Os pressupostos antropológicos do discernimento inaciano

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Neste mês de julho, seguimos tratando de temas inacianos que nos ajudem a penetrar cada vez mais na experiência espiritual de Santo Inácio de Loyola, neste Ano Inaciano celebrativo dos 500 anos da conversão de Santo Inácio. Certamente quando se fala deste santo, não podemos deixar de tocar o tema do Discernimento espiritual. Inácio foi se dando conta dos movimentos interiores que o moviam em diversas direções e, à medida que ia avançando na vida espiritual, foi aprendendo a discernir quem é que falava dentro dele e para onde o movia e, assim, também a como reagir a esses movimentos internos. Cada semana procuraremos ilustrar um aspecto importante do discernimento espiritual. Nesta primeira semana, trataremos dos pressupostos antropológicos do discernimento.

De onde podemos partir ao considerarmos o ser humano na sua natureza antropológica? Dentre os vários possíveis pontos de partida, José García de Castro, no seu livro que tem o intrigante título de “Un Dios emergente” (1) , parte da afirmação fundamental do homem como um ser aberto, que só pode compreender a si mesmo a partir de chaves externas, em referência contínua a outras fontes de sentido que o precedem. Ser um ser aberto implica a presença permanente de uma alteridade para além de mim mesmo à qual tal abertura é referida. Portanto, falar em abertura é afirmar a alteridade. É, pois, nessa perspectiva que vamos nos colocar para nos aproximarmos a esse tema.

Tal abertura encontra a sua justificativa em duas qualidades que se apresentam ao homem/mulher pelo simples fato de serem humanos: a primeira é a sua condição de seres sociais, o seu ser-com-os-outros e em meio-aos-outros. O Concílio Vaticano II percebeu a importância disso quando afirmou, na Gaudium et Spes 12, que “o homem é, de fato, em razão da sua própria natureza, um ser social, não pode viver nem explicar as suas qualidades sem se relacionar com os outros”.

É tão importante afirmar essa relação comunitária e social do ser humano num tema como o discernimento espiritual, pois não são poucos os que pensam que quando se trata de lançar-se a um discernimento, trata-se de um assunto “privado” entre a pessoa e Deus, onde os outros, a humanidade, a sociedade, a Igreja nada têm a contribuir e não têm direito a interferir nessa relação intimista.

A segunda qualidade que dá significado à abertura radical do homem é a sua tendência, a sua inclinação na sua abertura ao transcendente. Já afirmava Edith Stein: “A pergunta por Deus, a busca por Deus, pertence à essência do homem”(2).

Detenhamo-nos um momento sobre os dois polos desta relação: Deus e o homem/mulher (humanidade). Perguntemo-nos antes de mais nada como são constituídos, o que podem ter em comum que possibilite um encontro entre os dois(3). Dois aspectos nos parecem ser os fundamentais: em primeiro lugar, a maneira de ser de ambos, definida pelo seu caráter correlativo; e depois, em segundo lugar, o tipo de relação que eles podem estabelecer.

Deus, uma vez que é Trino, é um ser em relação, onde cada Pessoa se encontra sempre em uma absoluta disposição, em atitude de permanente abertura. O homem, da sua parte, é um ser aberto ao Sentido último, necessitado de ser fundado e encontrar o seu significado em Alguém fora de si mesmo. Inácio de Loyola era um homem apaixonado pela Santíssima Trindade, como podemos ver nos fragmentos do seu Diário Espiritual que chegaram até nós. É exatamente essa experiência espiritual de contato vivo e fecundo com as Pessoas divinas que faz com que ele se descubra como um ser interpelado constantemente pelo Divino. Simon Decloux comenta a convicção profunda que Inácio tinha de que “o coração humano é habitado por uma presença, de que uma palavra pode ser escutada, que Deus pode se fazer perceber e entender”(4) .

Portanto, Deus e o homem partilham um dado ontológico importante para o nosso tema: ambos vivem um modo de ser aberto na sua definição mais profunda. Dizer “abertos” quer dizer afirmar a possibilidade de viver um encontro verdadeiro com o outro, porque de nada serviria manter a condição de ser-aberto-para se não acontecesse nunca o conhecimento do outro para o qual eu sou radicalmente aberto no meu ser mais.

Esta característica partilhada pelos dois é manifestada por dois dados da Revelação fundamentais para nós: a Criação e a Encarnação.

Pela Criação, o homem aparece como o interlocutor privilegiado de Deus. O homem dá significado ao caráter aberto de Deus, faz com que a radical abertura de Deus não seja frustrada. Na mesma Criação aparece já como possível e provável o encontro Deus-homem. Deus e homem aparecem ali como respectivos! A abertura radical do homem é para Deus! O homem porque ser criado é um ser atraído para Deus e Deus enquanto Criador é um ser que atrai a Si. Deus deve ser acessível ao homem de modo que possa ser alcançado por ele na sua experiência do cotidiano, porque seria absurdo pensar que faz parte do desejo de Deus entrar em relação com o homem e afirmar, ao mesmo tempo, que Deus mesmo coloca condições tamanhas que acabam por impossibilitar tal encontro.

A Encarnação nos mostra de modo evidente que Deus soube e quis favorecer tal encontro com o homem em âmbitos muito próximos ao homem mesmo. Em Jesus, a possibilidade de encontro entre Deus e o homem se realizou plenamente, porque nunca o Sentido último se mostrou tão radicalmente aberto e absolutamente disponível no tempo como em Jesus. E nunca o homem se reconheceu tão enraizado no Sentido e habitado por Ele como na vida de Jesus de Nazaré. Nunca acabaremos de compreender a importância da Encarnação para uma vida espiritual autêntica!

Esta consideração é importante para entender o que pode acontecer quando dizemos que Deus se comunica em modo imediato ao homem. É próprio de Deus permanecer continuamente acessível ao homem. É próprio do homem o poder abrir-se à comunicação com Deus como sua vocação última e fundamental, e desejar permanecer ali. Portanto, que Deus e o homem se encontrem é algo de conceitualmente lógico e existencialmente provável e desejável, uma vez que em ambos tanto a abertura radical como a afinidade deles pela semelhança facilitam o encontro.

Para nossa consideração: Como temos vivido nossa relação com os outros e com o Senhor? Estamos crescendo na nossa abertura e temos alimentado essas relações? Levamos em consideração suficientemente a dimensão social, política, eclesial e comunitária quando buscamos a vontade de Deus?

1- José García DE CASTRO VALDÉS, El Dios Emergente. Sobre la “consolación sin causa”. Mensajero /Sal Terrae, Santander /Bilbao 2001, 15.
2- Edith STEIN, La estructura de la persona humana, BAC, Madrid 1998, 56.
3- José García DE CASTRO VALDÉS, El Dios Emergente, 18.
4- Simon DECLOUX, “Il discernimento spirituale”, in AA.VV, Lo Spirito della Compagnia, una sintesi. CIS, Roma 1978, 75.

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE