enfrentar de frente essa dificuldade, sem nos subtrairmos aos incômodos que ela nos traz.

Domínguez Morano explica que, pelo fato de implicar de modo muito direto as dimensões menos conscientes de nosso psiquismo e pela grande variedade de fenômenos que costumam ser enquadrados dentro do que chamamos “mística”, resulta bastante problemático eliminar a “infinita confusão” que o termo encerra e, portanto, encontrar uma definição que dê conta com toda precisão desse tipo de experiência (já apontava Martín Velasco na sua importante obra Mística e Humanismo. Madrid: Editorial Trotta. 2007, 53-54). Tudo isso apesar (e talvez, devido a isso) pela ingente bibliografia que se tem multiplicado há um século em inumeráveis monografias, edições de textos, estudos comparados etc.

Morano nos chama a atenção para o fato de que o fenômeno místico apresenta 2 vertentes, uma interior e outra exterior. A vertente exterior do fenômeno místico, aquela visível, pode sim ser objeto de observação e análise. Mas a vertente interior, a não-visível, por ser subjetiva e irrepetível, escapa por completo à observação e análise.

Ora, diante dessa dificuldade, comum a outros estados internos, poderíamos nos limitar a estudar sua dimensão exterior (isto é, o que diziam os místicos, o que se supõe que sentiam, que coisas lhes passavam, o que tinham em comum e o que de distinto…). Mas, evidentemente, este modo de aproximação correria sempre o perigo de favorecer um reducionismo simplificador, assim como nos limitar aos aspectos mais anedóticos do fenômeno, deixando escapar entre os dedos o essencial de tal experiência.

Se corajosamente nos dispormos a nos colocar a pergunta: como enfrentar esse lado interno essencial ao fenômeno? Domínguez Morano nos chama a evocarmos nada mais nada menos que Santo Agostinho, que se colocava uma problemática análoga àquela que nos deparamos, a propósito do tempo: “O que é o tempo?”, ele se perguntava. “Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quero explicar àquele que me pergunta, não o sei” (Agostinho, Confissões livro XII).

Algo análogo acontece com todo aspecto da subjetividade: seja ele o amor, a compaixão, a inspiração artística, a própria consciência. Se pedimos a alguém para explicar o que entende com estes termos, colocamos a pessoa em apuros. Mas certamente ela poderá narrar experiências belíssimas de amar, ter tido compaixão etc.

Após tais conclusões, Domínguez Morano elabora uma frase lapidar:

 

A essência intangível desses estados só pode entendê-la quem a experimentou. Quem não amou não tem ideia do que seja o amor, do mesmo modo que um cego não pode se imaginar o que seja ver. E se isso é assim, tanto mais ainda no caso da experiência mística, na qual, nos seus estados mais elevados e paradigmáticos, poucos são os que estão e podem dar alguma conta deles.  

 

Ao tratar da mística, então, conviria atender à advertência de Wittgenstein: “Do que não se pode falar, melhor calar-se” (Wittgenstein, Tractatus Logico Philosophicus, Madrid: Alianza1973, 202). Mas, como bem afirma Pablo Mella, esse “calar-se” de Wittgenstein não se refere a uma referência cética ou ao gesto deprimido de uma derrota existencial sobre nossas possibilidades de entender as coisas mais complicadas, mas sim justamente ao espaço de uma experiência de horizonte existencial que ele não duvida de chamar, não só por coincidência, de “místico”. “Sentir o mundo como um todo limitado é o místico”. “Existe, certamente, o inexpressável. O que se mostra a si mesmo: isto é o místico” (Wittgenstein, Idem,203).

Wittgenstein associa esta esfera do místico com a consciência do mundo como totalidade e, como consequência, com a consciência dos limites do mundo em que vivemos nossa existência. “Do que não se pode falar é melhor se calar”, afirma Wittgenstein na sua célebre frase, assumindo um limite ao pensamento. Mas, como o próprio Wittgenstein reconhece, não se pode colocar um limite ao pensamento, mas sim “à expressão dos pensamentos. Porque para traçar um limite ao pensamento, teríamos que ser capazes de pensar o que não se pode pensar” (Ibid, 31). O que seria impossível. E é precisamente “o que fica do outro lado”, o que nos situa no campo do místico, “o inexprimível”. O que “se mostra” a si mesmo que iremos experimentar na experiência mística.

Como bem refere Pablo Mella, comentando a Wittgenstein, o “falar” sobre o místico tem a ver com uma necessidade vital que nasce do encontro com o mundo como totalidade limitada e da intuição de um “exterior abissal” que abraça esse mundo limitado de “fatos” (Pablo Mella, “Esto no es una pipa. Mística e estúdios de la religión en América Latina. Uma perspectiva liberadora”, em: A. Alonso, América Latina y el Caribe. Territorios religiosos y desafios para el diálogo, Buenos Aires: Clacso 2008, 372).

Na mesma direção Olegario González de Cardedal afirma que em Wittgenstein coexiste uma teologia negativa ou apofática (já que o inexprimível que existe nos transborda) e, ao mesmo tempo, a afirmação desse Inexprimível que se mostra a nós (cf. González de Cardedal, Cristianismo y mística. Madrid: Editorial Trotta 2015, 137-138).

Essa é a experiência dos místicos e de cada um de nós diante do que experimentamos. É algo “sempre maior”, que nos ultrapassa, mas que não podemos desistir de exprimir, ainda que seja com palavras limitadas e insuficientes para dar conta do que experimentamos.

Prossegue Morano, tratando agora da própria etimologia do termo. A própria etimologia do termo “mística” remete diretamente a uma certa obscuridade, ao mistérico. Procedendo do verbo “myo” que significa “fechar”, aplicado aos olhos ou aos lábios, guarda conexões estreitas com o termo “mistério”, com o qual vai cada vez mais se identificando. Por isso mesmo, na Antiguidade greco-latina, o termo foi utilizado para se referir às religiões mistéricas (ta mystika) contrapostas ao cristianismo. Só a partir do século III o termo entra nos âmbitos do pensamento cristão. Mas nunca perdeu essa referência ao oculto, ao escondido e ao misterioso que se esconde na sua própria etimologia.

Se nos atemos à sua acepção mais vulgar, sabemos que o termo “mística” se utiliza para se referir a toda uma gama de significações que vão desde o irreal, o extramundano, o vago e difuso até o fantasmagórico, o parapsicológico ou, inclusive o psicodélico.  Quando recebemos pessoas no acompanhamento espiritual e nos narram suas experiências, precisamos estar bem atentos para identificar do que elas estão falando, que noção têm do que seja uma autêntica experiência mística. Tarefa exigente que requer preparo, experiência e cuidado por parte de quem escuta.

No momento de delimitar o campo do místico, tampouco obtemos uma grande clarificação se acudimos às definições do termo nos dicionários, mesmo se especializados.

Esta imprecisão é ainda maior se nos atemos ao uso que se faz do termo na atualidade. Não é raro encontrar a expressão “mística” para se referir ao dinamismo afetivo ou ao compromisso entusiasta do qual é necessário dispor para levar a cabo uma empresa ou projeto de qualquer ordem que seja: política, social, ou inclusive desportiva. Falamos assim de “mística do partido”, ou da “mística” necessária de uma equipe para ganhar uma competição.

Em definitivo, tal como afirma Claude Tresmontant, o termo “mística” resulta um dos mais confusos, podendo chegar a significar qualquer coisa “desde que seja irracional, obscura, pré-lógica, afetiva e, além do mais, possua, se possível, algumas manifestações psicossomáticas raras, algo de neurose ou de psicose” (Claude Tresmontant, La mística Cristiana y el porvenir del hombre. Barcelona: Herder 1980, 7).

Assim, o caráter polissêmico e ambíguo caracteriza o “místico”, facilmente associado pelos demais a uma suspeita de perturbação mental. Se o termo é assim, não devemos estranhar que os estudiosos do fenômeno místico também tenham encontrado uma grande dificuldade para delimitar com um mínimo de precisão o campo de que se ocupam.

(Prosseguiremos no próximo texto a nossa reflexão, tratando da diversidade de definições do fenômeno místico).

Alfredo Sampaio Costa, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

12/02/2026

Foto: Shutterstock

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