Os traços característicos da Inacianidade: uma espiritualidade de discernimento

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Alfredo Sampaio Costa SJ

A grande descoberta do leigo Inácio é que, dentro de si mesmo, existiam forças ou vetores que puxavam de sua vida, umas para as coisas de Deus, outras afastando-o delas: umas vezes de maneira clara, outras de maneira mais obscura. Inácio leigo é o grande mestre de Psicologia e de espiritualidade, que se forma na pura e profunda observação pessoal tida em momentos críticos da vida: ele estava às portas da morte, como consequência do ferimento provocado pela bala de canhão. Essa crise o faz reagir de maneira inovadora.

Aqui bate um traço importante da inacianidade e no qual tem um papel importantíssimo, o que chamamos sujeito: a decisão, o ânimo para coisas grandes, o caráter, a aptidão, a idoneidade. Esse sujeito é engendrado a partir de qualidades, mas, sobretudo de experiências que fazem aprofundar no humano e no divino que há dentro de nós. O sujeito vai consequentemente se formando (1).

A pessoa inaciana é aquela que é apaixonada, como o próprio Jesus, pela vontade de Deus. A vontade do Pai tem definitivamente a ver com o Reino e o que isso realmente significa: um projeto do Deus Pai-Mãe para com a humanidade, que implica em justiça, dignidade, direitos, respeito pela terra. Mas isso implica num diálogo constante com Deus e com a humanidade, daí a importância também do discernimento comunitário, na promoção do Reino.

O inaciano, inaciana, é aquele que pôde levar a sério sua vida; é aquele que conseguiu ir dando nomes a seus acontecimentos interiores e ir compreendendo-os, para não se deixar subjugar por eles. Não há possibilidade de que uma verdadeira pessoa inaciana se desconheça, na sua profundidade. Discernir vai ser algo conatural para quem viver a inacianidade, mas para isso deve conhecer-se e aprender a manejar sua própria humanidade.

Neste esforço de introspecção – necessário e requisito sine qua non – vai poder ser detectado o que Inácio tanto acaricia: os desejos, que são as forças que emanam do que há de melhor em nós e onde haverá a possibilidade de se encaixarem perfeitamente os desejos de Deus, os umbrais do Reino. Para isso será necessário saber distinguir “os pensamentos passados”, os desejos de superfície, dos “santos desejos” (Autob. 10), assim também como umas coisas “o deleitavam muito”, mas logo “se encontrasse seco e descontente” (Autob. 8), passado algum tempo, como o aprendeu Inácio.

“Até que uma vez se lhe abriram um pouco os olhos, e começou a maravilhar-se desta diversidade e refletir sobre ela. Colheu então, por experiência, que de uns pensamentos ficava triste e de outros alegre. Assim veio pouco a pouco a conhecer a diversidade dos espíritos que o moviam, um do demônio e outro de Deus”. (Autob. 8).

Toda a Autobiografia de Inácio mostra o caminho por onde ele adquiriu a prática do discernimento que depois plasmou nos Exercícios.

A pessoa inaciana conhece e sabe manejar as regras do discernimento, porque as praticou nos Exercícios, na sua oração habitual e em seu exame diário. Com essas regras, pode ir detectando, em primeiro lugar, o que verdadeiramente experimenta, mas sobretudo, “para onde o levam” essas vivências que podem se dar dentro do coração, mas também, no mundo exterior, na história. Esta regra básica de discernimento encontra, no que denominamos os quatro pés da mesa do banquete do Reino, os critérios certos de discernimento: se algo que experimentamos – dentro ou fora de nós mesmos – nos leva às obras de justiça solidária (Mt 25, 31ss), se nos conduz à experiência de um Deus que é pura misericórdia e que nos convida a ser assim, misericordiosos (Lc 6, 36), se por causa destas duas características o mundo não nos compreende ou nos persegue – às vezes até sob risco de vida – e sentimos, contudo, força para enfrentá-lo (Mc 8, 34 e paralelos); se – finalmente – esses movimentos (internos ou externos) nos convidam a cuidar de nós próprios, com a dedicação com que atendemos às pessoas necessitadas (Mt 19, 19), estes quatro rumos nos estão indicando claramente que aquilo que experimentamos tem Deus como origem e proveniência (2).

A pessoa inaciana terá compreendido, por experiência própria, a necessidade de aprender a concretizar as moções (3) e, por outro lado, de impedir que as tretas (4) tomem forma e realidade. O inaciano, a inaciana terão entendido que discernir é optar. Tudo que vai se manifestando em seu interior ou no exterior, se vem de Deus, são impulsos e convites para que se vá realizando o Reino. Compreendeu e sabe empregar as “regras para, de alguma maneira, sentir e conhecer as várias moções que acontecem na alma: as boas para acolher e as más para repelir…” (EE 313). Fez do discernimento uma atitude vital que lhe permite discernir “en caliente”, quer dizer, no momento mesmo em que as coisas estão acontecendo, ou no momento em que as está examinando, justamente porque se tornou uma pessoa contemplativa na ação e na ação do Reino.

Por último, a pessoa inaciana conhece a necessidade do confronto para o discernimento. Sabe que toda moção (interna ou histórica) tem, como objetivo, tornar o Reino possível. Portanto tem que haver alguma pessoa com “densidade eclesial” que o confronte sobre a idoneidade e adequação do que pensa ou experimenta, com os projetos do Reino. Quanto mais envergadura tiver uma moção e maior for sua transcendência político-social, mais necessidade terá de confrontá-la. Por outro lado, o inaciano, a inaciana aprenderá, como o próprio Inácio, que a recorrência em pedir confirmação do próprio Senhor está na essência do discernimento. Todo seu Diário Espiritual está cheio desta necessidade de “re-confirmação” por parte de Deus:

“Em seguida, ao preparar o altar e ao paramentar-me, vinham-me estas palavras: ‘Pai eterno, confirmai-me! Filho eterno, confirmai-me! Espírito Santo eterno, confirmai-me! Meu Deus, que sois um só Deus, confirmai-me!’ Com tanto ímpeto e devoção e lágrimas, e tantas vezes o dizia e internamente tanto o sentia …. ” (Diário Espiritual, 48).

A grande confirmação, contudo, é, por um lado, em que medida as coisas discernidas demarcaram o Reino e, por outro, em que medida todo este esforço – divino e humano – gerou em nós mais humanidade nova.

Itinerário e modo de detectar a inacianidade

Enfatizando tudo que foi visto antes, poderíamos concluir dizendo que a pessoa com inacianidade pode ser encontrada em uma instituição da Companhia de Jesus, em um colégio, em uma universidade, em uma paróquia, mas também pode ser descoberta em alguns Exercícios Espirituais acompanhados. Todos e todas elas terão os traços acima enumerados, mesmo que de maneira incipiente. Uma vez que nós, os jesuítas, nunca promovemos “devoção” por Santo Inácio, certamente os que revelarem inacianidade terão que ter tido aproximação com obras de jesuítas ou de outras pessoas inacianas, para ter captado algo de nosso fundador.

Quando alguém, com esse tipo de traços – embora fossem em semente – quisesse começar um caminho inaciano deveriam estruturar para ele uma rota bem definida. Estou convencido de que um conhecimento pessoal muito bom, lidando com sua própria humanidade, é requisito humano essencial (5). Mas esta pessoa, além disso, ou deve estar em um trabalho comprometido ou, pelo menos, vibrar – e tratar de estar articulada organicamente – com trabalhos de envergadura, onde a opção pela vida – em todos os seus aspectos – e pelos pobres e necessitados, seja o eixo. Tem que estar em contato com as coisas da maior glória de Deus, e ali mostrar apaixonamento pelo Reino. A personalidade inaciana tem que ser também promotora de “corpo” – que para Inácio é a experiência da comunidade -. Isto se pode ir concretizando numa CVX, em um grupo de trabalho, apoiando uma instituição com o carisma inaciano. Por assim dizer, o inaciano, a inaciana, não é uma personalidade isolada.

Com todos esses “sinais” haveria ainda que se detectar o desejo de uma experiência forte de oração, concomitante (antes ou depois) com uma experiência profunda com a dor do mundo, com as situações de injustiça, com a busca de melhores estruturas do mundo e com pessoas que sejam sinal de nova humanidade.

Julgamos conveniente que esta pessoa passe por uma oficina de discernimento e comece por experiências de Exercícios compactos (6), se isso é possível, ou de Exercícios na Vida Corrente (EVC), sendo, porém, muito fiéis a eles e com momentos de vivência concentrada. Seria bom que conhecessem uma biografia de Inácio. A de Tellechea parece-nos muito bem sucedida – embora prolixa – e, além disso, concebida com a liberdade de ser escrita por alguém que não é jesuíta (7).

Muito ajudaria, para a explicitação da inacianidade, a relação também com jesuítas. A nós, naquilo que nos toca, a amizade com leigos, com mulheres, com os pobres nos ensina a ser melhores jesuítas (8).

Com tudo que foi apresentado, não resta senão reafirmar o que foi implicitamente expresso: só na medida em que a Companhia não se sinta a única herdeira de Inácio, e na medida que esta espiritualidade inaciana brote no mundo leigo, estaria se manifestando, em plenitude, o dom que Deus deu a sua Igreja e a seu povo na figura de Inácio de Loyola (9).

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisdor no departamento de Teologia da FAJE

Notas

(1) Sujeito é uma palavra muito inaciana, mas de difícil tradução. Não é apenas “capacidade”, já que precisamente o próprio Inácio se contrapõe a isto (EE 18). Implica também em decisão, ânimo para coisas grandes. Caráter, aptidão e idoneidade, são a maneira como Arzibialde traduz esta palavra. Cfr. ARZUBIALDE, Santiago. Ejercicios Espirituales de S. Ignacio: Historia y análisis. Mensajero-Sal Terrae, Bilbao- Santander 1991, p. 29.

(2) Cfr. CABARRÚS, Carlos. A mesa do banquete do Reino, ITAICI, n.33 (set. 1998), pp. 17-22.

(3) Todo impulso, convite, sugestão de Deus. Em geral, leva para o Senhor e seu Reino, quer dizer, tudo que vem do Bom Espírito.

(4) Enganos, convites, sugestões do mau espírito levam a separar-se de Deus e seu Reino, quer dizer, tudo que vier do mau espírito. É o que corresponde, na linguagem de Inácio, às moções procedentes do mau espírito.

(5) A proposta que desenvolvemos no Instituto Centroameriano de Espiritualidade (ICE), para ajudar as pessoas neste processo, está sistematizada em uma Oficina de crescimento pessoal (OCP): uma experiência pascoal de aprofundar no próprio processo machucado, na parte ferida, para depois ir em direção ao poço da positividade, em direção ao manancial onde está Deus, que é a Água Viva. É uma experiência de reconhecer a “Deus mais íntimo que minha própria intimidade” (Santo Agostinho), mas partindo da cura e auto-conhecimento da pessoa.

(6) Uma das formas como realizamos este itinerário no ICE é com a oficina de um mês, que se inicia com dez dias de conhecimento pessoal, continua com quatro dias de discernimento e termina com 12 dias de Exercícios com acompanhamento personalizado.

(7) TELLECHEA, José Ignácio. Inácio de Loyola, sozinho e a pé, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1996.

(8) CABARRÚS, Carlos Rafael. “Ser amigos de los pobres, de los laicos, de las mujeres… nos hace amigos en el Señor: los nuevos desafios de la comunidad jesuítica”, Diakonia, XXII-88. Managua, oct-dic. 1998, p. 33.

(9) Na tradução foram usadas as seguintes edições:

  • Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. Tradução do autógrafo espanhol: Joaquim Abranches, S.J. Edições Loyola, São Paulo , Brasil – 1985;
  • Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais. Apresentação, Tradução e Notas do Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici. Edições Loyola, São Paulo, 2000;
  • Diário Espiritual de Santo Inácio de Loyola. Tradução e Notas de Pe. Armando Cardoso, S.J. Edições Loyola, São Paulo, Brasil- 1977;
  • Autobiografia de Inácio de Loyola. Tradução e Notas de Pe. Armando Cardoso, S.J. Edições Loyola, São Paulo, Brasil- 1991;
  • Constituições da Companhia de Jesus e Normas Complementares, anotadas e aprovadas pela Congregação Geral XXXIV. Edições Loyola, São Paulo, Brasil- 1997;
  • Cartas de Santo Inácio de Loyola (3 volumes). Tradução e Notas do Pe. Armando Cardoso, SJ. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1988-1993.

 

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