Os sentidos: “portas” e “janelas” de acesso à beleza, bondade e verdade do mundo (1)

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Geraldo De Mori SJ

“Deus viu tudo o que havia feito. Eis que era muito belo” (Gn 1,31)

O ser humano tem acesso ao mundo através dos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato, os quais, por sua vez, estão na origem das noções de beleza, verdade e bondade. Cada um desses sentidos torna possível certa percepção da realidade. Os olhos, por meio do nervo ótico, captam a luz e suas tonalidades, responsáveis pela percepção das cores. Através deles se estabelece a noção de espaço, definida pelas percepções de altura e profundidade, proximidade e distanciamento, grandeza e pequenez. Eles também auxiliam na formação da noção do tempo, pois permitem distinguir os vários momentos em que o sol, com a luz, faz seu percurso, dando origem ao dia e à noite, primeiras marcas cósmicas que introduzem na experiência temporal. Os ouvidos, através do nervo auditivo, permitem distinguir os sons, que dão origem às sensações de ruído e silêncio, permitindo grande parte da comunicação humana e sua capacidade de interpelação. As narinas, por meio do nervo olfatório, criam as sensações do bom ou do mal odor, que, associadas ao nervo glossofaríngeo, estabelecem as distintas sensações do paladar, que permitem apreciar o que é saboroso e o que é asqueroso. A pele, por fim, disseminada por todo o corpo, está na origem das várias sensações do tato: frio e calor, dor e prazer, maciez e dureza.

Beleza ou feiura, bondade ou maldade, que, respectivamente, são noções da estética e da ética, passam, então, inicialmente pelas “portas” e “janelas” dos sentidos. Certamente os critérios para julgar se algo é bonito ou bom são distintos em cada tempo e lugar, mas a busca da perfeição estética, que caracteriza o itinerário de tantos artistas, dos que apreciam suas obras e dos que percebem os traços da beleza na natureza, é constitutiva do ser humano. O mesmo se pode dizer, com mais agudeza ainda, da busca por adequar-se a valores tidos como expressão da plenitude do humano, como a justiça, a honestidade, a responsabilidade, a liberdade, o respeito, a solidariedade, a tolerância, que são expressões de excelência ética ou moral. Quem diz que algo é belo ou bom tece um juízo estético ou ético sobre determinado objeto, realidade, acontecimento ou ação. Os sentidos são a mediação de elaboração dessas noções, mas sua formulação se dá na linguagem, que elabora padrões e normas que, por sua vez, influenciam o modo de os sentidos captarem o mundo. Na formação desses padrões intervém a noção de verdade, que se torna critério de medida do que a inteligência estabelece como beleza e bondade.

Portanto, tudo o que o ser humano capta através das sensações e busca traduzir na linguagem diz algo do mundo e é qualificado como belo, bom e verdadeiro, ou, ao contrário, como feio, mau e falso, ou ainda, como mais ou menos próximo de uma dessas possibilidades. É possível situar-se fora dessas apreciações suscitadas pelas sensações, ou seja, colocar-se aquém ou além dos padrões da estética, da ética e da noção de verdade? Nem todas as culturas produziram afirmações fortes sobre o “ser” das coisas, mas em todas elas existe uma capacidade de admiração, de distinguir o bem do mal, de defender a própria opinião como correta ou distingui-la do erro. Certamente a crítica feita nas últimas décadas ao chamado “pensamento forte”, construído como “grande narrativa”, responsável pelo domínio e subjugação de culturas e povos, e do mundo da vida, é necessária e saudável, pois abriu espaços para que muitos grupos desprezados pudessem ser reconhecidos não só em seus direitos, mas também nas narrativas pelas quais eles captam o que é belo, lutam pelo que é bom e defendem o que é certo. Foi importante desconstruir a pretensão dos modelos hegemônicos de domínio sobre os distintos âmbitos da vida, mas esse processo não pode pôr em questão noções fundamentais pelas quais o mundo é captado, apreciado, valorado e conhecido. Nesse sentido, as pretensas defesas de uma “pós-verdade”, pode, na verdade, levar à guerra de todos contra todos, onde quem tem mais força pretenderá subjugar os demais.

Se o mundo nos é acessível através dos sentidos, talvez, para bem apreciar o que cada pessoa, em sua unicidade, ou cada grupo, em sua particularidade, tem de beleza, bondade e verdade, seja interessante reler o poema da criação de Gn 1,1-2,4a. Dentre as particularidades desse poema, duas se sobressaem, que podem apontar um caminho para viver em sociedades plurais e fragmentadas sem considerar o outro, o diferente, como ameaça ou como inimigo: o modo como cada obra é apreciada e o que ela desperta no Criador quando é finalizada. De fato, após ter concluído cada obra, o narrador observa: “e Deus viu que era bom/belo”, seguido, quase sempre, de “e Deus abençoou”. Segundo os exegetas, o termo “bom”, em hebraico, corresponde também ao termo “belo”. Isso é instrutivo, pois mostra que a ética e a estética não se opõem na obra da criação. Pelo contrário, vistas em sua bondade e beleza, suscitam a bênção. Em hebraico, o termo bênção tem origem numa palavra que significa ajoelhar, abençoar, exaltar, agradecer, felicitar, saudar. No grego possui também o sentido de dádiva/dom.

Ser capaz de captar a beleza e a bondade no mundo, discernindo nelas elementos da verdade que conduz à bênção, eis um caminho para ser reaprendido no atual momento pelo qual passa o conjunto da civilização e também a sociedade brasileira. As inseguranças provocadas pela ausência de uma narrativa “forte”, que ofereça referências sobre o que é a beleza, a bondade e a verdade do mundo, levaram muitos grupos a elegerem sua própria narrativa como a única referência de acesso a tudo, demonizando as demais, ou criando “falsas narrativas” sobre os grupos tidos como inimigos, numa clara demonstração de incapacidade de apreciá-los como belos, bons, verdadeiros, dignos de serem objeto de bênção, pois enriquecem toda a humanidade. Quando os grupos sociais elegem a polarização e as “fake News” como estratégia para manterem-se no poder ou buscam, pela mentira, desviar o significado do que realmente conta, mais que produzirem um “nós” que acolhe a diversidade e a riqueza das diferenças, propõem a violência da própria narrativa como única verdade do que é belo e bom no mundo. No atual contexto, em geral, essa via única é a dos que detêm o poder econômico, esses 1% da população que detém mais de 50% de toda a riqueza do mundo. Mais que deixar-se obnubilar pelos que servilmente se inclinam aos interesses dessa minoria, o caminho da bênção deve mover os que são maioria a acolherem as diferenças que a constituem, tornando-se capazes de um diálogo que relance a construção do “nós”.

1- Esse texto dá continuidade ao que foi publicado no dia 19/08/2021: Sim à beleza, à verdade e à bondade.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE