O ser humano como vocação

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Geraldo de Mori SJ

“Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” Gn 12,1)

A Igreja católica do Brasil dedica o mês de agosto à oração pelas vocações: ao ministério ordenado, à vida familiar, à vida religiosa, aos ministérios leigos, ao ministério da catequese. Essa diversidade de vocações pelas quais se reza durante o mês, esconde, porém, algo que é mais originário e nem sempre levado em conta: a vocação a ser cristão. A ausência de uma reflexão sobre essa vocação originária pode conduzir a pensar as diferentes vocações na Igreja como algo meramente funcional, que diz o que é específico de cada uma delas, mas não concerne o conjunto dos fiéis e a Igreja como tal. O ser chamado a exercer um serviço na Igreja está inscrito em algo que diz respeito a uma relação fundamental, que é constitutiva do ser humano e de sua relação com Deus.

Durante muito tempo, ao se falar em vocação na Igreja, pensava-se nos que nela exerciam algum serviço ou função. Identificava-se ainda esse termo com a vocação à vida religiosa. Com o concílio Vaticano II resgatou-se a vocação fundamental, comum a todos os fiéis, que é a vocação cristã. Também se colocou em evidência que essa vocação era precedida por uma vocação ainda mais elementar, a vocação à vida. Por sua vez, do ponto de vista secular, com o avanço do processo de modernização da sociedade, o termo vocação passou a designar a habilidade ou inclinação a um tipo determinado de profissão, dando origem aos famosos testes vocacionais, que existem até os dias atuais.

A identificação de vocação com o exercício de uma tarefa ou serviço ou com a inclinação ou habilidade a um tipo de profissão foi então relida pelo Vaticano II numa perspectiva muito mais ampla, que tem suas origens na própria história do povo de Deus no Antigo Testamento, encontrando no Novo Testamento um significado à luz de Cristo. Um dos lugares comuns a partir dos quais se relê essa perspectiva é o da vocação de Abraão, tal qual o livro do Gênesis a descreve a partir do capítulo 12. Trata-se, segundo a dinâmica do conjunto da narrativa desse livro, de um chamado a deixar a terra e a casa paterna para ir rumo a uma terra que lhe seria dada por Deus, na qual o patriarca do povo eleito teria uma descendência, que seria fonte de bênção para todas as famílias da terra. Percebe-se no texto que dá início ao ciclo de Abraão, que Deus chama uma pessoa particular e a incumbe de uma missão, que beneficiaria toda a humanidade. Esse modelo se repetirá em quase todos os grandes personagens da bíblia hebraica, como Moisés e todos os profetas. O chamado sempre está em função de uma missão, o que pode levar a pensar que a identificação que se dá na Igreja entre vocação e função, serviço, missão seja o sentido mais importante do termo vocação. Porém, há algo ainda mais profundo e radical, inscrito na própria ideia de vocação e que precisa ser redescoberto e valorizado.

De fato, a ideia de vocação já está inscrita na criação do ser humano segundo os dois relatos de criação do livro do Gênesis. No primeiro relato, após uma “deliberação”, há um “plural divino” que ordena a criação do ser humano à sua imagem e semelhança (Gn 1,26). No segundo relato, Deus “modela” o ser humano com a argila do solo e insufla em suas narinas o hálito de vida e o ser humano se torna um ser vivente” (Gn 2,7). Muitos exegetas apontam para a originalidade desses dois mitos de criação do ser humano comparados com os mitos de criação de outras culturas. Esses dois mitos, dizem eles, o da criação pela palavra (primeiro mito) ou da argila com insuflação (segundo mito) estabelecem uma “separação” entre Deus e o ser humano, separação que marca uma diferença radical, pois Deus é o criador e o ser humano criatura. A “imagem e a semelhança” e o “hálito vital” seriam, no ser humano, sua “capacidade” de se relacionar com Deus, de escutar seu chamado, uma vez que o ser humano foi criado em função da aliança. No próprio ato de criação, portanto, o ser humano seria habilitado à escuta de um chamado, e esse chamado, mais que para uma função ou uma missão, é o de ser o povo da aliança, como aparece no conjunto da história de Israel no Antigo Testamento.

O Novo Testamento não propõe nenhum mito de criação do ser humano, mas apresenta Jesus como o humano plenamente realizado segundo o desejo de Deus. A carta aos Hebreus traz uma afirmação muito importante a esse respeito, que indica bem o significado mais profundo e radical do termo vocação à luz do evento Cristo. Segundo Hb 5,8, “embora sendo Filho, Cristo aprendeu, pela obediência o que significa ser filho”. O termo obediência não é muito apreciado na cultura contemporânea, porque é identificado com submissão. Porém, a raiz grega do termo, recolhida em sua riqueza pelo latim, remete a escutar. Obedecer no texto em questão significa saber escutar e assentir ao chamado de Deus. No fundo, esse texto remete a um outro, dos capítulos 2 e 3 de Gênesis, nos quais Deus, após criar o jardim de Éden e confiá-lo a Adão, lhe dá uma lei, a de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,16-17). Diante da provação, o casal primordial sucumbiu à tentação, apesar de se recordar da palavra divina (Gn 3,1-7), ou seja, sua escuta não foi até o fundo do apelo divino, que não queria cercear sua liberdade com a lei, mas mostrar-lhe que em toda relação há uma diferença que precisa ser salvaguardada. Jesus é aquele que vive isso radicalmente.

A vocação mais radical, portanto, é a de aprender, pela escuta, a ser filho/a. E a escuta se dá através de um chamado, que demanda a liberdade, para que dê seu assentimento. Esse é o caminho cristão, ouvir o chamado a ser filho/a no Filho, ou seja, Jesus é aquele que inaugurou o “caminho novo e vivo”, através do “véu” de sua humanidade (Hb 10,20). Esse caminho começa com o batismo e o tornar-se cristão, ou seja, o realizar-se desta vocação, acontece durante toda a vida, na qual, pela “obediência”, ou seja, pela escuta do chamado divino nos corações, através do Espírito, cada pessoa vai se conformando à liberdade do Filho. Antes, portanto, de assumir um serviço, função ou missão, cada batizado/a deve responder à vocação de ser filho, filha.

O dar-se conta dessa vocação fundamental à qual cada cristão/ã é chamado/a, é muito importante na Igreja, pois a tendência a identificar a vocação somente com o exercício de uma tarefa ou de um ministério, ou com uma condição de vida, impede o conjunto dos fiéis a perceber que, antes de qualquer serviço ou estado de vida, há um chamado a fazer a experiência de ser filho/a no Filho, segundo a força do Espírito Santo. Esse chamado, por sua vez, mais original, não se realiza somente pelo fato de alguém ter sido batizado. A vocação cristã é um caminho a ser percorrido. O aprender a ser filho/a não é automático. Não se dá somente por um gesto ritual ou pela simples repetição da profissão de fé ou pela repetição de práticas de piedade. É um aprendizado que demanda toda a vida e supõe uma capacidade enorme de escuta da voz do Espírito que fala no espírito de cada batizado/a, indicando-lhe como deixar-se conformar ao Cristo para alcançar sua estatura (Ef 4,13). Supõe a travessia por todas as etapas da vida, com suas tentações e apelos ao salto que torna cada um/a imitador de Cristo (1Cor 11,1).

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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